Áurea Carolina pré-candidata ao senado: "Eles querem destruir a democracia por dentro"
- Daniela Mendes
- há 6 horas
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Em entrevista à Revista Mana, a pré-candidata ao Senado por Minas Gerais fala sobre democracia e os desafios de ampliar a presença das mulheres na política.


Por Daniela Mendes
Entre 2018 e 2026, muita coisa mudou no Brasil. A ascensão do bolsonarismo, o assassinato de Marielle Franco pelos irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal do União Brasil, a pandemia, a polarização política e a reorganização do campo progressista transformaram o cenário nacional.
A pré-candidata ao Senado, Áurea Carolina testemunhou essas mudanças. Numa trajetória que começa em movimentos sociais, do hip hop, e vai da vereança, em Belo Horizonte, à Câmara dos Deputados, em Brasília, onde se consolidou como uma das principais referências da esquerda mineira. Construiu uma atuação vinculada às pautas feministas, antirracistas e de defesa dos direitos humanos e, agora, retorna à disputa eleitoral como pré-candidata ao Senado para escrever novo capítulo.
Em visita ao Campo das Vertentes, Áurea está com a agenda cheia. Nesta terça-feira, 17, participa de uma conversa com o campo progressista de Tiradentes, no restaurante Cultivo. Mas foi no dia anterior, sentada em um banco da Praça da Estação, que encontrou tempo para conversar com a Revista Mana sobre saúde mental, movimentos sociais, democracia e os desafios de ampliar a presença das mulheres na política institucional.
Nascida no Pará e radicada em Minas Gerais, Áurea iniciou sua militância nos movimentos culturais ligados ao hip-hop antes de ocupar cargos eletivos. Em 2016, tornou-se a mulher mais votada da história da Câmara Municipal de Belo Horizonte até então. Dois anos depois, foi eleita deputada federal. Em 2022, surpreendeu apoiadores ao anunciar que não disputaria a reeleição, alegando a necessidade de rever prioridades pessoais e cuidar de si mesma.
Já que tem muita história política narrada a partir dos palácios, gabinetes e plenários, sentamos na Praça da Estação, sob o olhar atento de um cachorro caramelo para fazer diferente. Ele queria um pedaço de biscoito, mas ganhou uma história de transformações do Brasil, Minas Gerais e caminhos que as mulheres seguem abrindo na política.
Revista Mana: Quase dez anos se passaram desde a experiência da Gabinetona e daquela articulação política que também passou pelo Campo das Vertentes, no mesmo restaurante Cultivo que você vai hoje... O que mudou na política brasileira e na sua trajetória desde então?
Áurea Carolina: É muito emocionante olhar para esse ciclo. Em 2018, quando estivemos aqui articulando a campanha para deputada federal, a gente já vivia um momento de muitas dificuldades e incertezas. Foi o ano em que Marielle Franco foi executada. Um período duro, que colocou a nossa fé à prova, mas que também reforçou a nossa decisão de continuar lutando.
Naquele momento, expandimos o projeto da Gabinetona. O que antes era uma experiência municipal passou a reunir quatro parlamentares em três esferas do Legislativo. Foi um exercício muito desafiador de construção coletiva. Depois veio a campanha para a Prefeitura de Belo Horizonte, em 2020. Eu estava com um bebê pequeno, ainda amamentando, e vivíamos a pandemia. Foi um período de muito esforço.
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Quando aquele ciclo terminou, eu me senti exausta. Sem tempo para cuidar de mim mesma, para olhar para minha vida com calma. Por isso tomei a decisão de não disputar a reeleição para a Câmara dos Deputados. Queria me priorizar, cuidar da minha saúde mental e experimentar outro ritmo de vida.
Revista Mana: E onde estava Áurea Carolina nesse período longe dos mandatos?
Áurea Carolina: Eu continuei fazendo política, mas de outro lugar. Voltei a atuar na sociedade civil e fui diretora executiva da organização “Nossas” por quase três anos. Lá trabalhamos em campanhas ligadas à democracia, à justiça racial, climática e de gênero. Fizemos iniciativas como a campanha por uma ministra negra no STF, ações para fortalecer a participação popular na escolha dos conselhos tutelares e mobilizações relacionadas à proteção da Amazônia.
Foi um período importante de reflexão. Trabalhei bastante, mas de uma forma mais saudável. Cuidei do meu bem-estar, da minha saúde mental e também vivi outras experiências pessoais. Cheguei a morar no Rio de Janeiro por um tempo.
E foi nesse processo que percebi que queria retornar à política institucional.

Revista Mana: E por que voltar justamente pelo Senado?
Áurea Carolina: Porque nunca foi simplesmente sobre disputar um cargo. Para mim, sempre foi sobre disputar imaginários, construir projetos coletivos e sonhar lugares que muitas vezes parecem proibidos para pessoas como nós.
Vendo como a extrema direita já estava se organizando para tomar o Senado de assalto, entendi que era essa disputa que eu queria fazer. Também para ajudar a abrir essa fronteira.
O Senado e a Câmara dos Deputados são as duas casas legislativas que formam o Congresso Nacional, mas têm funções diferentes. A Câmara representa a população dos estados brasileiros, por isso cada estado possui uma bancada proporcional ao seu tamanho populacional. Já o Senado representa os estados da federação e todos têm o mesmo número de cadeiras: três.
A renovação do Senado também funciona de forma diferente. O mandato de senador ou senadora é de oito anos, enquanto o de deputado federal ou deputada federal é de quatro. Por isso, a renovação acontece a cada eleição presidencial, mas de forma alternada: em uma eleição renova-se um terço das cadeiras; na seguinte, dois terços.
E nós estamos justamente nessa janela de renovação de dois terços do Senado. É uma oportunidade muito importante. Eu sabia que esse momento, com duas vagas em disputa por Minas Gerais, seria especial e quis me colocar nessa construção.

