Marilane e os palcos sanjoanenses
- Daniela Mendes
- há 2 dias
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A cantora e atriz Marilane Sotani retorna ao teatro e é premiada em Passos. Consequência natural de quem tem uma trajetória artística inigualável nos palcos sanjoanenses.


Por Daniela Mendes.
Ela não sabe precisar em qual idade, mas estima que, aos três ou quatro anos, Marilane Sotani já havia descoberto o palco. Durante as férias no Rio de Janeiro, fugiu de casa e foi encontrada cantando em cima do balcão de um bar pela família. Décadas depois, aquela menininha que trocava o “ganzá” por “gambá” no samba-enredo “Festa para um Rei Negro” se profissionalizou na música e no teatro, ao mesmo tempo em que se tornava educadora, filósofa e terapeuta.
De “oh lê lê” a “oh lá lá”, Marilane construiu uma trajetória profundamente ligada à vida cultural de São João del-Rei. É muito mais do que a voz rouca que embala a vida boêmia da cidade. Neste ano, ao subir ao palco com o espetáculo Santidade, em julho, levou essa bagagem para outra cidade mineira, Passos. A atuação lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no 10º Festival Nacional de Teatro, reconhecimento que se soma a uma vida dedicada à arte e à cultura.
Sem deslumbramento, ela reconhece nas oportunidades que encontrou pelo caminho uma parte importante de suas conquistas. Une lugar certo e pessoas certas para explicar sua formação. Bacharel em Filosofia e com pós graduação em História, fala com propriedade e carinho como a cidade natal, por si só, a influenciou também. “No século XIX, São João del-Rei tinha nove teatros. A cultura nunca passou despercebida aqui. Tem até público que gosta de ópera, que é uma coisa rara. Aqui era um entreposto não só do escoamento do ouro, mas de arte e de cultura também. São João del-Rei é muito propensa à cultura”.

A arte no ninho
Ouro puro é a história de Marilane. Talvez a verdadeira riqueza destas terras sejam a de histórias assim. “Minha família é muito musical. Minha mãe já fugiu de casa para cantar. E eu cresci em um meio rico em cultura”, assim ela descreve o lar. Uma mãe que gostava de teatro e de dança e uma casa preenchida por música erudita. “Embora a gente fosse pobre, a gente tinha cultura.”, pontua.

Marilane tem esse jeito de contar histórias e, entre uma fala e outra, muito se mostra. A oralidade deixa escapar detalhes que revelam a forma como ela construiu sua postura artística. “Uma vez a gente foi fazer um espetáculo de teatro e eu era tipo o quê? Eu era a servente da princesa, né? Mas fazia brilhantemente. Passei a semana inteira ensaiando. E aí eu lembro que cheguei e ninguém vinha me arrumar. Foi quando cheguei na porta do teatro e falei assim: ‘Mãe, vem me arrumar que ninguém tá me arrumando’. Ela subiu, foi lá me botar a roupa, as professoras com a cara desse tamanho”, lembra, antes de soltar uma gargalhada.
Quando fala assim da infância, mostra que não é só sorte que a ligou aos mestres certos. “Eu realmente sempre fui muito boa aluna e sempre gostei muito de estudar, de ler. Eu não ganhava brinquedo, ganhava rádio, disco... E porque eu também não gostava de brinquedo, né? Eu gostava de livro, de música... Uma vez minha mãe perguntou: ‘Quer uma bicicleta? Não, eu quero um gravador’. Aí a mãe comprou um gravador, eu gravava as músicas do rádio, eu gravava a minha voz. Sabe? Então assim: isso tudo acho que você vai atraindo também, né? Se a pessoa vê que você tem aquele potencial, ela também vai chegar ali e vai querer te ensinar. É bom para ela, é bom para você. Cresce todo mundo”.
Dedicação e estudo que lapidam o dom.
Marilane parte sempre do “nós”. Primeiro vem a família. Depois, os professores e amigos que passaram por sua vida. “Eu falei isso uma vez e repito sempre: os professores para mim são as janelas para a liberdade, sabe? Quando você pega o professor certo, a pessoa que ensina e está preocupada em te fazer crescer, ele te leva”, reflete.
Na música, foi concertista de flauta aos 10, 11 anos de idade. Apresentava-se com um grupo de música erudita e participava de concertos. “Eu tinha uma professora de flauta que hoje mora nos Estados Unidos. Eu perdi o contato com ela. Era a Cátia Benatti Rabelo, que foi uma pessoa muito especial na minha vida. Além de enxergar o meu talento para a música, ela resolveu me dar também condições de fazer um trabalho melhor”, exemplifica.

