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"Cinema independente é uma luta"

Rabay Artemídia e Theo Guarnieri revelam nesta entrevista os bastidores e reflexões sobre o cinema da região que bateu recorde de exibições na 29ª. Mostra de Cinema de Tiradentes.


Theo Guarnieri (esq.) e Samuel Rabay (dir.) exibem seus filmes na Mostra Territórios Mineiros
Theo Guarnieri (esq.) e Samuel Rabay (dir.) exibem seus filmes na Mostra Territórios Mineiros

Como a Maria Fumaça que atravessa a cenário urbano e história, dois filmes passam por esta conversa. Eles trazem sons reconhecíveis e ruídos ordinários que revelam uma paisagem cultural complexa, onde música, cidade e corpo se contaminam mutuamente nisso que é o cinema.


No Campo das Vertentes, o audiovisual surge como uma tentativa de traduzir em forma aquilo que insiste em vibrar invisível. Não sem esforço e insistência. E embora as políticas públicas de fomento apareçam somente como respiro inicial, elas foram capazes de transformar a cena sem suprimir hiatos, atrasos ou garantir estabilidade. Ou seja, tá bom, mas falta melhorar.


Fazer cinema independente no interior revela-se como um campo que se sustenta mais pela crença coletiva do que por garantias concretas. Contudo, permanecer fora dos grandes centros, nesse contexto, é menos um gesto romântico e mais uma escolha ética. Porque o interior se apresenta como espaço de encontros, de saberes compartilhados e de afetos que constroem imagens em conjunto.


Participam desta entrevista Theo Guarnieri, diretor de Kastora dos Anjos, e Samuel Rabay, que com Joan Román, realiza Som João del-Rei. Os dois filmes integram a Mostra Territórios Mineiros – Série 2 e serão exibidos no Cine-Teatro Yves Alves, às 19h do sábado (31).


Mana: Fale um pouco sobre o filme de vocês e o processo que levou às escolhas do filme.


Rabay Artemídia (RA): O que motivou esse filme foi a minha vivência em São João del-Rei e a experiência diária com essa paisagem sonora que é muito diversa e rica. Aqui a gente convive o tempo todo com os sinos, a Maria-Fumaça, as tecelagens, as orquestras, o carnaval, os sons da rua. É uma cidade que ativa a audição o tempo inteiro. Tudo acontece ao mesmo tempo.

No início, o que mais me chamou a atenção foram os sinos. Foi a partir deles que comecei a me sensibilizar para a paisagem sonora de São João del-Rei. Desse interesse nasceu o Sinógeno, um projeto que fiz em parceria com a Maria Anália, em que eu sampleei os sinos da cidade e misturei com música eletrônica. Foi um trabalho totalmente independente, mas que abriu vários caminhos e me deixou ainda mais atento para essa escuta.

Esse novo trabalho surge como uma continuidade desse processo, mas ampliando o olhar e a escuta para outros sons. Não só os sons mais reconhecidos culturalmente, mas também os ruídos do cotidiano. Porque, no fim das contas, todos os sons da cidade são culturais. Como

Som João del-Rei nasce em outro momento, num contexto de transformação do cenário cultural a partir das leis de incentivo que surgiram depois da pandemia, especialmente a Aldir Blanc e a Paulo Gustavo, foi um projeto realizado com verba pública.

O setor estava tão desamparado que uma lei emergencial acabou criando condições melhores do que aquelas que existiam antes. Muitos projetos passaram a acontecer graças a essas políticas públicas.

Foi muito importante poder sair da lógica da broderagem e da independência total para um modelo mais estruturado, com orçamento, planilha e remuneração justa para todo mundo envolvido. O processo foi longo, com toda a burocracia dos editais até a liberação dos recursos. Quase dois anos de trabalho até finalizar o filme, em setembro do ano passado. Agora ele começa a circular em festivais e a abrir novas possibilidades.

