A colheita do som
- Daniela Mendes
- há 5 dias
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Ao participar de seis filmes na Mostra de Cinema, a arte de Maria Anália se funde com o bom momento da cultura local.

De repente, um mestre e um bom trampo
Audiovisual é outro nome para cinema, mas são muitos os que pensam o “visual” e esquecem o som, que também conta uma história. A percussionista, educadora e produtora Maria Anália da Silva é diferente. Vê com os ouvidos e escuta com os olhos para ativar sentimentos.
O último ano da artista foi marcado por uma intensa atividade profissional, atravessada pelas mudanças nas leis de incentivo, que redesenharam o cenário da música e do audiovisual em São João del-Rei e Tiradentes. A partir desse novo contexto, Maria Anália ampliou sua presença em diferentes frentes.
Este ano, ela colhe na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes o resultado de um trabalho árduo: cinco filmes em que esteve à frente da captação direta de som, quatro na construção de trilhas sonoras e da edição de áudio, além de um curta documentário que aborda sua própria arte.

Este último tem um enredo que toma a trajetória de Maria como matéria narrativa. O filme investiga seus processos de composição, a relação com a música e a construção de trilhas sonoras. Anália foi realizado em um tradicional ferro-velho entre São João del-Rei e Santa Cruz de Minas. Dirigido por Elizabeth Ramos e Vitória Labrudi, teve também direção de pesquisa de Pablo Araújo. Este projeto evidencia a experimentação sonora que é marca registrada da artista.
Os outros filmes incluem obras que se debruçam sobre trajetórias femininas locais. Um deles acompanha Duda, trancista de São João del-Rei; outro apresenta o trabalho de Laura, artista visual cuja produção se caracteriza pela força expressiva das pinturas e também é em parceria com Pablo, que faz o violão da trilha. São três projetos produzidos pela Sobradinho Audiovisual, nos quais a entrevistada atuou na captação de som direto e na criação da trilha sonora, consolidando uma rede de colaboração entre as realizadoras.
Mazinho, este filme pela Efigênia Audiovisual, é citado com especial afeto. Maria Anália destaca a autonomia criativa com que trabalhou no projeto, dirigido por Mayara e Mercedes. Ao lado do multiartista e diretor Samuel Rabay, foi orientada por ele a captar sons característicos da cidade. Alguns destes foram utilizados para a construção da música de Som João del Rei.
Com o diretor Theo Guarnieri, da produtora Peteca, ela foi para Ouro Preto e participou da captação direta do filme Kastora dos Anjos, contribuindo também para o desenho de áudio. A obra traça um retrato sensorial do percussionista Kastora, artista que transforma gestos, objetos e silêncios em música.
Para ela, mais do que trabalho, essas experiências refletem o encontro entre pessoas, linguagens e modos de fazer cinema na região. A escolha pelo som como campo de atuação e pela escuta como prática aparece, assim, como desdobramento natural de uma trajetória guiada pela música e pelo desejo de explorar, nos detalhes do áudio, outras formas de narrar o mundo. Uma história, enfim, que se mistura à produção cultural do Campo das Vertentes.
Era uma vez um violão ruim

Desde cedo, no ambiente familiar em Belo Horizonte, Maria Anália viu sua vocação se desenhar. Suas primeiras referências sonoras foram mediadas pelo rádio e por uma rotina doméstica atravessada pela música.
“A primeira coisa que eu penso, quando falo de música, é o rádio”, lembra.
Ainda criança, acordava cedo para ir à escola ao som de programas tradicionais, como o de Acir Antão, atração radiofônica dedicada ao choro e a repertórios populares antigos. “Todo dia, cinco e meia da manhã, tocava O Trenzinho do Caipira. Era isso que me acordava.”
A presença constante do rádio marcou profundamente sua formação sensível. O ambiente familiar reforçava essa relação: os pais cantavam com frequência, e um tio mantinha uma coleção de discos de vinil, com especial interesse pela música de protesto. Apesar disso, ninguém na casa tocava instrumentos de forma sistemática ou tinha formação.

