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Priscila Faria estreia com livro pela Patuá

Do post ao papel: “Nesse Corpo de Água Doce” é livro de estreia de Priscila Faria que será lançado no sábado, 25. Confira a entrevista.


Priscila Faria, arquivo pessoal.
Priscila Faria, arquivo pessoal.

Por Daniela Mendes, edição e reportagem.


Conselho de principiante


Do fluxo rápido do Instagram para a materialidade da página atravessaram os versos da poeta Priscila Faria. Agora, quem quiser conferir o livro de estreia dela, “Nesse Corpo de Água Doce”, pode aparecer amanhã, sábado, 25, às 17h, na Biblioteca Municipal de São joão del-Rei.  


Nesta conversa, a escritora nos revela uma trajetória que já se acumula por uma década. Experiências pessoais intensas, como a maternidade, a perda de um filho, o divórcio e recomeços, compõem uma escrita de elaboração e sobrevivência emocional. O livro, lançado junto a editora Patuá, nasce, segundo a autora, de um processo de resgate e organização de textos escritos ao longo de cerca de uma década, revelando uma unidade temática centrada na experiência feminina.  


A água, como símbolo recorrente, representa tanto a lágrima quanto o líquido amniótico, tanto a cachoeira quanto o mar, pois é a fluidez que aqui se comporta. Ao fazer versos numa narrativa quase cronológica de formação feminina atravessada por violência, memória e recomeço, Priscila também reflete sobre a escrita como prática política e coletiva. E, dessa forma, ela destaca a influência de outras mulheres e a importância de uma literatura que parta dessa experiência. 


Fala também da sua relação com as redes sociais, especialmente o Instagram. De como estas redes surgem como um espaço inicial de experimentação e validação, embora reconheça limites na lógica de performance dessas plataformas.  


Enfim, Priscila quase responde duas perguntas em uma sempre e ainda vemos reticências no fim de suas frases. Porque há sempre algo que escapa ao correr nas entrelinhas das frases que ela escolhe compartilhar com o mundo. 



Mana: Então vamos começar pelo básico: quem é você, né? E como você se define primeiro. Que lugar você se coloca? 

Priscila Faria: Bom, eu sou Priscila, sou mãe da Cora de 4 anos e 9 meses, sou professora aqui [São João del-Rei] há quase 11 anos como servidora pública do Estado. Sou formada em letras, fiz o meu mestrado em teoria literária e crítica da cultura, mais especificamente análise do discurso na UFSJ.  

Eu demorei muito para conseguir falar de mim como sou: alguém que escreve, alguém que também tem esse registro na vida: “sou poeta”, sabe? Apesar de escrever desde quando me dou por gente... A poesia sempre esteve presente desde a infância.


Mana: Como surgiu o livro? 

Priscila Faria: Na adolescência eu já comecei essa busca mais forte pelo registro escrito. Na graduação eu cheguei até a ter um blog em que eu comecei a experimentar mais e postar mais alguns poemas. Só que aí depois veio o mestrado, a minha gestação, serviço público... Aí eu perdi um bebê, depois tive a Cora. E a vida foi atropelando, né? Relações conturbadas... Eu meio que deixei isso de lado.  

Depois de passar e reelaborar meu luto, desse meu primeiro filho, do Gael, na época da pandemia e o isolamento social, no puerpério da Cora e com um divórcio... No meio disso, de todos esses ciclos – começando, terminando, veio essa vontade muito forte de bancar um pouco mais essa parte que eu tinha deixado escondido.  

Teve até um tempo que eu continuava escrevendo, mas eu não contava para ninguém... Então eu criei um perfil no Instagram [@prilirismo]. Era o endereço do blog que fiz na época da faculdade.  

O perfil começou com amigos, claro, mas logo pessoas que eu não conhecia passaram a chegar, comentar, acompanhar. Isso me incentivou a continuar. Ao mesmo tempo, ficava uma inquietação: eu queria organizar esses textos, dar a eles um corpo de livro, tentar publicar. 

Por muito tempo fui adiando. Até que, no fim do ano, retomei uma promessa antiga e decidi: o livro ia sair. Aproveitei as férias de janeiro e mergulhei nesse processo. Foi quase arqueológico! Resgatei textos espalhados em e-mails, arquivos, cadernos, digitalizei, imprimi, espalhei tudo e comecei a reler e organizar. E o livro nasceu daí: de um conjunto que, embora escrito em momentos distintos, revelava um eu lírico íntimo, marcado por uma experiência feminina muito forte.


