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Os livros que ficaram: as mulheres na FLITI 2026

Atualizado: 12 de mai.

Feira reuniu autoras de diferentes gerações e consolidou a edição como espaço para conhecer a produção literária feminina brasileira contemporânea.


 Rita de Podestá, Cláudia Lamego, Clarisse Escorel
"O que fica do amor?". Rita de Podestá, Cláudia Lamego, Clarisse Escorel. Foto: Daniela Mendes

Por Daniela Mendes


A FLITI, Feira Literária Internacional de Tiradentes, encerrou neste fim de semana mais uma edição marcada pela circulação de livros, ideias e encontros. De 6 a 10 de maio, o evento ocupou Tiradentes com lançamentos literários, mesas, apresentações musicais e a presença de escritores, ilustradores, editoras, distribuidoras e livrarias.


Mas o que se evidenciou mesmo foi a vasta produção literária feminina. Entre falas, gestos e confissões nas mesas, vimos que, de forma geral, as mulheres ocupam um lugar de deslocamento na literatura. Persiste como traço a tentativa de compreender o mundo, o desconforto social em uma busca de se posicionar diante do caos cotidiano ou encontrar uma linguagem possível e inovadora para os sentimentos.


No primeiro dia, 6, o RAP, defendido pela rapper juizforana Laura Conceição, emergiu em sua fala como poesia de transformação social, capaz de fortalecer a juventude, estimular a resistência e criar novas formas de expressão e pertencimento no processo educativo. Ainda apostando na união da música e da poesia, o evento trouxe também uma cantora que escreve, Zélia Duncan, que na mesa “Escrever a própria voz” repetiu a dobradinha da Feira Literária de Parati (FLIP) de 2025 com a irmã Helena Duncan. Zélia escreveu "Benditas Coisas Que Não Sei" e Helena "Manual do Monstro".


Meninas no gramado da Fliti em Tiradentes
Futuras leitoras e escritoras? Foto: Daniela Mendes

Na quinta-feira, 7, a educadora e escritora Márcia Kambeba, ativista indígena do povo Omágua/Kambeba, ocupou a mesa “APalavra da Floresta”. Ela é conhecida por defender que a imaginação nasce da relação profunda entre infância e natureza. Em suas reflexões, rios, árvores e territórios são tratados como seres vivos e guardiões de memória, especialmente nas cosmovisões indígenas. Para Márcia, a literatura infantojuvenil pode ensinar outras formas de habitar o mundo, com mais vínculo, escuta e pertencimento. 



Duas mesas de peso


No fim de tarde e na sequência, a Fliti arrebatou os presentes. Primeiro, com a jornalista, crítica literária, escritora e editora da Revista Quatro Cinco Um, Iara Biderman entrevistando a premiada Mariana Salomão Carrara (leia aqui). Depois, coube a autora Sú Amélia mediar o grande encontro entre Alexandra Maia, Alice Sant’Anna e Bianca Ramoneda. A conversa passou por memórias de infância, processos criativos, dificuldades da escrita e pela relação entre poesia e vida cotidiana.


Alexandra Maia, Alice Sant’Anna e Bianca Ramoneda, Su Amelia
Sú Amélia, Bianca, Alice e Alexandra. Foto: Daniela Mendes

Livros das autoras


No dia seguinte, 8, Biderman voltou à cena, mas, dessa vez, com a escritora ouro-pretana, professora de criação literária e pesquisadora Flávia Péret. Na mesa “Memória, corpo e escrita” a escrita surge no lugar de investigação das ambiguidades da experiência humana. O que deu margem para reflexões sobre a relação entre literatura, autobiografia, ficção e verdade, da aproximação entre escrita e a experiência cotidiana, da observação e da imaginação.


Iara Biderman,  Cláudia Lamego como mediadora e Flávia Péret
Iara, Cláudia Lamego como mediadora e Flávia Péret: Memória, Corpo e Escrita. Foto: Daniela Mendes

O fenômeno Aline Bei 


Na mesa “Vidas que transbordam”, realizada durante a Feira Literária Internacional de Tiradentes, a escritora Aline Bei conversou com a mediadora Su Amélia sobre processo criativo, linguagem, teatro, dor e literatura. Autora de “O Peso do Pássaro Morto”, “A Pequena Coreografia do Adeus” e “A Delicada Coleção de Ausências”, ela refletiu sobre a construção de uma escrita fragmentada, marcada por silêncios, cortes e oralidade. 



Logo no início da conversa, Sú Amélia destacou a singularidade da “mancha gráfica” dos livros da autora, marcada por frases interrompidas, espaçamentos e uma escrita que desafia classificações tradicionais entre prosa e poesia. “Minha escrita vem muito fragmentada. Acho que ela carrega uma espécie de trauma inaugural da escrita. E quando falo trauma, penso em fratura, fragmento. As frases quebram, as cenas terminam antes do esperado. Isso tem muito a ver com o teatro”, explica.

 

Formada em letras, artes cênicas e pós-graduada em escritas performáticas, Aline Bei pode ser considerada um fenômeno da literatura nacional por ter conquistado, ao mesmo tempo, reconhecimento crítico, forte identificação popular e grande alcance entre leitores jovens em um mercado editorial marcado por baixas tiragens.  


Seu romance de estreia, “O Peso do Pássaro Morto”, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, ultrapassou dezenas de milhares de exemplares vendidos mesmo tendo começado em editora independente, e transformou sua escrita poética e fragmentada em uma marca reconhecida da literatura contemporânea brasileira. 