A exceção foi o pai, pedreiro, que decidiu aprender violão de maneira autodidata. “Ele se satisfazia com três notas”, relembra com afeto. A lembrança permanece como um exemplo de relação simples e genuína com a música, uma lição grandiosa em sua singeleza.
A prática instrumental entrou definitivamente em sua vida a partir desse convívio. Quando um irmão começou a tocar violão e, depois, adquiriu um baixo, ela passou a experimentar os instrumentos. Esperava ele sair para assumir o violão. Entre revistas de cifras, páginas da internet e repertórios do rock nacional, foi construindo sua autonomia musical.
Havia também um violão em casa, compartilhado entre todos, que acabou protagonizando um episódio decisivo. Aos 15 ou 16 anos, ao sentar-se distraidamente sobre o instrumento esquecido no sofá, ela o quebrou. O detalhe é que o violão havia sido emprestado por um primo.
A solução veio da curiosidade e da insistência. “Eu fui lá e consertei o violão”, disse, entre risos. Mesmo com recursos precários, conseguiu remontá-lo, recolocar as cordas e seguir tocando. “Era um violão que já não era bom; eu consegui deixar ele pior”, brinca, “mas eu consegui tocar.” A experiência revelou algo fundamental para sua trajetória: a disposição para experimentar, desmontar e reconstruir o som a partir do que se tem à mão.
Rebeldia encantadora de soluções
Ainda em Belo Horizonte, usufruía intensamente do aparato cultural da cidade. Frequentava o Palácio das Artes e foi estudar música na Arena da Cultura, onde descobriu a percussão.
“Eu fiquei puta, porque o instrumento tal era caro para caralho. O outro eu não tinha. O outro não tinha instrumento”, relata.
Até que um professor disse que percussão podia ser qualquer coisa. “Ah, é? Pode ser qualquer coisa?”, reagiu. “Então, se eu pegar uma baqueta e sair tocando por aí, é percussão.” Ri de si mesma como era revoltada: “Eu queria mudar o mundo! Vou mudar o mundo, vou inventar instrumentos, vou revolucionar o sistema. Como eu era inocente!” Inocente, explica, no sentido de depois descobrir que tudo aquilo já existia e havia muita gente fazendo.

Com um amigo, Maria Anália passou a vislumbrar a possibilidade de viver de música e de experimentar instrumentos alternativos. Não se encaixava bem na escola e era considerada uma pessoa difícil. Uma professora, no entanto, percebeu seu entusiasmo e a encaminhou para uma oficina com o luthier Leandro Cesar, que na época era assistente de palco do grupo Uakti.
De repente, um mestre e um bom trampo
Além do dom musical, Maria sempre sentiu familiaridade com trabalhos manuais.
“Meu pai era pedreiro, então cresci lidando com ferramentas e adquirindo noções básicas que nem todo mundo tem”, justifica, acrescentando que gente trabalhadora e pobre costuma ser “boa de serviço”.
Leandro a convidou para colaborar na construção de instrumentos em sua casa, a Casa Azul, em Belo Horizonte, um espaço bastante conhecido à época, frequentado por músicos experimentais, grupos de esquerda e artistas do carnaval. “O Leandro estava fazendo marimbas de madeira, um negócio pesadíssimo. E eu dando conta, trabalhando todo dia. Eu estava acostumada a trabalhar”, conta.
Esse período foi uma escola que a fez abandonar a faculdade de pedagogia e se dedicar à percussão, regência e tuba no Palácio das Artes. Nesse meio tempo, Leandro partiu para Portugal e deixou sob a responsabilidade dela a assistência de palco do Uakti. À época, ela sequer sabia o que era o grupo, e descreve esse encontro como um dos momentos mais fascinantes de sua vida.
Cabia a ela montar e desmontar os instrumentos, compreender seu funcionamento e identificar necessidades de reparo técnico, tarefa para a qual já estava preparada. Paralelamente, circulava pelo Carnaval, participava de rodas de jongo, do Congado e do Maracatu. Embora não integrasse formalmente nenhum grupo, transitava entre diferentes cenas, mantendo presença ativa e autônoma na vida cultural da cidade.
Apesar do horizonte promissor, sem recursos financeiros, morando com os pais no Alto Vera Cruz, seus desejos se viram encurralados. Queria sair de casa, mas a condição econômica tornava isso inviável. O trabalho com Leandro e o Uakti havia terminado, e ela se viu diante do vazio que costuma marcar o fim de grandes ciclos.
A roça
Nesse momento conturbado, surgiu a oportunidade de conhecer a casa de uma amiga em São João del-Rei. Mais de dez anos atrás, estudantes do recém-criado Campus Tancredo Neves da UFSJ passaram a ocupar uma pequena vila de casas em área rural próxima à universidade, conhecida como “Roça”. Foi ali que Maria Anália chegou.
Além do ambiente universitário, os sinos a arrebataram.
“Eu não sabia de sino, mano. Eu vim para cá e pensei: quem é São João del-Rei?”, descreve.
“Amei a cidade. Falei: ‘Nossa, que lugar massa pra caralho’. Eu estava sofrendo naquela outra cidade.” Encantada, voltou para casa, despediu-se da mãe e retornou para participar do Musik Expedition, festival realizado na cidade.
Já na faculdade, financiada por programas sociais, apresentou já no segundo ano um projeto de pesquisa em criação artística com bolsa, intitulado Sucata ao Som. Três ideias sustentavam a investigação: o som do sino, a experiência com o Uakti e a educação musical. “Subi na torre, pesquisei, conversei com sineiros, li livros. A universidade me acolheu demais”, afirma.
Depois vieram a pandemia, as dificuldades políticas do governo Bolsonaro e a morte da mãe, um período duro. Mas, acostumada a responder criativamente às adversidades, foi desse contexto que surgiram seus primeiros contatos com o audiovisual.
Dificuldade transformada em desafio