Mana: Qual o significado desse significante água? Lágrima? Líquido amniótico? Cerveja, cachoeira, mar, café? (risos) 

Priscila Faria: A água no livro é tudo isso: lágrima em muitos sentidos... De dor, de luto, de revolta, de alegria, de cansaço... Mas também é o líquido do corpo: o leite, o líquido amniótico, a menstruação. São essas águas que atravessam a experiência de ser mulher. 

A ideia do ‘corpo de água doce’ vem dessa construção de uma mulher que, apesar de tudo, se reergue, se fortalece, recomeça. A água tem esse duplo movimento: ela inunda, devasta, destrói, mas também é fonte de vida. É o que permite que algo novo nasça. 

Essa doçura, mesmo diante da violência, está nessa insistência: uma permanência no amor, na esperança, numa fé que nem sempre se explica, mas que resiste. 

E acho que a poesia também nasce daí. Desde nova, o que mais me tocava não eram só os poemas de amor, mas os que denunciavam, que falavam de fome, medo, revolta. Foi quando percebi que a poesia podia dizer também o que é duro, o que dói. 


Mana: E o que te influenciou? Que voz de escritores e escritoras que te chama? 

Priscila Faria: É difícil falar de referências porque são muitas, mas tenho uma relação muito profunda com a escrita da Hilda Hilst. Sempre que leio e releio fico pensando: como é que pode alguém chegar nesse lugar da linguagem? Para mim, é uma escrita muito impactante. A poesia da Ana Cristina Cesar também me marcou muito. 

Entre as contemporâneas, fui descobrindo vozes que me encantaram, como Ana Martins Marques, Maria Fernanda Elias Maglio, que escreveu a orelha do meu livro, e Mar Becker... E tantas outras mulheres que estão produzindo hoje. 

Antes disso, houve autores que me formaram como leitora: Pablo Neruda, Paulo Leminski, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar. O Gullar me tocava por esse tom político; o Leminski, pela ironia e pelo deboche das coisas da vida. E o Carlos Drummond de Andrade, que não tem né? 

 

Mana: Minha Bíblia... Tenho as obras completas dele com aquelas páginas de Bíblia e sempre volto a ele. É uma escrita que nunca se esgota. Bíblia de Minas Gerais...


Priscila Faria: Também me lembro do impacto de descobrir Fernando Pessoa na escola. Quando uma professora colocou ‘O poeta é um fingidor’ no quadro, aquilo me atravessou. Depois vieram os heterônimos, e foi como descobrir que a poesia podia conter muitas vozes dentro de uma só. 

E há ainda a delicadeza do Manoel de Barros, que eu sempre sinto como uma pequena preciosidade. Aquela escrita que parece dar vida às coisas mínimas. 


Mana: Eu achei isso engraçado... Porque assim, quando você foi falar dos contemporâneos, você só citou mulher. E os antigos você foi falando mais de homens. É um reflexo, né? 

Priscila Faria: Sim, um reflexo. Isso também é um reflexo da formação. Na escola, quase não tive contato com escritoras, pelo menos é o que me ficou daquela época. Então, depois, houve um movimento consciente de busca. 

Hoje, percebo que a maioria dos livros que compro, sejam romances, contos e, principalmente, poesia, são de mulheres. Em parte, como forma de valorização, porque é um espaço que por muito tempo nos foi negado. Mas também por interesse mesmo: eu quero saber o que as mulheres estão escrevendo, como estão registrando suas experiências. Isso me alimenta, me fortalece. 

Claro que há autores homens que sigo lendo – o Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, continua sendo uma referência importante para mim. Mas, no geral, tenho buscado esse diálogo com a escrita de outras mulheres, até porque, para quem escreve, faz muito sentido entender quem está produzindo. 


simulação de rostos de escritoras contemporâneas pela IA
Ilustração gerada por IA

Mana: Você acha que a literatura tem um papel assim... Digamos, mais terapêutico? 

Priscila Faria: Para mim, a escrita teve, sim, um papel profundamente terapêutico e muitos outros que ainda nem consigo nomear. Tenho a impressão de que, agora que o livro existe, ela ainda vai ganhar novos sentidos. 

