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Teatro de Mulheres em Barbacena: Celebrando Resistência e Arte Feminina

A peça “Dias Mulheres” estreia em Barbacena com um teatro que celebra a resistência feminina com arte. Entrevista com a diretora, Fany Magalhães. 


Diretora de teatro Fany Magalhães
A diretora Fany Magalhães nos bastidores. /Foto gentilmente cedida pela produção: Talita de Paula

O saudosismo viu um espaço vazio e resolveu ocupar com ação o presente. Uma arte feminista que celebra a potência das mulheres que resistem às opressões cotidianas. À frente dessa história está Fany Magalhães, que reúne uma equipe formada exclusivamente por mulheres para transformar experiências, memórias e lutas em cena. O resultado é Dias Mulheres, espetáculo que estreia amanhã, quinta-feira, 11, na antiga Mercearia Vida Nova, no bairro Valentim Prenassi, com reapresentações na sexta-feira e no sábado.


Nascida em Ubá, Fany cresceu e passou a maior parte da vida em Barbacena. Nesta cidade construiu suas primeiras experiências no teatro. Ela lembra que antes de 2010, a cena local tinha uma intensa movimentação teatral independente, com grupos que reuniam artistas barbacenenses em processos de criação coletiva. Era um tempo em que havia uma ponte da prática dos palcos em Barbacena com a academia do curso de teatro na UFSJ na vizinha São João del-Rei, na qual ela lecionaria depois.

  

Pois a estrada de Fanny foi outra, primeiro estudou em Ouro Preto. Depois, ela abriu caminhos mais longos e juntou na mochila uma bagagem de prática artística, pesquisa acadêmica e docência de diferentes regiões do país ao participar de projetos em diversas linguagens artísticas.  


De volta a Barbacena, durante a pandemia, antigas amizades foram retomadas e, junto delas, surgiu o desejo de voltar a fazer teatro em grupo na cidade. Fany então escreveu, em 2023, um projeto contemplado pela Lei Paulo Gustavo, que resultou em uma residência de criação artística com as atrizes Alessandra Silva, Aline Monteiro, Isis Ferreira, Luciana Oliveira e Talita Silva.  



Segundo a diretora, foi durante essa residência que o grupo se reconheceu como uma coletividade artística capaz de construir uma fala comum sobre as experiências das mulheres. “Quando a gente projeta um futuro, a gente pensa que dias mulheres virão, a gente pensa na luta que a gente tem travado juntas”, reforça. 


O projeto inicial cresceu, ganhou novos contornos e, posteriormente, foi contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). O que vale ressaltar: ficou em primeiro lugar entre os 400 projetos inscritos no estado inteiro de Minas Gerais.  


O título do espetáculo carrega essa origem coletiva. “Dias Mulheres” é uma expressão inspirada nas ruas, nas manifestações e nas reivindicações dos movimentos feministas. Mais do que nomear a peça, o termo sintetiza o desejo do grupo de transformar experiências individuais em uma narrativa compartilhada sobre os desafios, as resistências e as formas de existir como mulher na sociedade contemporânea.


teatro de mulheres em Barbacena
Foto: Talita de Paula

A própria ocupação da mercearia dialoga com a proposta de "Dias Mulheres": criar pontes entre diferentes experiências femininas e fortalecer formas coletivas de convivência e produção cultural. Assim, o local que abriga a estreia do espetáculo também se torna parte da narrativa construída pelo grupo, reunindo memória, território e encontro comunitário.

 

O espetáculo, assim, não aposta somente na força da dramaturgia. A sonoplastia também ocupa um papel central na construção da narrativa. Em vez de recorrer a músicas externas ao processo, a equipe optou por construir toda a trilha sonora a partir de composições de mulheres que participam ou dialogam diretamente com o universo da montagem. 


Segundo Fany Magalhães, as canções de Pretuminância, álbum lançado pela atriz e compositora Isis Ferreira, acompanharam a residência artística desde os primeiros ensaios. O disco tornou-se uma referência afetiva e estética para o grupo, influenciando a musicalidade da obra. A partir dessa experiência, a decisão foi natural: utilizar os sambas compostos por Isis como base da sonoplastia do espetáculo. 



A trilha ainda incorpora a canção Rebola Mulher Rebola, da compositora Luzmilla Luz, artista nascida em Mariana e atualmente radicada em Salvador. Inspirada pelas mulheres do campo e pelas práticas agroecológicas, a canção amplia os diálogos propostos pela peça. 


