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Logo da criadora Daniela Mendes

Cinema com raízes

Filme produzido no São Dimas, em São João del-Rei, será exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes e faz da sétima arte uma prática cotidiana.


Duas mulheres posam para foto de seus rostos
Mercedes (esq.) e Mayara (dir.), do Efigênia Audiovisual

Vamos falar de cinema, mas o convite aqui é para esquecer a ideia de grandes centros, shopping centers, pipoca mais cara que um PF e narrativas moldadas por demandas de mercado. Não espere, tampouco, histórias que sequestram a cultura para um público acadêmico, restritas a códigos que produzem distinção. Entre um extremo e outro, trata-se de filmes que revelam as tramas das raízes do bairro São Dimas, em São João del-Rei. Na condução dessa cena está o Efigênia Audiovisual.


Mais do que uma produtora, trata-se de um Ponto de Cultura, ou seja, uma entidade da sociedade civil, sem fins lucrativos, que desenvolve atividades culturais contínuas, atuando como polo de vivência e aprendizado. Suas ações envolvem difusão e formação, com foco na diversidade e na gestão compartilhada de práticas audiovisuais, como cineclubes e cine-educação no São Dimas e também em outras periferias de São João del-Rei.


As produções costumam apresentar narrativas negras e feministas. Neste ano, pela segunda vez, o Efigênia Audiovisual participa da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, dentro da Mostra Territórios Mineiros, no domingo, 25, no Cine-Tenda, às 18h30, com o curta Mazinho do Trompete. O filme é um conto musical sobre a trajetória de um homem afromineiro obstinado a se desenvolver como trompetista. No ano passado, o coletivo participou da mesma mostra com o curta Princesa Macula e o Canto Triste, disponível no canal do YouTube da produtora.


Redestina: a que refaz destinos


O cinema do Efigênia Audiovisual aproxima o público do processo de criação, porque leva para a tela o imaginário vivido numa realidade conhecida. No ano passado, o curta Redestina alcançou forte repercussão local, somando cerca de 27 mil visualizações no YouTube, além das exibições em escolas e outros projetos sociais.


Frame do filme Redestina. Foto/Efigênia audiovisual
Frame do filme Redestina. Foto/Efigênia audiovisual
“A gente ficou nessa ideia da Tina, que é a personagem que promove uma mudança de destino. Uma mulher que estava destinada a ser dona de casa, servindo marido e filho, algo que a sociedade impõe às mulheres negras”,

explica a cineasta e congadeira Mayara Mascarenhas sobre o neologismo do título. “A gente fez ela jogar no bicho, enriquecer e se redestinar.


Mayara, ao lado da companheira, a produtora cultural e cine-educadora Mercedes Machado, também se “redestinou” há quase nove anos. Agora, a cineasta está grávida do primeiro filho e elas aumentam a família em São João del-Rei.

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Sua trajetória no cinema começou em São Paulo, onde exerceu diversas funções, inclusive como faxineira em sets de filmagem. Foi nesse ambiente que passou a observar os bastidores e aprender, na prática, as etapas da produção audiovisual, até se arriscar na realização de seus próprios projetos.


Depois de fazer cerca de quatro curtas-metragens, deixou São Paulo em 2017 em busca de uma mudança de vida. Morando no centro da capital, em meio ao ritmo intenso da metrópole, decidiu se mudar para São João del-Rei após visitar uma amiga que vivia na comunidade São Dimas.


A proposta era recomeçar em um lugar mais tranquilo, ainda sem clareza sobre como dar continuidade ao trabalho com o cinema independente fora do eixo paulistano. E embora a cidade contasse com universidade e presença estudantil, ela percebia o cenário cultural fragmentado e pouco articulado, ainda incerto. Mas veio para cá mesmo assim.


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Mayara não teve formação acadêmica formal na área, foi aos poucos compreendendo os elementos que compõem a direção cinematográfica, desde a imaginação até sua tradução em som, textura e imagem. E é essa formação empírica que hoje favorece a visão dela sobre educação audiovisual, campo em que também atuou em São Paulo. É daí que vem a ideia de oferecer oficinas para adolescentes como forma de ampliar o olhar e a percepção sobre o mundo.