Muitos poemas nasceram durante a gestação do meu primeiro filho, o Gael, e atravessam a experiência do luto, do parto e da perda, vividos em um contexto de isolamento. Foi, naquele momento, uma escrita de sobrevivência. Eu entrei em um quadro depressivo muito pesado. Perdi a vontade de viver, de fazer coisas básicas, mas algo se manteve: o vínculo com a leitura. 

Mesmo nos dias mais difíceis, eu abria um livro e lia dois ou três poemas, como se precisasse disso para continuar.  

Já a escrita mudou de forma. Eu sempre preferi escrever à mão, mas, nesse período, quase tudo foi registrado no celular. Talvez por esse estado de recolhimento, de estar mais quieta, deitada. As ideias vinham, eu anotava, às vezes mandava para mim mesma por e-mail. Depois, quando fui reunir esses textos, percebi o quanto estavam dispersos. Foi um processo de organização difícil, quase caótico, mas também parte do que esse livro é.


Mana: Sobre a escrita no celular, sobre a forma de publicar, como é a sua relação com o Instagram e a performance que se faz ali?  

Priscila Faria: Sou péssima com essa coisa de performance. Se depender de mim para aparecer e divulgar os poemas, eu fico em desvantagem. Existe uma timidez ali que ainda estou trabalhando. É curioso, porque sou professora, falo bem com as pessoas ao vivo, mas a câmera me causa um incômodo. 

Quando comecei no Instagram, queria usar como um blog: postava só os textos, fazia umas artes simples e pronto. Não aparecia, não tinha muito retorno. Até que alguém me sugeriu que eu mostrasse mais o rosto, que lesse os poemas. Quando comecei a fazer isso, me surpreendi com o alcance. 

Cheguei a tentar levar isso para o TikTok, mas foi uma experiência ruim para mim. Dá muito trabalho, exige um tipo de presença que não é natural para mim e o público não estava interessado no poema, mas em outras coisas. Isso me gerou desconforto. Voltei para o Instagram, que é onde sinto que existe, de fato, uma escuta. 

Durante um tempo, postei com frequência, mas quando o livro começou a ganhar forma, fui me afastando. Hoje, vejo aqueles poemas como um material importante. Quero, inclusive, um dia reuni-los em outro livro. 

Existe uma contradição aí: ao mesmo tempo que a gente tem vontade de se recolher, também não quer que o texto fique guardado. Há um impulso de partilha. Quando criei o perfil e comecei a publicar, era também para testar: entender se aquilo fazia sentido para além do meu círculo, se encontrava leitores.


Mana: E como foi encontrar a editora? 

Priscila Faria: O Eduardo Lacerda, editor da Patuá, surgiu ali no perfil, começou a me seguir. Eu lembro a primeira vez que a editora curtiu um poema meu. Dei print e mandei para uma amiga: ‘Uma editora curtiu um poema meu’. E era uma editora que eu já acompanhava, que eu admirava. 

Ele se define como ex-poeta, o que eu acho curioso, porque é alguém muito envolvido com a leitura, um leitor voraz. Dá para ver o quanto ele se implica no que faz, o quanto acredita nos livros e nos autores. 

A Patuá tem esse trabalho muito bonito, sobretudo com escritores iniciantes. É difícil alcançar grandes editoras, e eles abrem esse espaço, ao mesmo tempo em que já têm autores premiados, circulando em festivais importantes. 

O processo editorial também foi muito respeitoso. Eles leem o original e aprovam, mas não interferem no texto. Não houve sugestão de corte ou mudança, a versão final é do autor. Depois disso, entra o trabalho de edição, diagramação e capa... 

No meu caso, pude dialogar bastante sobre a capa. Mesmo sendo uma decisão da editora, eles foram muito abertos às minhas referências. Chegamos a algumas versões até encontrar uma que traduzisse melhor a ideia que eu buscava: essa imagem de uma flor em movimento, quase como se estivesse na água, trazendo também um traço do corpo feminino. Foi um processo muito cuidadoso, sem imposições, com espaço para troca  e isso fez toda a diferença.


Mana: E a Rupi Kaur você lê? Já leu? De alguma forma ela te influenciou? Ela é uma referência forte do #instapoetry, não? 

