Vozes que Tecem Igualdade
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Roda de conversa reúne mulheres no Centro Cultural Yves em Tiradentes e debate poder, cuidado e igualdade. Iniciativa foi da Apae com o apoio da Secretaria de Assistência Social.
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Histórias de mães que criaram sozinhas seus filhos, lembranças de mulheres que enfrentaram a ditadura, relatos sobre trabalho invisível e desigualdade salarial. A roda de conversa realizada no dia 2 de março, no Centro Cultural Yves, transformou experiências pessoais em reflexão coletiva sobre direitos, poder e o papel da mulher na sociedade.
O encontro integrou a programação do 8 de março, dia que marca as lutas de mulheres na sociedade, em parceria entre a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Apae. A mediação foi conduzida por Juliana Morais, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Comdim).
A proposta inicial foi simples: cada participante deveria citar uma influência feminina e explicar o motivo. A maioria mencionou a própria mãe e isso trouxe à tona trajetórias marcadas por trabalho precoce, criação de muitos filhos, enfrentamento da pobreza e casos de violência doméstica e doença.
Houve também referências a figuras históricas, como a estilista Zuzu Angel, que denunciou o desaparecimento do filho durante o regime militar, e às intelectuais negras Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, lembradas pela contribuição ao pensamento feminista no Brasil.
Ao longo da conversa, Juliana apresentou dados sobre desigualdade de gênero. Segundo ela, as mulheres são maioria do eleitorado brasileiro (mais de 55%), mas ocupam fatia minoritária nos espaços de poder. Citou como exemplo o Senado, com 16 mulheres entre 81 integrantes, e a Câmara dos Deputados, onde 93 das 513 cadeiras são ocupadas por mulheres.
No âmbito local, destacou que, em 308 anos de história, destes 137 anos de república, Tiradentes teve apenas quatro vereadoras. Hoje, são duas parlamentares na Câmara Municipal, eleitas após muita campanha. A presidente do Comdim defendeu que a sub-representação feminina impacta diretamente a formulação de políticas públicas. “Quem decide sobre licença-maternidade, creche, saúde da mulher e violência doméstica são, em sua maioria, homens”, afirmou.
Trabalho invisível
O debate também abordou a divisão desigual do trabalho doméstico. Dados mencionados durante o encontro indicam que cerca de 85% do trabalho de cuidado no Brasil é realizado por mulheres e meninas. A diferença salarial, segundo a presidente do conselho, ainda gira em torno de 21% a menos para mulheres que exercem as mesmas funções que homens.
Participantes relataram mudanças geracionais na criação dos filhos e netos, com maior incentivo para que meninos aprendam tarefas domésticas desde cedo. Para Juliana, a transformação cultural começa na educação, mas depende mais ainda de mudanças estruturais.
Ao final, o encontro convergiu para a importância de redes de apoio entre mulheres. A solidariedade e a escuta ativa foram defendidas como formas decisivas para interromper ciclos de violência e ampliar a participação feminina na política.
Feminismo e distorções
O termo “feminismo” surgiu na discussão cercado de controvérsias. Algumas participantes relataram que a palavra ainda é usada de forma pejorativa e a mediadora argumentou que o conceito central do feminismo é a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. “O feminismo não é sobre ser mais, é sobre ser igual”, resumiu.
A conversa avançou para temas como violência doméstica, dependência financeira e a dificuldade de romper relações abusivas. Juliana criticou a ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, classificando a expressão como um mecanismo cultural que contribui para perpetuar a violência.
No final todas foram convidadas para as demais atividades da semana do 8M, como o evento organizado pelo Comdim no Largo das Mercês, com oficinas, vivências culturais e confraternização e demais atividades da Semana da Mulher da Apae.
A roda terminou como começou: em círculo, com troca de experiências, sem unanimidade, mas com consenso em um ponto: a necessidade de ocupar espaços, ampliar vozes e transformar a cultura que ainda naturaliza desigualdades.


































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