A equipe também foi fundamental. O Juan Román assina a montagem e a direção de arte. A captação de som é da Maria Anália, e as imagens são do Thiago Morandi, documentarista de São João del-Rei, que trabalha há anos registrando a cidade. O filme se apoia em cerca de dez anos de imagens de arquivo dele, que servem como base documental e etnográfica do projeto.

É um trabalho que reúne mais de 30 expressões culturais da cidade e uma quantidade enorme de material. Foram cerca de 600 GB de vídeo e muitas horas de áudio. Depois, eu ouvi tudo isso, selecionei os trechos que mais me interessavam e comecei a compor a trilha.

A trilha tem 14 minutos e não funciona apenas como paisagem sonora. Existe uma organização musical ali: batidas eletrônicas, recortes rítmicos, camadas de som. A partir dessa trilha, foi feito o trabalho de montar as imagens. Olhar esse enorme arquivo do Thiago, selecionar os takes, criar um roteiro visual que dialogasse com o som. Foi um processo intenso de curadoria e montagem, uma verdadeira loucura, mas que resultou num projeto que, apesar de parecer caótico à primeira vista, é uma pesquisa cultural profunda sobre São João del-Rei.

 

Theo Guarnieri (TG): A motivação para eu escolher fazer um documentário sobre o Kastora dos Anjos vem de uma experiência de mais ou menos quinze anos atrás. Eu estava numa noite bem intensa em Ouro Preto, parei num bar de jazz e, quando me dei conta, a pessoa que fazia a percussão da banda estava tirando notas absolutas de objetos comuns, percutindo tudo o que estava ao redor.

Para mim, como alguém que observa e analisa a música e o fenômeno musical, aquilo não era só algo para ser visto no momento do acontecimento, mas um processo de pesquisa extremamente inovador. Era como se quem estivesse percutindo aqueles objetos conhecesse profundamente o mistério sonoro de cada um deles, o equilíbrio do som que aquele objeto podia produzir. Existe ali uma intenção de força aplicada a algo que não foi criado para produzir som, que não tem essa tecnologia ou essa função utilitária e mesmo assim, o som acontece.

Com o tempo, percebi que esse processo foi se tornando cada vez mais refinado. No acúmulo de linguagem a partir de objetos banais, caixa de fósforo, colher, papel, ele acaba estendendo os limites da percepção sonora, quase como um contraponto à música perceptiva tradicional.

Além disso, o Kastora é uma pessoa cheia de histórias, conterrâneo de Ouro Preto, com um carisma muito forte, alguém que é profundamente amado pela cidade. E o meu interesse hoje passa muito por reconhecer que existem muitos mestres e mestras da cultura brasileira atuando na rua, de maneira muito elementar, muito essencial, e que são fundamentais para que a gente reconheça a nossa própria cultura.

Eu vejo o Kastora dos Anjos como uma dessas pessoas que ajudam a eternizar a memória musical brasileira. Ele não é apenas um músico ímpar, mas alguém que provoca a música, cria uma sensação de nova linguagem, de estranhamento. A música dele não se orienta por uma lógica de mercado, não busca padrões eurocêntricos, harmônicos ou clássicos. Ele cria um universo musical a partir dos objetos e do próprio corpo. Um universo que é novo, divertido e extremamente cativante.

Então, a intenção maior desse trabalho é me aproximar desses mestres da cultura brasileira, tanto pelo acervo musical que eles carregam quanto pela possibilidade de refletir, compreender e amar isso como cultura. O Brasil precisa valorizar mais pessoas que não carregam apenas uma força artística, mas que também espelham a própria identidade cultural do país.

No caso do Kastora, a gente vê um artista de Ouro Preto, amado por Ouro Preto, que produz um som que traduz profundamente os elementos sonoros da região e oferece um deslumbramento sonoro muito bonito. Algo para ouvir, contemplar e, principalmente, sentir.

 

Mana: A ideia geral é morar em grandes centros para fazer audiovisual. Por que ficar no interior e fazer audiovisual?