Revista Mana: Você fala duas já contando com a Marília, que é outro nome do campo progressista?
Marília (PT) candidata ao senado e até o fechamento dessa edição também cotada ao governo de Minas Gerais segundo especialistas políticos, embora ela negue qualquer intenção.
Áurea Carolina: Eu já conto com a Marília, de verdade. Naquele momento, quando decidi que iria disputar o Senado e comecei a conversar com as pessoas sobre essa possibilidade, ainda não havia a confirmação de que a Marília seria candidata.
Mas eu já sabia que precisaríamos disputar duas vagas para o campo progressista. Precisamos ser o time do presidente Lula no Senado para garantir governabilidade e fortalecer as agendas de defesa dos direitos da população. Era importante ter representantes comprometidos com essas pautas ocupando esses espaços e atuando na linha de frente dessas disputas.
Revista Mana: Mas na diferença entre Senado e Câmara dos Deputados você vê alguma facilidade que tenha te motivado?
Áurea Carolina: O Senado discute muito as necessidades de desenvolvimento de cada estado, né? Como a negociação da dívida do Estado de Minas Gerais com a União. É uma Casa que discute questões da estrutura mais geral das políticas públicas do Estado. Não que a Câmara não faça, mas, por excelência, lá é esse lugar.
Além disso, ele tem um papel no equilíbrio dos três poderes, por exemplo, em relação ao judiciário, né? O Senado pode abrir processo de impeachment contra ministros do STF. É uma casa que tem poderes diferenciados nesse desenho da arquitetura democrática. É justo por isso que a extrema direita tá esteja de olho, porque eles querem destruir a democracia por dentro.
A gente não pode passar essa bola, né? Muita gente fala: "Ah, por que você não disputa a deputada federal? Você teria menos dificuldade"? Eu falo: "Eu não estou buscando menos dificuldade nesse momento".
Revista Mana: Minas Gerais tem um eleitorado considerado conservador e nunca elegeu uma mulher de esquerda para o Senado. Como você encara esse desafio?
Áurea Carolina: Com muito senso de responsabilidade, mas também com esperança. Nós temos em Minas Gerais lideranças importantes do campo progressista e acredito que existe uma parcela significativa da população buscando alternativas comprometidas com a democracia e com os direitos das pessoas.
O desafio é grande, sem dúvida. Mas eu vejo muitas mulheres se colocando na política institucional com coragem e disposição para ocupar espaços que historicamente não foram pensados para nós. A minha candidatura também faz parte desse movimento. Não se trata apenas de uma disputa eleitoral, mas da afirmação de que esses lugares também nos pertencem.
Revista Mana: Integrantes de movimentos sociais e populares de mulheres tem frequentemente relatado à Revista dificuldades de interlocução com representantes eleitas do próprio campo progressista. Como você pretende manter esse diálogo caso chegue ao Senado?
Áurea Carolina: Sem essa construção coletiva não faz sentido para mim estar na política. Nunca enxerguei a política institucional como um projeto individual. Sempre foi um projeto construído junto com movimentos, coletivos e organizações.
Na preparação da pré-candidatura realizamos diversas plenárias temáticas sobre saúde, justiça climática, cultura, trabalho e direitos das mulheres. Chamamos lideranças e movimentos para formular conosco as prioridades dessa caminhada.
Eu valorizo muito os encontros presenciais, as rodas de conversa, os momentos em que as pessoas podem realmente se escutar. É nesses espaços que surgem as melhores ideias e os compromissos mais sólidos. Depois da eleição, a luta continua. Por isso, para mim, audiências públicas, grupos de trabalho, visitas técnicas e encontros permanentes com movimentos sociais fazem parte da própria forma de exercer um mandato.
Posso dar um exemplo. Ainda na Gabinetona, construímos uma proposta chamada “Morada Segura”, que incluía mulheres em situação de violência como público prioritário da política habitacional. Essa ideia surgiu a partir do diálogo com lideranças dos movimentos de moradia de Belo Horizonte, que mostraram como a falta de moradia dificultava que muitas mulheres saíssem de relações abusivas. Foi uma construção coletiva. E é exatamente assim que eu acredito que a política deve funcionar.
Revista Mana: Para terminar, qual mensagem você deixaria para as mulheres do Campo das Vertentes?
Áurea Carolina: A força organizada das mulheres é uma das coisas mais potentes que existem. As eleições são importantes, mas o que sustenta a política no cotidiano são os pequenos encontros. São os coletivos, as rodas de conversa, os grupos de leitura, as atividades culturais, as iniciativas comunitárias. É nesses espaços que a gente cria vínculos, compartilha experiências e fortalece a capacidade de agir juntas.
Quanto mais a gente inventar maneiras de estar juntas, melhor. Mulheres de diferentes gerações, origens e trajetórias têm muito a aprender umas com as outras.Eu acredito profundamente nisso. A luta não é apenas enfrentamento. Ela também é um espaço de encontro, de apoio, de construção de comunidade. E, para mim, essa felicidade que nasce da luta coletiva é uma das coisas mais bonitas que existem.







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