A voz da estrela do cinema mudo
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Diretora Elza Cataldo lança “O Silêncio de Eva” em Belo Horizonte e reflete sobre memória, ausência e os desafios de fazer cinema no Brasil de ontem e hoje.

Num território de lacunas, silêncios e vestígios, a cineasta Elza Cataldo construiu “O Silêncio de Eva”, documentário que estreia amanhã, 26 de março, no Una Cine Belas Artes, em Belo Horizonte. O filme traz a história de Eva Nil, personalidade central do cinema mudo brasileiro que abandonou a carreira no auge e foi, aos poucos, apagada de muitos manuais de cinema brasileiro.
Cataldo não se limita a reconstruir uma biografia. O filme questiona o que se preserva, o que se perde e, sobretudo, quem toma essas decisões. Nesse sentido, traz também o tema do apagamento histórico de mulheres.
A atriz Inês Peixoto conduz o documentário protagonizado pela filha, Bárbara Luz, que encarna Eva nas recriações do ambiente criativo da personagem investigada. Dessa forma, o filme opta por uma narrativa híbrida que articula tempos e linguagens para dar forma a uma ausência. Entre arquivos, recriações e imaginação, a aposta é em uma construção poética que transforma o silêncio em matéria estética e política.
Em diálogo com diferentes gerações de atrizes, “O Silêncio de Eva” amplia sua investigação para além de uma trajetória individual, traçando paralelos entre passado e presente, obra e artista, real e imaginário. A partir dessa perspectiva, entre história com H maiúsculo e fabulação, Elza Cataldo fala à Revista Mana sobre processo criativo, escolhas formais e o desejo de reinscrever mulheres no tempo.
Mana: Eu queria te fazer uma pergunta aqui antes de começar, é uma curiosidade minha. Você é de Cataguases? Tô com essa curiosidade porque a minha família é de lá.
Eu sou de Tocantins, da Zona da Mata mineira. Fazemos filmes, em geral, contando também com as locações em Cataguases. Elas são muito ligadas ao polo audiovisual e às pessoas da Zona da Mata. Há também uma relação importante com a Energisa, que é minha patrocinadora há muitos anos, e com Mônica Botelho a quem sou muito grata.

Mana: Curiosidade “matada”, vamos falar do filme. Quando a gente fica sabendo do documentário, logo se depara com a história de uma mulher que abandonou a carreira no auge e depois caiu no esquecimento. Isso vem já de pronto na sinopse, nos envolvendo numa aura de mistério. Então a palavra silêncio aí é um significante muito grande. Por isso, o que vem a ser esse silêncio no filme?
Oh Dani, você até me emocionou aqui. O silêncio ele vem primeiro do silenciamento das mulheres ao longo da história. Em especial na história do cinema brasileiro, do cinema mineiro, que é o nosso caso aqui. Esse silêncio de Eva Nil também tem a ver com o filme silencioso que é o cinema mudo em que ela foi uma estrela. E esse silêncio também ecoa até hoje. Ele está aí, nos incomodando e fazendo refletir.
Porque Eva Nil foi uma mulher visionária, uma jovem atriz à frente do tempo. Ela gostava das histórias hollywoodianas, ela gostava de grifes, ela tinha um sonho de fazer filmes em condições de realização diferente daquelas que ela estava conseguindo acessar. E acaba que Eva num ato, que até considero corajoso, se afastou do cinema. É como se ela dissesse: "Olha, desse jeito eu não quero". Esse jeito é pouco para mim, para o cinema brasileiro e mineiro.
A sensação que eu tenho é essa. Embora ela nunca tenha falado nesses termos, penso que, de uma forma respeitosa, a gente está quebrando o silêncio de Eva Nil. Eu espero até que não estejamos desagradando a nossa musa. Digo nós, eu, Inês Peixoto e Christiane Tassis, que escrevemos o roteiro. Inês inclusive participa do filme também como um fio condutor. É ela que vai contando a história.
A gente faz um paralelo da família criativa de Eva Nil, porque Eva trabalhava em família também. O pai, Pedro Comello, era um grande fotógrafo. A mãe era figurinista e atriz. O irmão, como ator, mesmo sendo ainda muito pequeno... Eles tinham no espaço doméstico da casa deles, um estúdio e também esse ambiente criativo.
A gente tentou reconstituir isso no filme através da família da Inês, né? Porque o Eduardo Moreira que é marido da Inês também é ator do Galpão e pai de Bárbara Luz, outra família criativa. E como a gente filmou na pandemia, filmamos na casa deles. Transformamos o apartamento num estúdio de fotografia assim como Eva Nil fez com o pai dela tantos anos atrás. Fizemos esse paralelo da vida dessas duas famílias de artistas e como hoje a gente ainda tem questões que são daquele tempo.