"Dias Mulheres" foi pensado em todos os detalhes, com atenção especial à questão da acessibilidade. Em entrevista à Revista Mana, a diretora Fany Magalhães conta detalhes, deixa escapar spoilers e nos inspira com o processo de criação e as escolhas que moldaram a peça que parece ser apenas o início de uma grande história. 


Mana: Existem diferentes formas de violência de gênero. Como vocês construíram isso na dramaturgia? 


Fany: É muito difícil falar da violência de gênero sem atualizar essa violência nos próprios corpos de quem está em cena. O teatro e a performance utilizam os nossos próprios corpos para expressar essas questões. Então foi um cuidado que a gente teve desde o início: não reforçar essa imagem da mulher como vítima, não ficar repetindo denúncias. 


Em aliança com os movimentos feministas, a gente foi entendendo a necessidade de construir dias mulheres mesmo, de colocar outra coisa nesse lugar. Acho que uma das maiores forças do texto é a afirmação da amizade entre mulheres, da alegria que se produz entre mulheres, do cuidado, do acolhimento que nós mesmas conseguimos criar entre nós.


Dias Mulheres - teatro de mulheres em Barbacena
Foto: Talita de Paula

  

Claro, fazemos denúncias. A gente fala da misoginia, fala do feminismo. Temos uma cena fortíssima que trata explicitamente do abuso, do estupro... Falamos da traição, do pacto machista, do silêncio. Tudo isso aparece ao longo do espetáculo.  

Mas, como a nossa ferramenta é o teatro, e o teatro é uma arte coletiva, uma arte que produz encontro, eu tenho refletido muito sobre como conseguimos construir uma interseção entre aquilo que o teatro propõe e aquilo que o próprio feminismo apresenta como caminho também. Essa história de nos juntarmos, de nos encontrarmos, de nos escutarmos umas às outras e construirmos esses laços entre nós. 

É daí que vem o caminho de Dias Mulheres. Temos tentado apresentar não uma solução, porque estamos muito longe de resolver esse problema, mas caminhos. Modos de resistir, de nos conectarmos, de nos empoderarmos e seguirmos adiante. 


Mana: E como esse processo de criação aconteceu? 


Fany: Isso vem desde o nosso próprio processo. Somos mulheres com histórias muito diferentes e a criação passa bastante pelo material autobiográfico. Não é um espetáculo documentário, não é um espetáculo autobiográfico em si. O material que utilizamos para construir a dramaturgia surge das nossas próprias experiências. É uma dramaturgia autoral. Eu, como diretora, fiz o tratamento final do texto, mas as atrizes trazem suas questões, suas vivências, suas inquietações. 


Tudo nasceu muito das nossas conversas. Desde a residência e depois nos ensaios, a situação que aparece no espetáculo é uma situação que nós mesmas vivemos muito: estar em roda, sentadas, conversando. 


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De repente alguém traz uma história, outra pessoa lembra de uma experiência própria, ou de uma amiga, de uma irmã, de alguém próximo. Essas histórias vão se cruzando. Ao mesmo tempo, a gente vai estudando. Vai perguntando: o que o feminismo sugere diante disso? Que caminhos são possíveis? 


A gente cita bell hooks, Chimamanda Ngozi Adichie, Leda Maria Martins... São mulheres que nos ajudam a construir essa fala coletiva. A gente tenta trazer essa multidão para o palco. Outras mulheres que colaboram conosco, que nos ajudam nesse exercício de fazer uma fala coletiva.Porque essa foi uma pergunta constante do processo: o que eu quero dizer individualmente? E o que nós, juntas, queremos dizer? 


Mana: Dias mulheres é uma expressão estranha, que bagunça mesmo a origem linguística das palavras... Tem aquele filme também da Marília Pera com a Rita Lee... O que são dias mulheres? 


Fany Magalhães: Eu acho que existe uma brincadeira com a ideia de dias melhores. Porque, sinceramente, do jeito que está, não está muito bom para as mulheres. Todos os dias acordamos com notícias terríveis. Inclusive, quando retomamos o processo com mais intensidade, em março, parecia que a cada dia surgia mais um caso de feminicídio, mais uma notícia de violência, mais um retrocesso. Então começamos a pensar: o que seriam dias melhores para nós? 


Em algum momento do processo encontramos uma resposta muito bonita. Está até registrada em um dos textos produzidos durante a criação.  

