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Aprender com o passado para moldar o futuro

"Com um sorriso amável nos lábios, ela parecia encarnar as negras forras ou de ganho que ajudavam fazer a economia mineira girar durante os séculos XVII, XVIII e XIX".

Colagem a partir de foto arquivo de Najla Passos
Colagem a partir de foto arquivo de Najla Passos

 Najla Passos, Jornalista negra e feminista,

mestra em Linguagem, doutora em Comunicação,

assessora de imprensa do Teatro da Pedra e

professora do curso de comunicação social da UFSJ.


Em março de 2020, um dia antes do país entrar no severo isolamento social imposto pela covid-19, eu embarquei na última viagem da Maria Fumaça, o trenzinho turístico que liga as históricas São João del-Rei e Tiradentes, pela rota da Estrada Real. E foi em um daqueles vagões centenários que eu conheci Edna dos Santos Marcelina, àquela época no auge dos seus 55 anos.


Mulher preta, descendente de escravizados e moradora da periferia de São João del-Rei, ela sustentava filhos e netos fabricando os quitutes que depois vendia aos turistas no trenzinho. Sempre teve muito orgulho das suas balas e doces que seguiam criteriosamente receitas da culinária tradicional mineira. Algumas delas, inclusive, haviam atravessado os séculos, passadas de geração a geração.


Mas, naquele dia específico, a doceira não conseguia se concentrar no trabalho que exercia de forma autônoma. Sua cabeça estava a mil por hora: “Como vou sustentar minha família se o trem vai suspender suas atividades?”, questionava.


Aos meus olhos treinados de jornalista, me pareceu, naquele momento, que Edna dava voz a todas as mulheres pretas e pobres que trabalham sem nenhuma proteção social, enfrentando as intempéries dos seus tempos históricos com a cara e a coragem de quem não tem opção. Mulheres que construíram e constituíram Minas Gerais, sem nunca levar os créditos.


Edna representava as mulheres que temiam a covid, mas também remetia a um eco do passado. Ali naquele trem colonial, com o tabuleiro de pirulitos de açúcar nas mãos e um sorriso amável nos lábios, parecia encarnar as negras forras ou de ganho que ajudavam fazer a economia mineira girar durante a corrida do ouro, dos séculos XVII, XVIII e XIX, colocando em curso uma verdadeira revolução dos papéis sociais do Brasil Colônia.


Uma revolução que, de tão profunda, foi duramente reprimida pelo Estado e pela Igreja. O que resultou no modo de vida conservador que até hoje impera na Estrada Real, esse conjunto de caminhos pelos quais a coroa portuguesa escoava o ouro e os diamantes extraídos de Minas Gerais e que hoje se tornou o maior circuito turístico do Brasil.


As negras forras e de ganhos


A história oficial do país, contada pelos colonizadores e seus descendentes, nunca deu muito espaço para as mulheres negras. Dentre as poucas exceções está Chica da Silva, a escravizada que acumulou muito poder depois de seduzir um dos barões dos diamantes e se tornou uma das figuras mais poderosas da cidade de Mariana.  


De fato, a sedução dos colonizadores foi uma das estratégias usadas pelas escravizadas para sobreviver, ascender socialmente e cuidar dos seus. Mas não era a regra. A maioria delas ganhava a vida nas minas de ouro e nas cidades que cresciam vertiginosamente. Eram as negras forras e de ganho.


As primeiras eram aquelas que, por um motivo ou por outro, conseguiram conquistar sua alforria e, a partir daí, passaram a trabalhar de forma remunerada, nos estabelecimentos de outras pessoas, mas principalmente nos serviços que prestavam de forma autônoma.


Já as negras de ganho eram as escravizadas que alugavam seus próprios corpos aos seus proprietários: pagando um valor diário ou mensal, eram autorizadas a sair às ruas e trabalhar com o que achassem mais rentável, ficando com a parte do lucro que excedesse o montante devido ao senhor.


Pesquisas mais recentes demonstram que elas tiveram um papel essencial na economia, e também na vida social da capitania.

Dá para imaginar que, no século XVIII, em meio à escravidão, as mulheres negras se tornaram o segundo grupo econômico mais rico de Minas Gerais como afirma a historiadora Mary del Priore, no livro Sobreviventes e Guerreiras?

Só perdiam em acumulação de capital para os homens brancos. As negras forras e de ganho eram, por exemplo, a maioria à frente do comércio ambulante, vendas, hospedarias, pensões e cabarés, como afirma o historiador Luciano Figueiredo. Elas também atuavam em pequenos roçados e nas minas de ouro e pedras preciosas.


