Íntima e coletiva: eis a Sobradinho Audiovisual
- Daniela Mendes
- há 6 dias
- 8 min de leitura
Com filmes selecionados por três anos consecutivos na Mostra de Cinema de Tiradentes, Sobradinho reinventa o fazer cinematográfico no Campo das Vertentes.

O aceite dos três filmes na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes chegou em cascata, um atrás do outro. “Quando a gente recebeu os e-mails, foi tudo seguido… Aí eu entrei em estado de euforia master, já liguei para todo mundo porque, poxa, é um dos maiores festivais do Brasil, né?”, lembra Elizabeth Ramos.
Ao lado da amiga Vitória Iabrudi, ela criou o projeto de registro e mapeamento cultural no Campo das Vertentes, o Mãos do Morro, e, em seguida, a produtora Sobradinho Audiovisual. Pela produtora, realizaram “Laura”, “Anália” e “Dois Tons de Preta”, que serão exibidos na Mostra de Cinema neste ano. Não se trata, contudo, de uma trilogia fechada, contudo é a consequência do ideal do Mãos do Morro.
Essa não é a primeira vez que a Sobradinho participa da Mostra. É o terceiro ano consecutivo em que produções da casa são selecionadas. Na edição de 2024, três trabalhos também entraram: “Anastácia”, “Bordadeiras de Cesar de Pina” e “Ceramistas do Elvas”. No ano anterior, exibiram “No Alto da Torre”.

Para a dupla, o evento funciona como um termômetro de reconhecimento. A presença contínua ao longo de três edições reforça a importância de espaços de exibição que valorizem produções realizadas fora dos grandes centros e estimulem a continuidade do trabalho audiovisual no interior, trabalho este que enfrenta muitos desafios. Mas a recorrência não nasce de um projeto pensado para a lógica da Mostra. "É um trabalho continuado, feito em conjunto com o território", afirmam.
A Mostra de Cinema serviu ao longo de anos para complementar a formação da dupla. "Ajudou a amadurecer o desejo de produzir cinema aqui". Uma produtora audiovisual local, que trabalha com profissionais do cinema da cidade e da região, lida com as condições reais de produção daqui e as histórias que atravessam as vidas destas mulheres.
As realizadoras explicam que os recursos destinados por leis de incentivo à produção audiovisual viabilizam os filmes, mas não garantem a remuneração de quem os realiza ainda. “Com o dinheiro de produção do filme, a gente não consegue se remunerar, a gente consegue fazer o filme”, afirmam. Elas relatam que o processo de captação pela Lei Paulo Gustavo Estadual foi intenso e exigiu alto nível de organização.
Ainda assim, decidiram ir além do esperado. “Essa verba era pequena, todo mundo escreveu para fazer um curta, que já seria de baixo orçamento. Então a gente falou: ‘vamos fazer três, vamos tentar fazer dar certo’”, explicam. A decisão teve como objetivo aproveitar a oportunidade ao máximo, ampliar a participação de artistas e envolver mais profissionais nas equipes, para que o recurso pudesse circular entre um número maior de pessoas.
Datas e horários dos filmes: 29/quinta às 20h - Cine Praça: Dois Tons de Preta.
31/sábado às 12h - Cine Tenda: Cores de Laura e Anália
Foco no talento

A relação com as três artistas protagonistas é descrita como um processo atravessado por admiração e responsabilidade criativa.
Sobre Duda, de “Dois Tons de Preta”, as realizadoras afirmam que a força da trajetória da trancista exigiu cuidado especial na construção narrativa. “É uma artista gigante, e contar essa história traz uma responsabilidade muito grande”, dizem. Segundo elas, o trabalho se deu a partir de “escuta e troca constante”, com participação ativa da protagonista que tem múltiplos talentos.
Elas revelam que Duda acompanhou o processo e incorporou ao filme composições musicais próprias. O resultado é uma obra híbrida, que transita entre performance, música e linguagem de videoclipe.
No caso de Maria Anália, a relação antecede o projeto cinematográfico. “A gente acompanha o trabalho dela há anos”, afirmam, ao descrevê-la como uma potência musical e criativa. No filme, essa dimensão aparece de forma concreta: “Ela construiu um instrumento que virou a base da trilha sonora”.
Maria atua simultaneamente como personagem e em etapas da criação. Para as realizadoras, o objetivo foi fazer um filme que “tivesse a cara da Maria” e respeitasse a singularidade de sua pesquisa artística.
Já Laura é associada a uma linguagem que cruza cinema e animação, diretamente ligada à sua produção visual. “A animação entra como extensão da arte que ela já faz”, explicam. O filme incorpora esse universo estético à narrativa e conta com trilha sonora produzida localmente, envolvendo outros artistas da região.