Priscila Faria: Eu não sei se posso dizer que ela me influenciou diretamente, mas talvez tenha sido parte de um movimento que me encorajou. Ver essas mulheres publicando seus versos, seus poemas, ocupando esse espaço, me fez pensar que aquilo também era possível para mim. 

A própria Ryane Leão, do @ondejazzmeucoração foi alguém importante nesse processo. Acompanhar essa dinâmica de postar, ver a repercussão, a aceitação, foi me dando coragem. Acho que existe mesmo uma rede, um conjunto de mulheres nesse ambiente, que acaba funcionando como um gesto coletivo de resistência. 

Porque, historicamente, a gente publica menos, tem menos espaço no mercado editorial. Então, de algum modo, as mulheres vão encontrando outras formas de fazer circular o que escrevem. E isso é muito potente. No caso da Patuá, por exemplo, há uma presença significativa de autoras, o que já é um recorte interessante, mas a gente sabe que isso ainda não é a regra no mercado. 

No meu caso, também tinha uma questão muito concreta de tempo. Eu sabia que organizar um livro exigiria um mergulho grande: revisitar textos, escrever, estruturar. E, sendo mãe e professora, esse tempo era escasso. O Instagram acabou sendo um caminho possível, um espaço de troca mais imediato, onde eu conseguia publicar, dialogar, receber retorno, sem precisar, naquele momento, dar conta da construção de um livro. 

Quando finalmente fiz esse mergulho, foi muito intenso. Um processo quase catártico, de revisitar tudo isso e dar forma ao livro. E foi curioso perceber o quanto eu tinha escrito. Acho que ainda daria facilmente mais dois ou três livros. 


Mana: Você diria que existe uma literatura feminina? 

Priscila Faria: Durante muito tempo, eu percebo que houve uma certa resistência, inclusive entre as próprias mulheres que escreviam, em assumir a ideia de “literatura feminina”. Havia um receio de que isso diminuísse o valor da escrita. Como se fosse necessário afirmar: “não, eu sou escritora, isso é literatura”, sem esse recorte, para não parecer algo menor. Até o uso da palavra “poetisa” muitas vezes era evitado por isso. 

E eu entendo esse movimento. Durante muito tempo, a literatura foi tratada como universal, quando, na verdade, era majoritariamente masculina, escrita por homens, sobre experiências de homens, a partir do olhar deles sobre o mundo. 

Então o espaço para a voz das mulheres sempre foi mais restrito. E hoje eu já vejo de outra forma: acho importante nomear. Porque quando a gente fala de uma escrita feita por mulheres, não é para reduzir, mas para marcar um lugar de experiência. 

Estamos falando de temas que são do mundo, guerra, fome, violência, mas atravessados por um corpo de mulher, por uma vivência específica. E isso muda o registro, muda o olhar. 

Por isso, hoje, eu vejo essa ideia de literatura feminina como algo potente. É uma forma de afirmar: estamos aqui, escrevendo a partir das nossas experiências, dos nossos corpos, das nossas vivências no mundo. 


Mana: E sobre a escrita autobiográfica? 

Priscila Faria: Uma outra questão que foi muito repetida, e que eu acho que está mudando. Há o preconceito contra a escrita como processo de elaboração pessoal. Como se a “boa literatura” precisasse estar distante da vida de quem escreve, desvinculada da experiência. 

Fica sempre essa dúvida: isso tem valor ou não tem? E aí vem aquela resposta quase automática: “é literatura”. Mas o que isso quer dizer, afinal? 

Para mim, foi muito marcante o contato com a ideia de “escrevivência”, da Conceição Evaristo. Quando ela afirma que a escrita é um caminho de sobrevivência, um lugar onde ela se mantém viva, onde se constitui como mulher negra, isso muda tudo. A escrita passa a ser também espaço de denúncia, de afirmação, de existência. 

É uma literatura que parte da experiência, do corpo, da vida concreta de quem escreve. E isso não diminui o texto, pelo contrário, dá densidade, dá verdade. 

Esse pensamento foi ganhando força, inclusive na academia, e hoje vemos cada vez mais autores afirmando isso com naturalidade: escrevem a partir do que vivem, do que conhecem, do que atravessam. Não é só autobiografia, claro, mas há sempre um registro de si ali, uma presença. 