Dias mulheres seriam dias em que a gente não receberia nenhuma dessas notícias. Nenhuma notícia de feminicídio. Nenhuma notícia de abuso. Nenhuma notícia de misoginia. 

A gente sabe que está muito longe disso acontecer. Mas é uma projeção. E entendemos que esses dias melhores não seriam importantes apenas para as mulheres. Seriam importantes para toda a sociedade. Acho que os homens também têm prejuízos com o machismo. Talvez estejam percebendo isso muito devagar, mas já existem alguns sinais dessa compreensão. 


Fany Magalhães teatro de mulheres em Barbacena
Ensaio geral. Foto: Talita de Paula

Mana: Dentro da cena teatral de Barbacena, qual é a importância de um espetáculo como esse? 


Fany: A gente tem um grupo muito diverso. Temos mulheres negras, mulheres brancas, mulheres que se consideram pardas. Temos mulheres lésbicas, mulheres bissexuais, mulheres heterossexuais. Temos uma pessoa trans não binária... Mas existe uma característica que atravessa quase todas nós. Temos uma trajetória periférica. Somos mulheres de bairros de Barbacena. Somos mulheres da correria, como a gente gosta de dizer. Mulheres que estão brigando pela sobrevivência o tempo todo. 


A gente ainda está entendendo o impacto desse trabalho, mas percebe que existe algo muito particular nele. Talvez esse compromisso assumido de frente com um feminismo popular, plural, interseccional. Isso está no título do projeto, está na justificativa dele desde o início. A gente vive numa cidade do interior que tem uma história muito específica. Uma cidade marcada pela violência do Hospital Colônia. Mesmo que o espetáculo não trate diretamente disso, Barbacena tem uma relação histórica com a exclusão e com a violência que é diferente de muitas outras cidades. Cabe até outra pesquisa para pensar o quanto essa história também atravessa as mulheres. 


É uma cidade difícil. Uma cidade machista para caramba. Muito racista. Uma cidade onde as pessoas ainda se incomodam profundamente com determinadas pautas. 



Quando aconteceu a marcha LGBT, por exemplo, jogaram coisas nas pessoas por causa das bandeiras. As pessoas se incomodam com uma bandeira LGBT na cidade. Recentemente tivemos aquele episódio em que um vereador falou em "caçar as bruxas". A gente foi para a Câmara mais de uma vez. Levamos cartazes. Fizemos notas de repúdio. E muitas vezes a própria mídia local não dá atenção para isso. Então o espetáculo chega também para esse enfrentamento. Ele chega para afirmar um lugar.  


Quando escolhemos fazer esse trabalho num bairro, isso também faz parte da proposta. Nós não estamos no centro da cidade. Estamos no Valentim Prenassi, um bairro bastante militar. Os nossos vizinhos são militares.  

Então existe um lugar de enfrentamento e de ousadia em erguer esse trabalho aqui. 

Mana: A acessibilidade ocupa um lugar muito importante dentro do espetáculo, também, né? 


Fany: Sim. Isso virou uma questão central para nós. Temos uma mulher surda acompanhando o projeto desde a residência de criação. Temos uma consultora com deficiência visual. A intérprete de Libras faz parte da equipe e participou dos ensaios. Ela não chega apenas para traduzir o espetáculo pronto. Ela ajudou a construir esse espetáculo. 


teatro de mulheres em Barbacena
Ensaio geral: Talita de Paula

A audiodescrição também foi incorporada à dramaturgia. Ela não aparece apenas como um recurso técnico oferecido para uma pessoa específica. Ela faz parte da experiência de todo mundo que está assistindo. A Andreia Mendes, que é nossa consultora de acessibilidade e tem deficiência visual, disse uma coisa muito forte. Ela falou: "Eu jamais imaginei que poderia assistir a uma peça de teatro pensada para mim". 


Isso é muito forte. Porque, se queremos um feminismo plural, não podemos deixar essas mulheres de fora. Não temos como falar para as mulheres sem pensar também na mulher surda, na mulher cega, na mulher cadeirante. Então esse aspecto da acessibilidade não é um detalhe. Ele é parte do próprio projeto político do espetáculo. 


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Mana: Podemos chamar Dias Mulheres de um espetáculo feminista? 


Fany: Nós nos consideramos feministas. O espetáculo assume isso desde o início. A primeira leitura que fazemos em cena é de Sejamos Todos Feministas. Isso está no projeto desde a origem. Está no título, está na justificativa, está no processo inteiro. Não temos medo dessa palavra. 


