top of page
Logo da criadora Daniela Mendes

Júlia Medeiros e o laboratório da saudade

A atriz transforma lembranças, objetos e relatos em matéria-prima para um espetáculo que leva a saudade ao laboratório.


A atriz julia medeiros
Julia Medeiros na Adro +. Foto: Daniela Mendes

Por Daniela Mendes.



A saudade é um sentimento. Isso é indiscutível. O difícil é localizá-la, pois ela transita entre a alegria e a dor, o prazer e a tristeza, sentimentos não necessariamente opostos e, pela indeterminação, pode até levar ao desespero. Ela não exige condições fixas e tem gente que sente saudades até do que não viveu. Encontrando-a neste estado bruto, a atriz, escritora e dramaturga, Júlia Medeiros vestiu um jaleco, montou um laboratório itinerante e, há seis anos, se lançou na aventura de colher amostras de saudade in loco, com o objetivo de sondar o misterioso sentimento.


Siga o canal "Revista Mana" no WhatsApp. Clique aqui.


Na noite de sexta-feira, 31, ela apresentou na Adro+ Galeria, os resultados preliminares de seu ensaio para um pequeno grupo. Essa proposta em si já remeteu a um significado interessante. Em termos laboratoriais, a palavra "ensaio" designa o experimento. Nas artes cênicas, porém, ela costuma remeter à preparação para a apresentação de um roteiro previamente definido. Ainda assim, mesmo a performance teatral preserva seu quinhão de surpresa a cada espetáculo.


Mas a natureza desse sentimento ainda resiste a definições precisas. E agora, Júlia, depois de fazer as últimas “biópsias” dos dias 13 até 15 de agosto no Seminário “Mande Notícias do Mundo de Lá”, em Brumadinho, começará uma segunda parte do trabalho em que processará os resultados para apresentar a um público numa peça prevista para novembro.


Julia e a saudade no laboratório
Analisando uma saudade./ Foto divulgação cedida pela atriz

Até agora cerca de 100 pessoas participaram em diferentes cidades, entre elas Tiradentes, Rio de Janeiro e Curitiba. A estética, o vocabulário e os procedimentos do laboratório são deslocados para o campo afetivo. Dessa forma, a atriz produz metáforas fortes e catárticas.


A mulher que fugiu com o circo


Júlia é uma artista múltipla. "Sou atriz, escritora, dramaturga, compositora e produtora cultural há mais de 20 anos", assim se apresentou. Natural de São João del-Rei e radicada em Barbacena, ela contou que iniciou a trajetória profissional no grupo teatral Ponto de Partida, onde permaneceu por 16 anos. Segundo ela, a experiência na companhia, que reúne iniciativas como a Bituca Universidade de Música Popular, foi decisiva para compreender "o que é ser um agente cultural no interior do país", em suas palavras.


Antes de ingressar no grupo, Júlia fez questão de destacar a influência que recebeu ainda na infância, em São João del-Rei. Ela lembrou da formação literária proporcionada pela Escola Catavento e a importância da Companhia das Danças em seu desenvolvimento artístico. "A gente tinha uma formação literária fortíssima, ligada à cidade. As feiras de livros eram abertas à população e eram uma oportunidade de conhecer autores", recordou. Sobre a dança, acrescentou que também influenciou na formação artística.


Julia Medeiros em cena
Julia em cena à direita. Foto: Arquivo da atriz

Com o Ponto de Partida, a atriz recorda que percorreu diversos lugares apresentando espetáculos, criando dramaturgias e compondo letras para montagens. O que lhe rendeu uma experiência que vai dos grandes teatros às pequenas cidades do interior. "Me apresentei desde grandes teatros até a quadra de uma escola no interior do Maranhão, em uma cidade de 15 mil habitantes", contou. Ao resumir esse período de sua vida, brincou: "Acho que eu fugi com o circo mesmo quando era mais nova."


Contudo, Júlia revelou que a literatura sempre foi seu primeiro interesse. Tanto que em 2018, lançou seu primeiro livro, “A Vó Amarela” (ÔZé), cuja recepção rendeu importantes prêmios, além dos títulos Temporina (ÔZé/Ponto de Partida), Zalém e Kalunga (Ô/Zé e Ponto de Partida).


A saudade é um bife à parmegiana


A atriz exibe seu livro./Foto: Arquivo de Julia Medeiros
A atriz exibe seu livro./Foto: Arquivo de Julia Medeiros

A ideia de levar a saudade para o laboratório nasceu antes mesmo de ser pensado como uma obra artística. Júlia conta que começou a abordar pessoas aleatórias com uma única pergunta: "O que é saudade para você hoje?".


A resposta que mudou os rumos da pesquisa veio de um encontro casual com seu cabeleireiro, em um restaurante self-service. Ao ouvir a pergunta, ele se emocionou e respondeu: "A saudade é um bife à parmegiana". Em seguida, explicou que fazia um grande esforço para não chorar porque o pai, falecido havia um ano, preparava o prato todos os domingos. Naquele dia, justamente, o restaurante o servia no almoço o bife.