Mana: A ideia do filme, então, veio da Inês, ela que entrou na sua vida de mãos dadas com a Eva?
Inês, na verdade entrou na minha vida há muitos anos. Nós começamos a trabalhar desde o filme “Vinho de Rosas”. Já fizemos vários outros filmes como “O Crime da Atriz” e “Órfãs da Rainha”. Inês é uma grande parceira.
Além de ser uma parceira criativa ela também é uma grande amiga. Foi ela quem viu uma exposição sobre Eva Nil, dos retratos da atriz, e deu a ideia. Lembrando que a gente não tem hoje a preservação das imagens em movimento de Eva Nil, mas tem fotos que foram feitas pelo pai dela. No filme a gente faz uma reconstituição dessas imagens. A gente pega as fotos originais e reconstitui com Bárbara Luz, que por incrível que pareça é a cara da Eva Nil. É um negócio impressionante.
A princípio, a gente pensou numa ficção, que talvez até agora a gente consiga fazer, mas naquele momento a gente tinha a oportunidade de um edital de documentários. Convidamos Kitty, a Christiane Tassis, para escrever o projeto junto com a gente e Kitty trouxe essa dimensão do documentário também de uma forma mais contundente. Escrevemos um roteiro ali, nós três, mas a ideia, a primeira paixão, quem trouxe Eva Nil, foi Inês Peixoto sim.
Mana: E você acha que a escolha narrativa da linguagem híbrida tem a ver com essa convivência com uma atriz de teatro ou é uma característica de um cinema feminino? Eu observo muito essa escolha quase como uma tendência nas jovens diretoras que temos aqui em Tiradentes e região.
Eu acho que é um recurso de linguagem que a gente tem que é usado por homens e mulheres, né? No meu caso, eu tenho uma ligação muito forte com a ficção. Então eu sempre busco nos meus documentários fazer uma recriação ficcional, uma encenação também.
Tem ainda um outro significado:
A nossa história é feita de muitas lacunas, né? E essas lacunas são preenchidas através da ficção. Então eu uso as recriações ficcionais para trazer aquilo que as informações documentais não estão trazendo.

E não só uso o live action, como também desenhos, animação, como o caso de outros filmes, como “Marianas”, o “Levante de Bela Cruz”, em que eu uso também recursos de ilustrações, de desenhos, de pinturas que possam recriar aquelas situações que a gente não tem registradas na nossa história.

Mana: Mas especialmente nesse filme a gente vê uma produção bem feminina. Parece que isso repercute no filme. Então como é que foi, por trás das câmeras, essa ligação de vocês, esse trabalho familiar?
Essa escolha repercute diretamente no filme e também no que acontece por trás das câmeras, nessa ligação entre nós e nesse cinema marcado por um olhar feminino. No caso de Eva Nil, há uma particularidade: a relação mais forte dela era com o pai, não com a mãe.
Ela tinha uma ligação muito intensa com ele, não apenas familiar, mas também criativa. Era com o pai que assistia a filmes e fazia experimentos. Isso aparece, por exemplo, nos retratos que restaram. Ele fotografava Eva já caracterizada, com figurino e maquiagem. É possível imaginar que esse processo envolvia também a mãe, mas é evidente que, dentro de casa, construíram juntos essas experiências artísticas e criativas.
No caso de Bárbara, essa relação se dá de outra forma. Ela é muito ligada tanto ao pai quanto à mãe. O fato de Inês ser atriz também a influenciou bastante. Existe uma relação afetiva forte, que passa pela criação e pela troca artística.
Acho que há um misto de entendimento familiar e artístico que atravessa essas relações. E o filme evidencia esse paralelo entre presente e passado.
Mana: E está muito claro isso e muito bonito, muito mágico... Mas há também uma coisa que atravessa o presente e passado que é muito ruim. Qual a sua posição sobre o apagamento de histórias de mulheres no cinema nacional. Você não sente pessoalmente medo também de ser atingida por isso?
É uma boa pergunta. Eu acho que eu nunca nem pensei nisso, Daniela. Sabe por quê? Porque eu me coloco como porta-voz dessas mulheres. Assim, eu, pessoalmente, não tenha me interessado por esse ponto de forma pessoal.
Eu me coloco à disposição, ponho a minha dedicação, todas as minhas qualidades e todos os meus defeitos para fazer um filme. Isso eu sinto muito forte, sabe? É uma coisa até meio inexplicável.
Porque existe tanto esforço, tantos anos... Você vê, um edital de 2018... Depois disso, veio a pandemia, tivemos questões de política pública audiovisual e cultural... Passamos por tantas coisas, né? E a gente vai resistindo.
Agora, este apagamento é uma coisa que me toca profundamente. Eu tenho me dedicado, inclusive, a história das mulheres, principalmente, tentando trazer esse olhar feminino e tentando tornar conhecidas essas vozes. Tanto de pessoas que foram conhecidas quanto mulheres anônimas.
Esse apagamento é profundamente injusto, porque ele reduz a história do cinema a uma história somente masculina, feita pelos homens. Retira da nossa história uma contribuição. Por isso é muito importante que haja contribuição das mulheres. E apesar disso, de existir esse apagamento, eu acho que tem existido também uma corrente, você vê, como o próprio título da sua revista. Tem existido uma rede de sororidade, de solidariedade feminina, tentando recuperar a história das mulheres.
Então, tem muitas de nós, apesar de todas termos nossos limites, que de uma forma sempre corajosa, sempre instigante, trabalham para trazer esses nomes hoje.
Mana: E como é que está a circulação do filme? Como é que as mulheres vão poder assistir?
O cinema exige muito da gente. A gente passa anos e anos para conseguir fazer um filme. Quando consegue, pensa: “Que bom, conseguimos”. Mas aí começa tudo de novo. Primeiro vem a finalização, que também é uma batalha. Depois, tem o lançamento. E a gente sabe que, no Brasil, muitos filmes não chegam às salas de cinema. A rede exibidora é muito pequena, muito reduzida, e isso dificulta muito. Então é raro um filme alcançar a tela.
Por isso, estamos celebrando esse momento, com o filme chegando aos cinemas em Belo Horizonte. O lançamento é no dia 26 de março. Depois, a previsão é levar para São Paulo no dia 9 de abril.
Em relação às salas de cinema, ainda é tudo muito imprevisível. Mas existe a possibilidade de lançamento em plataformas digitais. Assim que isso acontecer, vou divulgar nas redes sociais. Também há o compromisso de entrar no MINASPlay, que é uma plataforma de Minas Gerais.
A luta pelo audiovisual é constante em toda a cadeia produtiva. Começa na ideia de fazer um filme, passa pela tentativa de viabilizar, depois a realização, a finalização, o lançamento e a divulgação. É um processo longo e exigente.
Mas, apesar de todas as dificuldades e obstáculos, é um grande privilégio trabalhar com o que a gente gosta. Sou muito grata por conseguir fazer filmes há tantos anos. Agora, estou com vários projetos. Estou finalizando três trabalhos em pré-produção. Um deles se chama “Caminhos da Redenção”.
Também estou finalizando o documentário “Quem Ama Não Mata”, sobre o ato que deu origem ao movimento com esse nome em Belo Horizonte. Há ainda um filme sobre Dona Maria I de Portugal, que já foi rodado. Quem interpreta Dona Maria é a atriz portuguesa Maria de Medeiros. É um filme muito bonito sobre uma personagem que também foi esquecida. No caso dela, há um agravante, porque ficou marcada apenas como louca. O filme se chama “Maria Rainha Louca” e busca desconstruir essa ideia.
Também estamos em pré-produção de “Passeio de Dendiara”, uma coprodução entre duas produtoras brasileiras, a Lira Filmes e a Pixel, além de uma produtora portuguesa e uma francesa. A história se passa no Amapá e na Guiana Francesa.
Filmes citados por Elza Cataldo:
VINHO DE ROSAS