O espetáculo tenta fazer um convite. Estender a mão e dizer: "vem com a gente". Em determinado momento a gente constrói uma roda em cena e convida as pessoas a dançarem conosco. Existe esse desejo de encontro. Porque eu acho que tanto o teatro quanto o feminismo propõem justamente isso: que, apesar das diferenças, a gente consiga se ouvir, se comunicar e construir algo em conjunto. 

A gente precisa de um mundo onde todo mundo possa existir sem precisar se justificar o tempo inteiro. A gente sabe que nunca vai dar conta de falar por todas as mulheres. Mas a gente consegue falar por quem está em cena e abrir esse espaço de escuta. É isso que o espetáculo tenta fazer. 

Mana: E como entra a identidade das mulheres do interior no espetáculo já que você busca essa diversidade? 


Fany: Eu mesma sou filha de gente da roça. Sou filha de uma mulher ligada à ruralidade, que tem essa relação com plantar e colher. Muitas de nós carregamos essa relação. Nossa região tem uma identidade muito rural. Mesmo quem vive na cidade geralmente tem raízes na roça. Então sentimos a necessidade de trazer essas mulheres para dentro do espetáculo. 


Existe um momento muito bonito, e também muito divertido, em que homenageamos as mulheres que cultivam, que produzem alimento e que sustentam saberes fundamentais para a nossa sobrevivência... A gente fala da agroecologia. Fala dessa relação entre feminismo e soberania alimentar. Porque quem alimenta este país são mãos femininas. São mulheres que plantam, que cuidam das sementes, das receitas, dos cultivos, dos saberes. Era muito importante que elas também estivessem presentes nessa conversa. 


teatro de mulheres em Barbacena
Foto: Talita de Paula

Mana: E quais são os próximos passos para Dias Mulheres


Fany: Nossa intenção é circular. Estamos ocupando agora esse espaço no Valentim Prenassi. É um pequeno teatro ali dentro do bairro, mas pensamos a encenação para que ela possa circular. Ela pode acontecer em muitos espaços, não apenas em teatros. Porque entendemos que é um espetáculo necessário em lugares diversos. Ele tem um viés pedagógico, um viés político, um viés de informação. 


Não queríamos fazer um espetáculo que só artistas gostassem ou entendessem. Queríamos um trabalho capaz de dialogar com mulheres que não frequentam teatro. Agora vamos concluir os registros da estreia, fazer um ensaio fotográfico e começar a inscrever o espetáculo em festivais e circuitos de circulação. 

Também queremos apresentá-lo em associações, escolas e espaços comunitários. A gente entende que esse espetáculo ainda será necessário por muito tempo.


Serviço:

Cartaz teatro de mulheres em Barbacena Dias Mulheres

Dias Mulheres

Datas: 11, 12 e 13 de junho (quinta, sexta e sábado)

Horário: 20h

Local: antiga Mercearia Vida Nova, Rua Egberto Hallaís França, 150 – Valentim Prenassi


FICHA TÉCNICA: 



teatro de mulheres em Barbacena

Direção: Fany Magalhães 

Dramaturgia: Alessandra Silva, Ana Marina, Fany Magalhães, Isis Ferreira, Luciana Oliveira, Talita Silva 

Atuação: Alessandra Silva, Isis Ferreira, Luciana Oliveira, Talita Silva 

Assistência de criação: Ana Marina, Andorinha, Iasmin Alice 

Produção: Fany Magalhães 

Assistência de produção: Sofia Rigonati 

Cenografia: Fany Magalhães 

Iluminação: Andorinha, Fany Magalhães 

Técnica e operação de iluminação: Andorinha 

Figurino: Nay Cúrcio 

Costura: Marília Flores 

Consultoria de beleza: Nay Cúrcio 

Sonoplastia: Fany Magalhães, Isis Ferreira, Sofia Rigonati 

Composições: Isis Ferreira e Luzmilla Luz 

Operação de som: Sofia Rigonati 

Consultoria em acessibilidade: Andreia Mendes, Lia Campos, Scarlet O’hana, Thaís Carvalho 

Interpretação em Libras: Carol Costa 

Audiodescrição: Ana Marina 

Design gráfico: Talita de Paula 

Fotografia: Talita de Paula 

Vídeo: Anne Anastácia – Vida Alternativa 

Apoio: Secretaria de Cultura e Turismo, Governo de Minas, Instituto Socioambiental das Vertentes, Tecer Cultural 

Realização: Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc, Ministério da Cultura, Governo do Brasil

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