A professora deixava uma flauta de marfim com a então pequena Marilane. “Era uma flauta de milhões. Ela deixava na minha casa para eu estudar e tocar. Eu tocava com a flauta dela e carregava, adolescente, para tudo quanto é lado. Porque ela disse: ‘Não, você precisa de um instrumento bom’. E aí um dia ela virou, lembro, para a minha mãe e falou: ‘Olha, ela é muito boa, ela precisa de um instrumento bom, ela não pode ficar tocando instrumento de plástico’”, recorda. E Marilane ganhou o instrumento da mãe.
Esta formação musical lhe fez chegar à vida adulta lendo partituras e com um ouvido musical apurado. Confessa que apesar de não praticar muito os instrumentos que toca, flauta e violão, tem uma escuta afiada. “Se bater uma nota errada no violão, eu sei. Eu já faço careta”, avisa.
A arte de atuar
Mais conhecida pela voz rouca e original que ecoa nos bares da cidade onde até os sinos tem trilha sonora, agora ela foi premiada pelo teatro. Contudo, Marilane não acha que seja o caso de escolher entre seus talentos. “Eu sempre gostei muito de teatro, de música, sempre fui muito ligada aos dois a vida toda. Nenhum puxa mais que o outro”. Sem limites.
Cantar é orgânico e o teatro não a impede de cantar. “Acho que os dois estão ali colados. Eu gosto da representação também. Gosto de criar o personagem, de entender a história, de entender aquela época e de vibrar naquele tempo, na tentativa de passar uma mensagem. Isso tudo só existe pra gente transformar a vida das pessoas, o lugar das pessoas no mundo. ”
Há, no entanto, um método por trás dessa aparente naturalidade. “Eu estudo bastante. E uma coisa que eu aprendi na minha vida inteira é ouvir".
Quando você ouve, você vê o outro, aprende até o que fazer e o que não fazer. Eu adoro ensaios. Acho que eu só concebo as coisas assim, fazendo, testando... tenho pânico, sabe? Fazer um show, aí a pessoa fala que só vai ter três ensaios... acaba com a minha vida, eu fico já no mau humor. ”, revela.
Mas nem tudo pode ser previsto, estudado ou ensaiado. As relações vividas no meio artístico também atravessaram suas escolhas. “Fazia muito tempo que eu não fazia teatro. Eu estava assim com ‘teatroceito’”, brinca, criando um neologismo que mistura teatro e preconceito. “Voltei e foi muito bom ter voltado, sabe? Tinha e tenho ainda vontade de montar alguma coisa. Tenho feito alguma coisa, estudado muito sobre feminismo. Estudado e lido sobre muitas coisas... conversado com mulheres, estado com mulheres. ”
O retorno ao teatro parece vir acompanhado de novas ideias. “Eu gosto muito de escrever cartas. Lembro de um espetáculo que eu assisti de uma querida que era Cartas para Ninguém. Eu fiquei muito emocionada. Ela é uma atriz maravilhosa. Eu queria fazer alguma coisa com cartas. Cartas e música, carta e poema, só que está na minha cabeça ainda assim com uma nuvem. ”
Cartas para Ninguém foi um espetáculo de metalinguagem e criação colaborativa criado por estudantes e ex-alunos de Teatro da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e encenado no Inverno Cultural da universidade, em 2019. Montada pela Confraria Teatro Pau Dramático, a dramaturgia teve organização da atriz e criadora Camelia Amada Guedes. A peça explorava as fronteiras entre realidade e atuação, as instabilidades emocionais, as relações humanas e o próprio ato de viver como um ensaio aberto.
O afastamento do teatro, porém, não aconteceu por falta de interesse pela cena. Marilane se distanciou justamente por não se reconhecer em determinadas relações que encontrou no meio artístico.“Tem coisas que não têm a ver comigo. Sabe? Acho que eu sou uma pessoa muito comunitária. Detesto todo e qualquer tipo de preconceito, todo tipo de hierarquia. E aí eu vivi momentos que assim... De gente falar que eu não tenho talento, que eu não sou boa, que eu não canto bem, que não sei o quê”, revelou.