Essa parte é fundamental no cinema de Mayara e Mercedes. O território é entendido como um espaço vivo e ancestral, que exige uma abordagem em que a câmera atua como ferramenta de realização. Os filmes delas reverberam memórias que permitem a convivência entre passado e presente, por meio do acesso a realidades, tradições, ancestralidade e espiritualidade. Trata-se, enfim, de uma forma de celebrar e compartilhar com o mundo o que se vive coletivamente.

“A gente trabalha a ideia de horizontalizar essa ferramenta, que é o cinema, para a periferia. Sobretudo da forma como eu aprendi, dá para fazer”,

afirma Mayara, sem deixar de reconhecer a sétima arte como um campo difícil e oneroso.


O fio condutor do congado


Foto cedida por Efigênia Audiovisual
Foto cedida por Efigênia Audiovisual

O congado foi o elo que acolheu as cineastas na comunidade do São Dimas. A partir dele, passaram a se inserir nas atividades locais, e Mercedes, professora de formação, deixou de exercer funções improvisadas para assumir, de fato, o papel de produtora cultural, enfrentando os desafios de uma cidade menor, com menos recursos técnicos do que São Paulo.


Contudo, os desafios são encarados diariamente, ora com financiamento, ora sem. “É a partir do sonho de trabalhar com isso, dessa maneira, com essa inspiração, que nasce a força do trabalho autoral. Essa é a nossa batalha. Entramos na comunidade, fomos acolhidas, passamos a pertencer e a devolver algo para eles”, avalia Mercedes.


No São Dimas, conheceram e foram acolhidas pela mestra, já falecida, Dona Maria Mártir, importante capitã em São João del-Rei. Depois, Mayara se tornou a segunda capitã da guarda do Congado Moçambique Catopé de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Mercedes, por sua vez, passou a organizar o grupo como secretária, reunindo documentação e atuando na captação de recursos.


A festa no bairro é quase centenária, e o grupo tem cerca de 26 anos. Foi nesse envolvimento contínuo com a comunidade que elas passaram a conectar uma experiência à outra. “Os temas dialogam muito com o feminino dentro da cultura popular. Foi isso que rendeu bons roteiros e bons filmes”, avalia Mayara.


Embora o grupo Congado Moçambique Catopé de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito tenha se estruturado neste século, a tradição congadeira no antigo bairro Lava Pés, hoje São Dimas, é muito mais antiga.


Todos os anos, em setembro, ocorre a festa, com a recepção de diversas guardas de congado, folias de reis da região e a realização da missa afroinculturada com o grupo de maracatu Raízes da Terra. O evento dura o dia inteiro e oferece café da manhã e almoço abertos à comunidade.


Além disso, o congado participa de festas e reisados promovidos por outras organizações de Minas Gerais e, vez ou outra, de outros estados. Nessas ocasiões, há apresentações e procissões regidas pelo princípio da reciprocidade, essencial para manter viva a tradição.


Nesse percurso congadeiro, elas encontraram uma temática audiovisual que dialogava com editais estaduais e, ao mesmo tempo, transformava sua própria visão de cinema.

“A gente retomou o audiovisual aqui em Minas Gerais, mas com um olhar voltado para a comunidade”,

explica Mayara. “Essa união com o congado foi muito importante. Dela surgiu o cinema itinerante, com a maioria dos filmes protagonizados por atores congadeiros.”


Hackeando espaços


No ano passado, todo o congado foi de ônibus para assistir à exibição do filme na Mostra de Cinema de Tiradentes. Cerca de 20 pessoas participaram da viagem. “É um povo muito orgulhoso do que faz. Durante o filme, eles gritam, no final cantam. A gente acaba hackeando o espaço, e isso é o mais interessante”, relembra Mayara.


O filme também foi exibido em mais de dez ações culturais em escolas. Quando parecia que o ciclo havia se encerrado, vieram as atividades da Semana da Consciência Negra. “A gente ia com a rainha e com todo o grupo. Eles gostam muito dessa parte. Todo mundo vai à escola apresentar o filme. Isso ajuda a enfrentar o preconceito e a desinformação desde a infância até os professores”, relata.