 

TG: Eu acho que é uma escolha muitas vezes difícil e é nada romântica também, pelo sentido de que no interior as opções de trabalho e as remunerações são muito inferiores às oportunidades de emprego e remunerações de cidades grandes. Ao mesmo tempo, existe um sentimento muito bonito de que as pessoas que trabalham nesse mesmo setor querem, cada vez mais, melhorar juntas e tornar esse material coletivo mais potente e mais forte. Algo que, muitas vezes, numa cidade grande acaba indo para um lado mais capitalista, de concorrência no sentido de disputa.

No interior, eu vejo a concorrência mais no sentido original da palavra: correr junto. Um trabalho coletivo, de troca, de construção conjunta. Claro que não é simples, é desafiador, mas acho que o pessoal de Tiradentes e de São João del-Rei, especialmente no audiovisual, tem se estabelecido muito bem. É muito bonito ver isso crescendo e ganhando maturidade de uma forma natural.

Os desafios existem, como em qualquer lugar, inclusive nas cidades grandes. Mas é também uma escolha: acreditar em quem está ao seu redor. Entender que, muitas vezes, quem está ao seu lado, seus amigos, seus pares, carrega conhecimentos muito antigos, saberes profundos, que acabam ficando invisibilizados pelo mercado, mas que são tão potentes quanto qualquer outro.

O interior está cheio de pessoas incríveis, em todas as pequenas cidades do Brasil, com culturas que transbordam uma força difícil de medir. Isso é muito forte e muito bonito de ver.

Ao mesmo tempo, economicamente é muito difícil. É uma luta constante, uma escolha por acreditar nos próprios ideais e não largar os ossos, mesmo quando o caminho é duro.


Mana: De toda cadeia do audiovisual, de tudo o que vocês produzem, qual maior desafio encontrado por vocês? Qual pega mais?


RA: Eu acho essa pergunta complexa porque ela envolve o que a gente entende como mercado cultural de forma geral, especialmente quando compara interior e grandes centros. O mercado cultural, por si só, já é muito competitivo e, para o artista independente, trabalhar com cultura é quase sempre um ato de fé e de resistência. Isso vale tanto para quem está no interior quanto para quem vai para os grandes centros tentando cavar espaço.

Nos grandes centros existe essa ideia de que tudo acontece lá, mas também existe muita desigualdade. Muitas vezes, quem chega sem padrinho, chega como um forasteiro mesmo. Tem que comer muita pedra para conseguir se estabelecer. Existe uma ilusão meritocrática de que, se você batalhar muito, vai conseguir “chegar lá”, virar um grande nome. O mercado cultural alimenta muito esse sonho do sucesso superlativo, como se só tivesse dado certo quem vira um Wagner Moura da vida.

Mas entre quem está começando agora e esse lugar extremo da fama, existem muitos caminhos possíveis, muitos cenários de atuação e muitas formas legítimas de trabalhar com arte. Aqui no interior, apesar de todos os desafios, existe uma cadeia produtiva acontecendo, gente produzindo, realizando, criando seus próprios ecossistemas culturais e comunicativos. E isso também é sucesso.

Trabalhar com arte nesse sentido, conseguir realizar projetos, se manter ativo culturalmente, isso já é uma forma de êxito. Claro que a gente quer mais estabilidade. O trabalhador da cultura quer o básico: poder comprar uma casa, ter segurança, direito de ir e vir, acesso à própria cultura. Não se trata de ficar milionário ou acumular capital, mas de ter direitos mínimos, como qualquer outra categoria de trabalho.

O artista quase nunca tem CLT, quase nunca tem estabilidade. Vive como autônomo, muitas vezes adoecendo, com aposentadoria sempre distante. Nesse sentido, no interior pode ser ainda mais desafiador, mas são desafios diferentes dos grandes centros. A gente existe aqui, a gente realiza aqui, e isso não é pouco.

Eu acho importante quebrar essa lógica de que só vence quem chega num lugar muito específico de reconhecimento ou fama. Existem realizações em cada lugar, em cada escala.