Em comum, as três experiências são marcadas por processos colaborativos e pelo esforço de construir obras que carreguem a identidade de cada protagonista. “Elas não são só personagens, são parte do processo”, resumem, ao destacar que os filmes apostam em trilhas originais, produção local e em uma abordagem que vai além do retrato biográfico convencional. "Somos muito fãs dessas artistas. Acompanhamos o trabalho de cada uma delas há anos", reforçam e sugerem. "São filmes que se sustentam de forma independente e que merecem leituras próprias. Caberia, sem exagero, uma matéria inteira para falar de cada uma delas".
Vertentes de criatividade
Vindas de São Paulo, Vitória e Elizabeth construíram trajetórias distintas no audiovisual, que se encontraram na prática cotidiana e na experimentação em Tiradentes.
Vitória chegou à região há seis anos e passou a atuar diretamente em sets de filmagem, trabalhando com câmera e em diferentes funções da produção. A vivência técnica e o contato com a riqueza cultural local despertaram seu interesse em registrar a região, eixo que se tornou constante em sua atuação. “Eu fui me apaixonando cada vez mais por câmera, lentes e tentei registrar toda essa potência cultural que tem aqui. Eu registrava tudo que eu via e mandava para as pessoas”, conta.

Elizabeth, por sua vez, deixou São Paulo há dez anos e chegou à região sem um percurso prévio no audiovisual. Sua aproximação com o cinema se deu por meio de experimentações que cruzavam matéria e imagem em movimento. Passou a editar e dirigir, incorporando o vídeo como extensão de sua prática artística. “Na cerâmica eu sempre me senti um pouco amarrada a fazer só algumas coisas. Aí comecei a experimentar cerâmica, performance e vídeo.”
Logo, depois de fazerem uma oficina juntas, as ideias acerca do audiovisual se encaixaram em paralelo ao desenvolvimento de uma amizade essencial a química criativa. Nos filmes realizados pela dupla, o processo prioriza uma abordagem próxima e compartilhada entre elas e com as pessoas retratadas. As protagonistas participam ativamente das decisões estéticas e narrativas, contribuindo para figurino, direção de arte e construção do roteiro.
Essa metodologia resultou, inicialmente, em obras de caráter mais documental, baseadas em registro e entrevistas, mas evoluiu para uma linguagem híbrida, que combina documental, performance, música e elementos ficcionais. Inclusive, ao fazer o filme “Dois Tons de Preta”, Vitória levou uma câmera para Duda filmar a família. “O pai dela jamais iria dar aquele sorriso que ele dá para a câmera se uma de nós estivéssemos filmando”, recorda Elizabeth.