Foi o momento de uma certa decepção.
“Eu fiquei com preguiça de ver como essas relações de poder que a gente tanto fala mal, essas relações de exploração que a gente detesta tanto, estão no meio da arte. Sabe, isso? Ai, ai... Que preguiça. Que preguiça... Aí fiquei um tempo mesmo, assim.”
Santidade
Mágoa, ela não carregou. Tanto que encontrou o caminho de volta. “Santidade”, o trabalho mais recente que lhe rendeu o prêmio de atriz coadjuvante, é uma peça que faz parte da pesquisa do professor Alberto Tibaji. E ela logo aponta o dramaturgo como a estrada de afeto que a conduziu de volta ao teatro. “Ele foi meu orientador na pós-graduação. Conheço os filhos dele, tenho uma relação muito íntima com ele. Há muito tempo que a gente não trabalhava junto e eu entrei meio substituindo uma pessoa”, conta.
A ideia, a princípio, era colocar música em cena e ter alguém cantando. “Quando eu entrei, nos ensaios, assistindo aos ensaios, minha participação mudou. Minha personagem não existia na peça. E a gente concebeu isso nos ensaios. Na direção do Alberto, no trabalho corporal da Mônica Todaro e da Thereza Rocha, a gente foi vendo que a minha personagem carregava a história. Ela foi tomando corpo, se criando”, descreve o processo.

No teatro, cada apresentação é diferente. E Marilane explica por que. “A gente continua ensaiando e até hoje ainda descobre coisas no decorrer dos ensaios. A gente vai se aperfeiçoando naquilo que faz, fazendo. Cada vez que você faz, se você tem o olho crítico em cima disso, você vai criando coisas. A gente ensaia bastante, com afinco, com preparação corporal e tudo que tem direito. A gente tem uma coesão muito grande, consegue dialogar, estar junto nos processos”, diz, com brilho nos olhos.
Ao diretor, não poupa elogios: “Acho o Alberto primoroso na direção desse espetáculo, de olhar atento às coisas que estão acontecendo, não só no palco, mas fora dele e com esse olhar também de pesquisador que traz o elemento teórico para ser discutido no nosso trabalho. E, mais do que isso, trazer uma teoria que é colocada em prática. ”
Santidade é uma peça de 1967, escrita por José Vicente e proibida durante anos pela ditadura militar. A história acompanha um jovem ex-seminarista que vive um romance com o dono de uma boutique em São Paulo. A visita do irmão também seminarista desencadeia um conflito nas relações até então estabelecidas. Nesta montagem, em cena com Marilane também estiveram os atores Henrique Leonel, Nivaldo Todaro e Vinícius Cristóvão com figurino de Regilan Deusamar, cenografia de Pedro Decot, iluminação Hadrien Nogueira e projeção mapeada de Wanderson Martins.
Hoje e amanhã
O teatro tem tomado mais a vida de Marilane. E, por enquanto, não a veremos tão cedo soltando sua voz rouca nos bares. Contudo, a decisão foi coletiva. “Eu tenho comigo músicos maravilhosos que estão estudando, já são mestres, estão partindo para doutorado. Então, eu também resolvi dar um tempo...”, explica.
Soma a isso o fato de que, atualmente, tem se identificado com uma fase mais reclusa. “Eu precisava desse tempo para estudar, ver coisas, observar as pessoas também que estão à minha volta, os meus companheiros de trabalho, ver o que eles têm feito... Sei lá, talvez o ano que vem posso pensar algum show, alguma coisa. ”
É então que revela algumas das ideias que vem gestando. “Eu tenho um amigo no Rio e a gente tem feito uns sambas juntos. Eu devo ter umas três ou quatro músicas com ele. Mas eu não sei se eu quero fazer um show. Eu gosto muito de interpretar. Eu já ganhei melhor intérprete no festival Todos os Sons, em 2021. Ganhei agora o prêmio de melhor atriz coadjuvante... essa coisa da interpretação é um lugar de canto também, né? Então eu gosto dessa coisa de ser intérprete. Eu sinto as canções. ”