Line Bei e Su Amelia
Aline Bei e Su Amelia

Aline relembrou que, no início da circulação de “O Peso do Pássaro Morto”, lançado originalmente por uma editora independente antes de chegar à Companhia das Letras, ela vendia exemplares diretamente pelas redes sociais. “Eu comprava meus próprios livros da editora e oferecia para as pessoas. Fiz isso por cinco anos.”, lembrou e fez a plateia rir ao lembrar o conselho de um nada desconhecido professor: “O Marcelino [Freire] dizia que a maior distribuidora de livros do Brasil é o suvaco. Você pega o livro debaixo do braço e vai.” 


Mas a fala da escritora sugere que o segredo do seu sucesso vem de outro lugar, um que vai além da estratégia de venda. A escrita que arrebatou milhares de leitores parece surgir menos de uma escolha consciente e mais de uma revelação da própria experiência. “Eu não escrevo capítulos, escrevo cenas. E gosto de parar quando a pergunta ainda está fresca. Antes de explicar demais.”, revela. 


Gigantes 


Ana Maria Machado, uma das maiores referências da literatura brasileira, que ajudou a formar gerações de leitores, especialmente crianças e jovens, sem nunca simplificar as possibilidades da escrita, participou de duas mesas: uma que conversou sobre a invenção dos mundos para a infância e outra em que falou sobre trajetória literária com a cronista Beatriz Resende. 


Autora de mais de cem livros, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantojuvenil, e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado é reconhecida por transformar a literatura infantil em um espaço de imaginação, pensamento crítico e valorização da cultura brasileira. Tem também tem livros voltados para o público adulto.  



A jornalista e escritora, Eliana Alves Cruz, encerrou a sexta-feira, 8, com um público arrebatado pela literatura de memória afro-brasileira. A desigualdade racial e as marcas deixadas pela escravidão na sociedade contemporânea que autora escreve revela seu olhar que busca recuperar histórias silenciadas, dar visibilidade às experiências negras e refletir sobre identidade, ancestralidade e justiça social no Brasil. 


Nela, a literatura une pesquisa histórica, crítica social e força literária em narrativas que ampliam a presença da experiência negra na literatura brasileira contemporânea. A escrita se destaca aqui pela construção polifônica dos personagens, pela recuperação de memórias apagadas da história do Brasil e pela capacidade de transformar debates sobre racismo, identidade e ancestralidade em literatura acessível, complexa e profundamente humana. Marcas que lhe renderam o Prêmio Jabuti de 2022 e o Prêmio Sarau Brasil 2017. 



Transformar dor em escrita na coletânea “Vozes Libertas” 


Pelos stands encontramos a escritora e jornalista Bilah Bernardes, que nos apresentou a coletânea “Vozes Libertas”, livro organizado pela Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, AJEB-MG, com textos sobre violência contra a mulher, silenciamento e processos de libertação. 



Presidente da coordenadoria mineira da entidade, Bilah explicou que a associação existe há mais de cinco décadas e foi criada em 1970 pela jornalista Hellê Vellozo Fernandes, no Paraná. Hoje, a organização reúne coordenadorias em mais de 20 estados brasileiros. Em Minas Gerais, o núcleo foi criado entre 2018 e 2019 e ainda está em fase de consolidação. 


Segundo Bilah, a ideia da coletânea surgiu no ano passado, diante do aumento dos casos de feminicídio e violência doméstica no país. Em vez de reunir apenas relatos de denúncia, a proposta foi publicar histórias de mulheres que conseguiram romper relações abusivas e escrever sobre esse processo. “O primeiro passo é falar. Por isso o livro se chama Vozes Libertas”, afirmou. 


A capa da publicação traz três mulheres silenciadas, enquanto as vozes ecoam para outras mulheres. As rosas desfocadas presentes na arte também carregam simbolismo. “Às vezes são usadas com honestidade, às vezes apenas como sedução”, explicou de forma poética. 


A coletânea reúne poemas e textos em prosa produzidos por mulheres de diferentes regiões do país. Para selecionar os trabalhos, a AJEB promoveu um concurso literário. As quatro primeiras colocadas tiveram participação gratuita no livro, já que a associação funciona sem fins lucrativos e se mantém principalmente com contribuições anuais das associadas. 


Bilah também já publicou. O seu livro “Maroca Amordaçada”, traz a história em que a personagem aprende desde a infância a silenciar opiniões e sentimentos, até perceber que vive uma relação abusiva. Ao conversar sobre o processo de escrita, Bilah destacou o caráter terapêutico da literatura. “Escrever cura, falar cura, principalmente poesia cura”, disse. 


A coletânea Vozes Libertas pode ser adquirida diretamente com a AJEB-MG ou pela Literíssima Editora 


Mais livros! 


Entre tantas mulheres que passaram por Tiradentes neste fim de semana, só conseguimos destacar algumas, não por falta de importância das demais, mas porque foram muitas vozes, encontros e reflexões atravessando a cidade em poucos dias. A cobertura foi realizada por uma jornalista apenas, que fez o possível para acompanhar tantas histórias interessantes. Mas seguimos indicando livros escritos por mulheres para libertar imaginários, atravessar os limites do cotidiano, ampliar sensibilidades, provocar perguntas e reinventar as formas de existir e enxergar o mundo.



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