Durante a pandemia, Maria Anália passou a gravar em casa de forma independente. Com um aplicativo simples e um fone de celular, registrava ideias sonoras improvisadas. “Tem coisas minhas até hoje no Instagram que eu gravei no banheiro de casa, com celular”, revela. A experiência reforçou uma convicção:
“Não tem muito a ver com o equipamento, mas com a técnica e o entendimento sobre ela”.
Esses registros aproximaram-na de pessoas que seguem presentes em sua trajetória. Uma delas foi Samuel Rabay, que entrou em contato após vê-la tocar o sineiro, instrumento inventado por ela. “Ele achou massa e falou: ‘vamos gravar o sineiro’. E a gente gravou online.” Amigos virtuais, só se conheceram pessoalmente depois.
Outra colaboração importante foi com Elizabeth, da Sobradinho Audiovisual, que a ajudou a estruturar um portfólio para uma residência artística no BDMG Cultural, na qual Maria Anália foi selecionada. Dali surgiram trocas criativas que resultaram em trabalhos audiovisuais, como um curta de um a dois minutos unindo peças cerâmicas e trilha sonora original. “Era tudo muito rootszão, bem nível pandemia”, define.
Ainda assim, o projeto circulou amplamente, passou em editais e ganhou visibilidade. “Saiu até na capa do jornal Estado de Minas”, comenta. A parceria se estendeu e incluiu, posteriormente, a direção do filme sobre sua própria trajetória.
Mais tarde, integrou a produtora Peteca, também presente na Mostra deste ano. Foi ali que se aprofundou no audiovisual, participando de oficinas de construção de instrumentos, realizando entrevistas e articulando som e imagem, em paralelo à criação de trilhas sonoras.
Esse período coincidiu com o lançamento de seu primeiro disco, Anália (2021), que marca a consolidação de sua estética. “É quando eu falo: ‘mano, eu vou fazer a minha música’”, diz. Um gesto que sintetiza o amadurecimento artístico identificado ao longo da conversa.
Escuta como método
Para Maria Anália, criar em colaboração começa sempre pela escuta. Antes de compor, busca entender com precisão ou o mais próximo possível o que a outra pessoa deseja comunicar. “Que cor isso remete? Que sensação passa? Por que você quer dizer isso? Para onde quer chegar?”, enumera.
As perguntas funcionam como um mapeamento sensível do território onde o som vai se construir, incluindo o objeto simbólico que se deseja provocar e o sentimento que se pretende mobilizar em quem escuta.
Ela recusa a ideia de traduzir emoções de forma direta ou ilustrativa. “Não existe isso de ‘vou fazer um som que remeta a tal sensação’”, afirma. O processo é sempre instável e compartilhado, situado entre o que ela sente e o que imagina que o outro possa sentir. “É o que eu sinto próximo do que as pessoas mais ou menos sentem, dentro de um senso comum sonoro que existe.”
Nesse território intermediário, constrói texturas e narrativas. O que está em jogo não é um significado fechado, mas a criação de um campo de escuta.
“O que eu quero passar é sempre um sentimento muito meu, muito único.”
Maria Anália é, em si, uma existência forte, não apenas na música. Sua forma singular resgata sentimentos comuns e os conduz à linguagem sonora, revelando caminhos pouco explorados de comunicação e narrativa. Uma testemunha de tempos intensos que tornam o Campo das Vertentes um território tão especial.
Serviço:
Maria Anália — trajetória
Natural de Belo Horizonte, Maria Luiza Anália da Silva reside em São João del-Rei (MG). É percussionista, educadora musical e produtora de áudio, graduanda em Educação Musical pela UFSJ.
Desde 2014 desenvolve pesquisa em criação sonora e construção de instrumentos não convencionais. Sua formação inclui trabalhos com o músico e luthier Leandro César e com o grupo UAKTI, onde atuou como assistente de palco e colaborou em gravações.
2014–2017 — Formação na Escola Livre de Artes e no CEFART / Palácio das Artes, com ênfase em percussão, tuba e regência. Participação em grupos de percussão e apresentações em Belo Horizonte. Consolida sua atuação na percussão popular brasileira.
2017–2020 — Integra projetos musicais e cênicos, incluindo o grupo Thobias Jacó e a Grande Orquestra e o trio Ipura Pu. Atua como diretora musical e instrumentista em trabalhos de teatro.
2020 — Residente do LAB BDMG Cultural, iniciando uma fase de maior aproximação entre música, performance e audiovisual.
2021 — Lança o álbum autoral Anália. Participa do disco Objetos Musicais, da gravadora peruana Buh Records, com composição própria em homenagem a Walter Smetak.
2022 — Coordena a pesquisa Lú Amó, dedicada à construção de instrumentos cerâmicos. Coassina o álbum-visual Sinógeno, em parceria com Samuel Rabay, explorando a linguagem sineira de São João del-Rei.
Desde 2022 — Amplia sua atuação no audiovisual, trabalhando com captação direta de som, edição e trilhas sonoras para cinema e teatro, em parceria com as produtoras Sobradinho e Peteca.
2021–2022 — Idealiza e realiza o projeto educativo Construindo o Som, voltado à construção de instrumentos não convencionais e princípios da criação sonora.
Atualmente — Atua entre a música experimental e popular, articulando criação artística, educação musical e produção audiovisual, com trabalhos que dialogam entre tradição, inovação e território.







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