E eu acho que reconhecer isso também amplia o que a gente entende por literatura.


 Mana: Eu acho que não existe nenhuma literatura que deixe o eu de fora. Ou você disfarça, ou você joga metáfora para esconder, mas nunca você tá fora daquilo de quem escreve. 

Priscila Faria: A poesia é muito mais íntima, né? Esse “eu lírico” é difícil de afastar. É complicado falar das coisas sem esse eu que sente — que sente porque viveu, porque viu, porque ouviu, mas que, de alguma forma, foi atravessado. 

O registro da poesia nasce muito desse lugar do sentimento. É a emoção que se transforma em palavra, que pede forma. Às vezes vem uma palavra, uma imagem, alguma coisa que te chama, que te convoca a sentar e escrever. 

E, muitas vezes, é uma necessidade mesmo. Para mim, foi assim em vários momentos. De não conseguir dormir, de ficar com aquilo insistindo, até o ponto de ter que levantar e escrever, antes que se perca.


Mana: Dê um conselho de principiante para quem deseja entrar no mercado editorial. 

Priscila Faria: Bom, vamos lá. Primeiro, eu sou iniciante nesse lugar de escritora publicada, né? Entrando agora no mercado editorial. E aí vem essa outra dimensão, que é: como é que faz depois que o livro existe? 

Porque agora tem isso, né? De “dar a cara”, sair, falar, correr atrás, dar entrevista… E eu acho que essa é talvez a parte mais difícil do lançamento. Porque o processo com a editora, no meu caso, foi muito tranquilo. Eu não precisei pagar nada, a editora não trabalha nesse modelo. Você envia o original, e, se eles gostam, assumem todo o processo de publicação. 

Então, financeiramente, não houve esse investimento inicial. Mas existe, e sempre vai existir, um outro tipo de investimento: o de se doar para que o livro chegue nas pessoas. Para que ele seja conhecido, para que encontre leitores. E eu quero muito que ele encontre. 

E aí entra o trabalho de divulgação: o boca a boca, o perder o medo de aparecer, de falar com as pessoas. Eu acho que esse é o grande desafio. Porque às vezes a gente acha que basta publicar, que o livro vai seguir sozinho, ganhar o mundo, e que um dia você acorda e ele simplesmente aconteceu. Mas não é assim. Existe um trabalho contínuo. 

A editora ajuda, divulga, mas o papel principal é do escritor. É a gente que precisa correr atrás de espaços, dizer: “olha, isso existe, eu faço isso, você quer conhecer?”. E isso exige confiança, coragem. 

Porque o primeiro desafio é justamente esse: mostrar. Pegar algo que é seu e expor. E isso é difícil. Eu mesma demorei muito por medo. Medo da rejeição, da crítica, de mandar e ninguém querer. 

Eu pensava: “e se ninguém aceitar? Isso vai ser a prova de que eu não sou boa?”. Então havia também uma fuga, uma proteção. 

E aí veio até um pensamento: “será que eu não devia ter feito isso antes?”. Fiquei tanto tempo adiando… Mas também acredito que as coisas têm o tempo delas. Para mim, tinha que ser agora. Eu precisei viver tudo o que vivi para chegar aqui. 

E tem também uma dimensão que eu acho muito bonita, sem querer soar mística, que é essa entrega. O texto deixa de ser seu. Ele vai chegar em lugares que você não imagina, vai ser lido por pessoas que você nunca vai conhecer. E essas pessoas podem reagir de várias formas: se emocionar, se incomodar, se revoltar… não importa. Vai tocar de algum jeito. 

Eu fico pensando em quantas palavras já me tocaram, em quantos textos, poemas, músicas que me sustentaram em momentos difíceis. Então é bonito pensar que aquilo que um dia foi tão íntimo passa a existir de outro jeito, fora de você. 

É uma forma de existência que continua, sem o seu controle. 

Acho que toda arte tem isso. Seja um escritor, um artesão, uma bailarina, existe uma busca pela partilha. Não dá para ser só para si. A bailarina dançando sozinha em casa não está completa; ela precisa do outro, do olhar, do encontro. E, no fim, é uma entrega que vale a pena. Eu sempre encorajo, e especialmente as mulheres, a ocuparem mais esses espaços da arte.

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