Vinho de Rosas é um filme brasileiro de 2005 escrito e dirigido por Elza Cataldo. O longa retrata a vida de Joaquina, jovem abandonada na infância e criada em um convento. Aos 18 anos ela descobre que a mãe ainda é viva e que ela é filha de Tiradentes. Para descobrir mais sobre seu passado, a personagem embarca em uma narrativa que vai revelar o que aconteceu na Inconfidência Mineira e com as mulheres dos inconfidentes nesse período. Veja o traile aqui.
O CRIME DA ATRIZ

Este é um curta de 2007 também de elza Cataldo. Uma atriz, não conformada com o reduzido papel que lhe foi designado pelo diretor, resolve mudar sua participação em uma peça teatral. Através de uma atuação impulsiva, tenta mostrar seu talento. Baseado num conto de Arkadi Avertchenkko.
ÓRFÃS DA RAINHA

Criadas como católicas pela rainha de Portugal, as órfãs Leonor, Brites e Mécia são enviadas para a colônia brasileira com a ordem de se casarem. A dura adaptação à precariedade do Povo Mundo é sentida de forma diferente por cada uma delas. Para piorar, a chegada da Inquisição à Bahia, em 1591, entretanto, descortina o real motivo que as trouxe ao Novo Mundo, colocando em risco a vida das três órfãs e de seus descendentes. Esse filme de Elza Cataldo é de 2023.
Filme completo aqui.
MARIANAS

Elza Cataldo em “Marianas”, realiza um documentário de 52 minutos aos 10 anos do maior crime ambiental da história do Brasil, ocorrido em Bento Rodrigues, distrito da histórica cidade de Mariana, em 2015. O filme mostra como a ação de um grupo de mulheres foi decisiva para salvar vidas no desastre de Mariana e como elas vêm reconstruindo suas rotinas após a tragédia.
Disponível na Globoplay
O LEVANTE BELA CRUZ

"O Levante de Bela Cruz" (2021) é um documentário brasileiro dirigido por Elza Cataldo, que retrata a Revolta de Carrancas de 1833 em Minas Gerais. O filme narra a rebelião de escravizados liderada por Ventura Mina contra a família Junqueira, um episódio violento e pouco conhecido que impactou o direito imperial. Teaser aqui.




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