O episódio levou Júlia a refletir sobre a dimensão concreta de um sentimento normalmente tratado como abstrato. "Comecei a pensar na concretude do sentimento", afirma. A experiência dialogava com seus estudos em literatura e teatro, nos quais a materialização das emoções costuma produzir mais impacto do que sua simples nomeação.


A partir dessa inquietação, a artista passou a investigar onde a saudade se insere no conhecimento humano. Pesquisou artigos de neurociência, psicanálise, psicologia e biologia evolutiva, mas só encontrou estudos sobre luto, melancolia, privação e ausência, sem que a saudade aparecesse como objeto central de investigação.


Laboratório da saudade
Laboratório da Saudade, por Julia Medeiros. Foto: arquivo da atriz.

Ao mesmo tempo, ela percebeu que o sentimento ocupa um espaço privilegiado nas manifestações artísticas, especialmente na música brasileira. Esse contraste despertou uma nova pergunta: por que um sentimento tão presente na experiência cotidiana e na produção artística quase não aparece na literatura científica? A reflexão também a levou a questionar a hierarquia entre ciência e arte na produção de conhecimento sobre a experiência humana.


Foi dessa provocação que nasceu a ideia do “Laboratório da Saudade”. "Eu vou fazer um laboratório da saudade. Vai ser científico, mas vai ser pela arte. Agora nós vamos bagunçar esse coreto", recordou o ânimo inicial.


Se você acredita no jornalismo feito por mulheres e para mulheres, doe para Revista Mana. Pix: contatodmrevistamana@gmail.com


A oportunidade de colocar o projeto em prática surgiu em uma conversa informal com a produtora cultural Aline Garcia, do Festival Tiradentes em Cena. Ao ser perguntada se tinha algum trabalho em desenvolvimento, Júlia improvisou a proposta de uma performance em que o público seria convidado a levar uma "amostra de saudade" para análise.


A dinâmica transformou lembranças, objetos, histórias e afetos em matéria-prima para a criação dramatúrgica. Segundo Júlia, embora a pesquisa coletiva sempre tenha feito parte de sua trajetória no teatro, essa foi a primeira vez que o próprio processo criativo aconteceu de forma pública e performática, tendo as experiências do público como motor para a construção do espetáculo.


Saudade localizada e processada


Para transformar a pesquisa em uma experiência cênica, Júlia concebeu o Laboratório da Saudade como uma ficção assumida. Segundo ela, era fundamental que o público compreendesse que não se tratava de um espaço terapêutico ou científico, mas de um ambiente artístico preparado para acolher relatos delicados.


"Eu sabia que ia lidar com um sentimento muito sensível, com questões profundas", explica. Por isso, a cenografia foi construída para reforçar o caráter lúdico da proposta. Todos os elementos do espaço, dos painéis aos jalecos usados pela equipe, foram confeccionados em TNT, material comum em ambientes laboratoriais, mas escolhido justamente por sua fragilidade e transparência. "A gente faz de conta que é um laboratório, para não ficar parecendo que é um laboratório de verdade", resume.


A artista afirma que esse cuidado ajudava a estabelecer um pacto de ficção com o público. "Não é uma sala de análise, não é um confessionário. É um espaço cênico, um espaço fictício." Ao entrar no laboratório, cada participante era convidado a levar uma "amostra de saudade". A proposta, inicialmente, causava estranhamento. "As pessoas perguntavam: 'Como assim uma amostra de saudade?'".


Com o desenrolar das conversas, os objetos mais diversos passaram a compor o acervo da pesquisa: fotografias, roupas, alianças, livros, folhas de árvores, perfumes, alimentos, bebidas e até sonhos. Para Júlia, qualquer elemento capaz de materializar uma lembrança poderia se tornar uma amostra.


Saudade in loco. Julia Medeiros
Júlia colhendo saudade in loco. Foto: Arquivo da Atriz

Entre as histórias que mais a marcaram está a de um refugiado sírio, jornalista e perfumista, que havia deixado o país de origem por causa da guerra e também se afastado da família por ser gay. Durante uma entrevista, ele mostrou um frasco de perfume quase vazio que mantinha apenas para sentir o cheiro. "A saudade dele era um frasco de perfume", lembrou a atriz.


As sessões do Laboratório da Saudade duravam cerca de 30 minutos e aconteciam mediante agendamento. Antes de entrar no espaço cênico, os participantes eram recebidos pelo artista Cléo Magalhães, colaborador do projeto, que conduzia uma etapa inicial de acolhimento e preenchimento de um formulário com perguntas pessoais, como "Você gosta de fazer aniversário?". As respostas serviam como fio condutor para a experiência artística desenvolvida dentro do laboratório.


Júlia compartilhou muitas destas histórias na Adro+ reunidas ao longo da pesquisa, alternando momentos de emoção e humor. Ao fim da conversa, ficou a certeza da saudade que continua sendo impossível de localizar. Nos resta agora esperar para descobrir como Júlia reunirá essas centenas de pequenas evidências em um único espetáculo. Novembro está aí. Esperemos!



Comentários


bottom of page