Bastidores da filmagem de "redestina". Foto Efigênia Audiovisual
Bastidores da filmagem de "redestina". Foto Efigênia Audiovisual

Depois, o trabalho chegou à Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, a APAC. Mais recentemente, voltaram ao espaço com Redestina e suas atrizes. “Foi maravilhoso encontrar aquelas mulheres e conversar com elas. Esses projetos geram retornos inesperados. Por isso gostamos de disponibilizar no YouTube e realizar exibições, inclusive em igrejas”, conta Mayara.


Ela relata, com entusiasmo, o impacto do filme na APAC. “Teve situações que a gente nem imaginava. Uma mulher comentou sobre as atrizes de biquíni. Normalmente, mulheres mais gordas sentem vergonha do próprio corpo, e ali estava uma delas dançando de biquíni.”


Agora, elas buscam recursos para retornar à APAC e desenvolver um novo trabalho audiovisual com as mulheres privadas de liberdade.


Território como protagonista


O cinema do Efigênia Audiovisual cria vínculos por meio da conexão entre cosmologias e geografia local. Esse encontro produz nos atores e espectadores um afeto semelhante ao experimentado em manifestações culturais e folclóricas, já que as imagens e narrativas priorizam as vozes e perspectivas de quem vive o território, revelando identidades e desafios por meio da linguagem imagética.


Bastidores./ Foto Efigênia Audiovisual
Bastidores./ Foto Efigênia Audiovisual

Assim, o território assume o papel central, materializando-se nos corpos para florescer na tela como memória coletiva e imaginação compartilhada. O roteiro se fortalece a partir da observação e da interpretação em diálogo com as artes visuais. Depois, esse mesmo espaço é repartido como um banquete simbólico, em que todos participam, celebrando sua cultura e afirmando sua permanência e soberania.


Mercedes explica essa experiência a partir de exemplos concretos. Ações simples, como aulas de reforço escolar, acabavam se transformando em processos criativos coletivos, envolvendo as mesmas crianças na realização dos filmes.


Com o tempo, o audiovisual passou a atravessar o cotidiano do São Dimas, criando vínculos imprevisíveis. Crianças levavam as mães, mães se sentiam à vontade para compartilhar vivências e conflitos, e o cinema deixava de ser apenas um produto para se tornar um processo vivo.


Bastidores./ Foto Efigênia Audiovisual
Bastidores./ Foto Efigênia Audiovisual

Segundo ela, esse tipo de prática se constrói em diálogo direto com a comunidade, abordando histórias, tradições e tensões locais. Ao compartilhar roteiros e discutir cenas com moradores, o próprio fazer cinematográfico se converte em formação, ampliando o entendimento coletivo sobre a cultura e fortalecendo identidades.


Mercedes destaca que essa abordagem contrasta com a lógica dominante da indústria audiovisual, marcada pela desigualdade e pela busca prioritária por resultados estéticos e monetização. O valor, nesse caso, está menos na circulação mercadológica e mais no impacto social, como a inserção de crianças em grupos culturais, o enfrentamento de preconceitos, o fortalecimento de vínculos comunitários e a possibilidade de as pessoas se enxergarem de outra maneira.


Para ela, trata-se de um processo de descentralização e democratização da sétima arte, no qual o cinema se afirma como espaço de encontro, escuta e reconhecimento. Seja em cineclubes, oficinas ou produções coletivas, o audiovisual cria espelhos simbólicos, especialmente para mulheres e populações negras do Campo das Vertentes, gerando pertencimento, troca e novas possibilidades de existência.


Serviço:


Instagram da Efigênia Audiovisual


Elenco: Evania Sodré, Valda Aparecida, Andréa de Paiva, Isabel Aparecida, Danilo de Assis e Jailson Pinto
Elenco: Evania Sodré, Valda Aparecida, Andréa de Paiva, Isabel Aparecida, Danilo de Assis e Jailson Pinto
Em Cartaz dia 25 na Mostra de Cinema de Tiradentes
Em Cartaz dia 25 na Mostra de Cinema de Tiradentes
































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