TG: Eu acho que, no interior, as ofertas de trabalho voltadas à comunicação visual não garantem estabilidade para pessoas independentes ou autônomas. Por isso, mesmo com capacidade técnica e profissionalismo, é muito difícil continuar lutando, seja como artista plástico, músico ou profissional de teatro. Produzir arte no interior é um desafio constante, sobretudo quando se sabe que esse trabalho não gera uma estabilidade promissora.

Em comparação com as grandes metrópoles, esse cenário é ainda mais duro. Nos grandes centros, há uma oferta maior de publicidade, de serviços ligados ao cinema e ao setor cultural em geral. A arte é mais consumida e, consequentemente, há uma demanda maior por mão de obra. No interior, isso não acontece da mesma forma.

Para mim, o grande desafio é olhar para o trabalho que a gente faz coletivamente e pensar: “Daqui a três anos, será que teremos estabilidade para trocar equipamentos, montar uma estrutura independente, ter um escritório, construir uma casa, ou simplesmente ter segurança para tomar nossas próprias decisões?”. Essa autonomia depende diretamente de estabilidade.

Se a pessoa não é altamente valorizada pelo mercado ou não tem uma rede de contatos já consolidada, é muito provável que passe por um longo processo de frustração até que algo aconteça. Porque o trabalho é bem feito, há qualidade, profissionalismo e entrega de resultados, mas, pela lógica do mercado no interior, isso muitas vezes não tem valor.

Então, eu diria que o maior desafio é a sustentabilidade, a estabilidade necessária para continuar. A gente acaba ficando à deriva, dependendo de políticas públicas e de incentivos. É claro que, com o governo Lula, algumas coisas começam a se reorganizar de maneira mais interessante, mas, ainda assim, se a pessoa não tem apoio estadual ou municipal e depende exclusivamente da prestação de serviços, é muito difícil projetar um futuro para o próprio trabalho.

Isso impacta diretamente a tomada de decisões. As opções são poucas, as alternativas são limitadas. O que acaba acontecendo é que pessoas que trabalham com coisas semelhantes se unem para produzir o melhor possível e esperar o melhor resultado possível.

A oferta não existe: ela precisa ser criada. E isso é ainda mais desafiador, porque gera mais trabalho.

Quando se trabalha com produção no interior, a carga de responsabilidades é maior. É preciso assumir várias funções para fazer as coisas acontecerem. No fim das contas, a gente depende muito mais de incentivos do Estado. E, querendo ou não, tudo acaba voltando para a questão financeira.

Nos grandes centros existe uma concentração de demanda: os grandes produtores estão ali, o fluxo se aglomera, e isso garante continuidade de trabalho. Claro que também é competitivo, porque há mais gente disputando espaço, mas, ainda assim, existe um movimento em que as pessoas crescem juntas. No interior, esse processo é muito mais frágil e incerto.

 

Mana: Vocês viram que o Rodrigo Teixeira está aqui na cidade, na Mostra de cinema? Ele disse que no ano que vem e próximos anos o Brasil dificilmente irá concorrer ao Oscar. Ele é produtor de Ainda Estou aqui e Me Chame pelo meu nome... Disse que era preciso aproveitar as portas abertas por Kleber Mendonça e Walter Salles e que é preciso encontrar jovens cineastas... Peguei a reflexão e angulei para a produção aqui, local... Será que teremos essa profusão de filmes na 30a. Mostra de Cinema como foi esse ano?

 

TG: O cinema que circula no mundo, esse cinema de alta produção, exige orçamentos estratosféricos. São câmeras caríssimas, equipes grandes, profissionais bem pagos, produção robusta e atores reconhecidos. O problema do cinema independente não é falta de qualificação, mas falta de verba. Com mais orçamento, muitos filmes independentes teriam uma projeção muito maior, especialmente porque os grandes filmes investem milhões em marketing, algo praticamente inacessível para quem produz de forma independente.