Nos trabalhos mais recentes, a experimentação se intensificou. Há filmes que incorporam animação, outros que dialogam com o formato de videoclipe e performances musicais, sempre integradas à narrativa. O processo se estendeu por cerca de dois anos, período dedicado à escrita, testes de linguagem e aprofundamento conceitual, com o objetivo de ampliar os limites do documentário tradicional.
Pegando no batente
Produzir audiovisual na região impõe desafios estruturais. Vitória e Elizabeth relatam que a viabilização de equipes técnicas maiores só foi possível graças às leis de incentivo. Sem esses recursos, muitos filmes não teriam sido realizados no formato apresentado.
Já o trabalho da dupla é marcado por uma construção conjunta, baseada em convivência contínua, escuta ativa e divisão clara de responsabilidades. Elas mantêm uma rotina intensa de criação e acompanhamento dos projetos, com encontros diários e jornadas prolongadas, sobretudo na pré-produção. “A gente se encontra todos os dias, trabalha juntas o tempo inteiro. A pré-produção é uma etapa muito longa e muito importante pra gente”, afirmam.
A criação dos roteiros acontece de forma coletiva e prolongada, envolvendo muita conversa, testes e reescritas constantes. “Às vezes são oito horas seguidas e o roteiro ainda não está pronto”, contam. Em alguns projetos, o intervalo entre a concepção inicial e a finalização chega a cerca de dois anos.
Desde o início, o método é multidisciplinar. Durante a escrita, as diretoras já incorporam referências visuais, esquemas de enquadramento, fotografias e desenhos, antecipando escolhas estéticas. “Enquanto a gente escreve, já está pensando em imagem, em movimento, em como aquilo vai aparecer na tela”, explicam. Essa atenção à pré-produção torna as etapas seguintes mais fluídas.
Embora assinem a direção conjuntamente e acompanhem todas as fases, há uma divisão de funções que organiza o trabalho. Vitória atua principalmente na direção de fotografia e operação de câmera, enquanto Elizabeth se dedica mais diretamente à montagem, edição e direção de arte. Ainda assim, as decisões são sempre compartilhadas. “Mesmo com essa divisão, nada é decidido sozinha. Tudo passa pela conversa”, ressaltam.
Outro eixo central é a participação ativa das protagonistas. As personagens não apenas cedem suas histórias, mas colaboram diretamente na construção estética e narrativa. “Elas participam de tudo: figurino, ideias de cena, revisão de roteiro. A gente só segue quando todo mundo concorda”, dizem.
Cadeia produtiva
Essa lógica colaborativa se estende às equipes técnicas. Sempre que possível, os filmes são realizados com profissionais da própria região. “É importante pra gente trabalhar com pessoas daqui, fortalecer essas redes e fazer o recurso circular”, afirmam. Mais do que um produto final, os trabalhos integram relações contínuas. “O filme acaba, mas o vínculo não. Muitas dessas parcerias continuam muito depois”, concluem.

Além da exibição, a circulação das obras é pensada de forma estratégica. A dupla mapeia mostras e festivais para ampliar o alcance dos filmes, entendendo que, embora ancoradas no território, os filmes precisam dialogar com outros contextos e públicos.
Mais do que produzir “sobre” o território, Vitória e Elizabeth afirmam produzir “com” ele, destacando a confiança estabelecida com as pessoas envolvidas e o caráter afetivo do processo. Para elas, os filmes são resultado direto dessa rede de relações, em que criação artística, convivência e colaboração com outros profissionais e artistas se misturam.
Nos trabalhos mais recentes, essa lógica se estendeu também à trilha sonora. Todas as obras contam com músicas originais, produzidas integralmente por artistas locais, reforçando a ideia de uma cadeia cultural integrada.
É possível
As diretoras destacam que a realização dos filmes evidencia a força do audiovisual produzido fora dos grandes centros. Para elas, o trabalho coletivo e o enraizamento territorial são fundamentais. “Cada filme mobiliza muita gente. São vários núcleos que se conhecem, se cruzam e se apoiam. Existe uma rede muito forte”, afirmam.
Segundo elas, a Sobradinho surge desse acúmulo de experiências e relações construídas ao longo do tempo. “É uma produtora independente fundada há pouco tempo, mas resultado de muitos anos de atuação”, explicam, ao ressaltar a importância da pesquisa e do mapeamento de artistas e técnicos por território.
Questionadas sobre a viabilidade do audiovisual no interior, são diretas: “A gente é a prova de que é possível. A gente tá aqui, não tá? Terceiro ano na mostra de cinema”. Para elas, a continuidade do trabalho, o apoio entre coletivos e a produção 100% local demonstram que o cinema feito no interior não apenas existe, como se sustenta e se fortalece a partir da própria região.







Comentários