Na antiga Vila Rica, que hoje se chama Ouro Preto, as mulheres eram 6% das proprietárias de vendas em 1716, número que chegou a 70% em 1773. Em Mariana, elas eram proprietárias de 7% das vendas, em 1725, percentual que subiu para 61%, em 1796.


De posse do dinheiro que movia a vida na colônia, elas compravam a alforria dos seus afetos, descobrindo e recriando novas formas de amar, diferentes daquelas que até então lhes eram possíveis nos navios negreiros e senzalas. Amores em que quase nunca viviam “felizes para sempre”, já que a ameaça machista e misógina sempre esteve à espreita.


Estupros e outras violências eram mais comuns do que se pensava até bem pouco tempo.

Uma pesquisa liderada por cientistas da USP, após analisar os genomas de 2.723 brasileiros e brasileiras, confirmou que a população do país resulta do estupro sistemático de mulheres indígenas e negras pelos colonizadores europeus.

Vez ou outra, um homem branco conseguia construir relações legítimas de afeto com as mulheres africanas, afro-brasileiras ou indígenas. Mas mesmo assim elas sofriam com as pressões sociais da época.


Sem terem direito ao legítimo matrimônio, criavam famílias a partir de uniões informais. E quando seus homens eram perseguidos pelo Estado e pela Igreja, acusados de serem desonrados e pecadores, elas aceitaram que eles se casassem oficialmente com outras mulheres - as brancas - para serem aceitos socialmente.


Assim, foram criadas as famílias fracionadas, tão características da história social de Minas Gerais: aquelas em que o homem vive com uma esposa branca e de “boa família” em uma casa, mas sustenta uma família afetiva em uma outra habitação.


Disciplinando corpos e afetos

 

As tentativas do Estado e da Igreja de promoverem a família branca e heterossexual para vincular o sexo apenas ao ato de procriação cresceram à medida que grandes cidades surgiram, na esteira da mineração.

 

Da ofensiva implacável deles contra as mulheres da classe popular, durante o Brasil colônia, o império e boa parte da república, resulta a contradição de uma sociedade que até hoje abarca no seu seio, ao mesmo tempo, mulheres guerreiras e devotas, progressistas e conservadoras.


 

Mulheres que lutam bravamente para sustentar famílias inteiras, mesmo sem acesso às políticas públicas necessárias e ao trabalho formal, e outras incapazes de se insurgir contra os sistemas capitalista, patriarcal e religioso que as devoram.

 

A lição da história, portanto, é cirúrgica: nestes tempos difíceis para nós, mulheres, além de sobreviver à nova ofensiva conservadora, precisamos avançar nas lutas em defesa dos nossos corpos e dos nossos afetos, que é o que de fato nos humaniza e nos dá forças para seguir adiante.


Sobre coincidências e resistências…


Hoje, dia 25 de julho, eu completo 53 anos, ao mesmo tempo em que as mulheres do continente comemoram o Dia internacional da mulher negra latino-americana e caribenha. A data foi criada em 1992, após uma conferência feminista em São Domingos, na República Dominicana, para dar visibilidade a nossa luta por mais oportunidades e direitos. 

 

Por razões óbvias, isso me fez pensar nas minhas próprias lutas… e por outras razões que desconheço, me lembrou também da figura daquela doceira que, com seu tabuleiro e com sua culinária colonial, enfrentou o maior desafio social da nossa época de cabeça erguida.

 

Para atualizar a história, é importante dizer que, durante o isolamento social, ela só contou com uma rede de apoio de outras mulheres para criar perfis nas redes sociais e divulgar seus produtos com entrega a domicílio. Depois que o trem voltou a operar no circuito turístico, passou a conciliar as vendas a domicílio com a rotina na Maria Fumaça.


Aos meus olhos de hoje, com melhor letramento de gênero e racial do que tinha quando a conheci,  Edna não me parece mais um eco de outros tempos, mas sim aquela “mirada no passado que nos ensina a moldar o futuro”.

 

Algo como o que diz um importante ideograma afro-brasieliro, criado pelos escravizados que queriam preservar suas tradições africanas, para que, no tempo certo, elas os ajudassem a recriar seus caminhos ancestrais. Nele, um pássaro mítico caminha para frente, mas mantém a cabeça voltada para trás.  Sankofa!

  







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