Outra questão é a valorização do cinema brasileiro no exterior. O cinema brasileiro sempre foi forte, em todas as suas linguagens, independentemente de prêmios internacionais.

Existe ainda uma expectativa externa, quase uma síndrome de vira-lata, como se o Brasil só tivesse valor quando é reconhecido lá fora. Claro que esse reconhecimento é importante, fomenta mercado e atrai público, mas não pode ser a única régua.

Para quem está no cinema independente, esse sucesso internacional é algo distante, atravessado por sorte, contatos e privilégios. O que precisa ser afirmado é que o cinema brasileiro é potente, diverso e capaz de ocupar todos os espaços.

 

Mana: Então, mas você sente esse otimismo pro cinema independente no interior? Você tem esse otimismo?

 

TG: Eu sou otimista em relação ao cinema em geral. Eu vejo muitos filmes independentes de baixo orçamento que me emocionam profundamente. Para mim, isso já está acontecendo: eu assisto, eu consumo, eu vivo esse cinema. Nesse sentido, o cinema independente já ocupa um lugar muito potente, ainda que nem sempre seja percebido assim.

O que está em questão não é a qualidade artística, mas a forma como esse cinema poderia ser melhor estruturado nas suas relações de trabalho. O cinema independente funciona quase como estar no meio de uma tempestade constante, porque não há garantias. Tudo é feito com um nível de profissionalismo ampliado, em que as pessoas acumulam funções: o diretor também cuida da distribuição, quem faz fotografia aprende sozinho, o profissional de áudio assume múltiplas frentes para viabilizar o projeto.

O cinema independente é uma luta. E isso também se torna uma linguagem. É a escolha de quem decide permanecer criando, em vez de abandonar essa possibilidade, com a esperança de que uma ideia, um tema ou um filme consiga alcançar mais pessoas.


RA: Existe também um hiato nesse processo. As leis de incentivo atrasam, os editais demoram a sair, por exemplo, o edital estadual que já deveria ter sido lançado e ainda não saiu. A expectativa é que isso aconteça no próximo ano, mas, enquanto isso, o setor fica em suspensão.

Quando o recurso finalmente sai, ele fomenta várias produções ao mesmo tempo; depois, vem outro intervalo até a próxima safra. O cinema acaba ficando muito refém das políticas públicas. Não é um campo instantâneo: tudo demora. Um filme leva anos para existir. Às vezes, um edital lançado em 2023 só vai resultar em um filme circulando três anos depois. É um tempo longo, que exige fôlego e resistência.

 

Mana: Qual é a relação que vocês estabelecem entre o audiovisual e a música? Vocês pretendem continuar realizando filmes ligados a essa temática ou a ideia é ampliar para outros assuntos e linguagens? Porque eu tô achando isso uma característica muito forte de todos os filmes. Mesmo de forma indireta.

 

TG: Existe uma piada interna de que, se você chacoalhar uma árvore por aqui, caem três violonistas. A região tem uma tradição musical muito forte: o Conservatório, a Bituca, a orquestra bicentenária, bandas, rodas de choro e muitos compositores que passaram ou se fixaram em Tiradentes. Às vezes sinto que vivemos uma espécie de belle époque mineira da música.

Tenho uma relação muito intensa com a música, porque acredito que ela seja a linguagem mais subjetiva e, por isso mesmo, capaz de acessar sentidos profundos e ancestrais. Essa potência sempre me despertou curiosidade. Eu sempre vou estudar música e tenho o desejo de construir, ao longo da vida, um acervo aberto de música brasileira, bem registrado, à maneira do Ensaio, do Fernando Faro.

Gosto de me aproximar de pessoas que me provocam intelectualmente e de uma arte que esteja viva, que fale do seu tempo e questione limites. É assim que penso meu futuro no audiovisual: não restrito à música, mas sempre atravessado por ela, pela escuta e pela vontade de criar obras que dialoguem com o mundo. Mas até tenho também vontade de filmar um filósofo de Brasília pouco conhecido que gosto muito.