Ela se percebe neste momento no meio de um caminho que não sabe onde vai dar, no limbo das ideias criativas, segundo suas próprias palavras. “Nesse campo artístico, é isso. Quero voltar a cantar, me apresentar, mas não sei se no esquema de fazer bar ou se fazer um show e apresentar esse show. Eu ainda estou decidindo. Está tudo num limbo”.
O momento parece menos de incerteza e mais de reflexão. Marilane não demonstra pressa em definir o próximo passo. “Eu estou num período de recolhimento, assim, por várias coisas. E o ambiente do bar é uma coisa muito exposta, tudo aberto. Eu estou muito recolhida, saio muito pouco. Tenho cada vez mais ficado muito em casa. Eu adoro ficar na minha casa, adoro ler. Adoro conversar com as pessoas. ”
Depois de tantos anos cantando, agora parece ter escolhido imprimir férias sem prazo de validade para o trabalho noturno. A dedicação que dispensa ao impulso criativo já não combina tanto com o ritmo dos bares. “A noite, para mim, tem ficado muito cansativoa também, sabe? Até hoje, a gente tem que carregar caixa de som. Isso é muito exaustivo. Porque, se eu fizer isso de dia, acho até que é outro pique também, outra energia. Não é a mesma coisa”, explica.
Sempre bem-humorada e com um caso para ilustrar cada enunciado, ela mesma ri da lida do artista que vai aonde o povo está. “Outro dia a gente riu demais. No último show que a gente fez, quando a gente viu, o cara saiu carregando a caixa e quebrou a caixa de som. E aí eu falei: ‘O cachê vai dar para pagar a caixa?’”
Outras e várias palavras...
A multiplicidade de Marilane não termina nos palcos. Ao lado da cantora e da atriz há também a professora, a produtora e a a terapeuta reikiana que canaliza energia para o bem-estar das pessoas. É então que entendemos o fio que amalgama tudo! A arte de Marilane nunca apareceu dissociada do trabalho, do estudo e do cuidado com o outro. Talvez por isso seja difícil enxergá-la como alguém que simplesmente se deixa levar pelos talentos que recebeu. Há, em sua trajetória, uma disciplina que acompanha aquilo que parece natural. E alí ela se põe a serviço do cuidado.

A relação com a terapia começou ainda pela Filosofia, lembra. “Eu acho que eu sempre tive um pé ali na terapia. Sempre tive. Eu quase fiz Psicologia.” Aos sete anos, conta que já dizia que seria professora e filósofa. A convivência com os padres salesianos, a formação acadêmica e, mais tarde, o estágio em Filosofia Clínica foram formando esse outro campo de interesse.
Já o Reiki chegou em um momento de fragilidade. Depois da morte de um amigo, Marilane buscou a terapia e acabou encontrando nela uma nova possibilidade de atuação. Fez formação em Reiki ocidental, depois estudou o Reiki japonês e tornou-se mestre da prática. O que começou como uma experiência pessoal transformou-se também em trabalho.
“Isso transformou a minha vida e eu também tenho transformado a vida de algumas pessoas”, conta. O desejo de ajudar, segundo ela, sempre esteve presente, mas a terapia também lhe ensinou a estabelecer limites. “Eu sempre tive esse ímpeto de ajudar as pessoas. Só que isso fica quase no limite entre ajudar demais e ser boba, né? Então, já fui até trouxa. E, com a terapia, consegui dar uma equilibrada nisso. ”
Hoje, Marilane concilia o atendimento em consultório com o trabalho no posto de saúde, onde atua há dez anos. Para ela, o cuidado passa pela possibilidade de oferecer ao outro condições para olhar o mundo de outra maneira e agir nele em busca de bem-estar.
De palco em palco, entre o estudo e o trabalho, a artista parece construir uma verdade muito própria, abrindo sucessivas portas. Herdeira de uma família musical, ela recebeu talentos, mas não parece tratá-los como herança suficiente. Em Marilane, talento é só o começo. A dedicação é o que movimenta sua história.





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