RA: Eu sou suspeito para falar, porque gosto muito da linguagem sonora. Foi a primeira forma de expressão que exerci, antes mesmo da leitura, então tudo começou pela música. As linguagens são muito próximas, e eu sempre me interessei por sample, remix e essas formas de recombinação.

A linguagem visual dialoga muito bem com isso, ela complementa o som. Em São João del-Rei, por exemplo, o processo começou pela música: primeiro a trilha existiu sozinha, pensada para ser ouvida. Depois veio a imagem, como uma segunda camada. Ouvir apenas o som já funciona como experiência; ver o filme, com a profusão de imagens, cortes e efeitos, cria outra experiência completamente diferente.

Esse diálogo entre som e imagem é o que mais me interessa agora. Por enquanto, minha linha é essa: som e imagem caminhando juntos. Não me vejo, pelo menos por enquanto, como um diretor interessado em outros gêneros mais narrativos, como suspense ou melodrama, apesar de reconhecer a força dessas linguagens.

 

Mana: Gostaria de escutar uma avaliação da participação de vocês na Mostra. Como está sendo?

 

TG: Saber que, na minha cidade, existe uma programação cultural que acontece durante vários dias, mostrando diversidade, novidade e coisas que a gente quer ver e sentir... É um prazer participar e acompanhar tudo isso acontecendo.

Vejo uma força sendo construída na cidade que a engrandece muito, tanto no aspecto da valorização cultural quanto no fortalecimento do pertencimento e da identidade da região. Ver os trabalhos passando na tela, perceber as pessoas se sentindo reconhecidas e emocionadas com o próprio trabalho é algo muito potente. Isso é bom para a economia, para a geração de trabalho, para o cinema, para a formação intelectual e para os debates. Os encontros são excelentes, é quase um processo de cura coletiva.

Sobre como eu estou me sentindo participando, eu me sinto bem. Estou achando divertido, porque a expectativa em torno desse filme é muito boa. O resultado é forte, e eu espero que as pessoas gostem. Acredito que é um filme que pode atravessar gerações, e eu quero que esse trabalho continue circulando de todas as formas possíveis. Eu valorizo muito isso.

 

RA: Além de tudo o que o Theo trouxe, que é muito verdadeiro, esse espaço funciona como uma janela extremamente interessante, tanto em nível nacional quanto internacional. Essa semana aconteceu uma coisa muito curiosa: um cineasta chinês entrou em contato comigo interessado em Som João del-Rei a partir de um festival em Blumenau. No começo eu fiquei meio desconfiado, aquela cautela básica com contatos pela internet, mas fui checar e vi que ele é, de fato, um cineasta, já participou de festivais aqui no Brasil e atualmente está exibindo um filme experimental em um festival na China. Isso é muito significativo.

A partir dessa checagem, inclusive, acabei conhecendo vários festivais brasileiros de cinema experimental que eu ainda não acompanhava e que dialogam muito com a proposta de Som João del-Rei... São conexões que vão se formando, pontes que surgem de maneira quase inesperada e não só internacionalmente, mas também dentro do próprio Brasil.

Aqui, por exemplo, me aproximei mais de diretoras e diretores da Mostra Territórios Mineiros. Estive com a diretora de Mazinho do Trompete na primeira sessão. A gente já se conhecia, mas dessa vez conseguimos conversar com mais calma e fortalecer essa troca. Também conheci a equipe de outros filmes e, a partir desses encontros, começamos a articular ações conjuntas.

Estamos, inclusive, produzindo uma festa chamada Territórios Mineiros, que acontece nesta sexta-feira, com produção da Produtora Peteca. Convidei os diretores, as equipes e as pessoas envolvidas na mostra. A ideia é que seja um momento de confraternização, de criação de laços e de fortalecimento dessas redes dentro do estado, nacionalmente e também internacionalmente.

É isso que eu vejo como um dos aspectos mais potentes desse processo: as conexões que se criam, os encontros que acontecem e as possibilidades que se abrem a partir disso.




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