Ilhéus: filme independente feito por mulheres vai a Cannes
- Daniela Mendes
- há 2 horas
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Como um filme de baixo orçamento leva o cinema independente feminino brasileiro ao mundo.


Por Daniela Mendes
Um longa-metragem de menos de R$ 1 milhão, feito longe dos grandes estúdios e com uma equipe majoritariamente feminina, atravessou o Atlântico para chegar a um dos palcos mais disputados do cinema mundial. “Ilhéus”, dirigido por Manu Sobral, foi selecionado para o Marché du Film, o mercado oficial do Festival de Cannes, e será exibido no dia 18 de maio, durante a edição de 2026 do evento.
Em tempos de concentração de recursos e narrativas, uma fábula macabra que mistura ciência e assombro fala sobre riquezas arqueológicas do Brasil e nos lembra que não somos uma invenção do colonialismo.
Na trama, Luana, uma estudante de São Paulo, chega a uma ilha remota em busca de vestígios de rituais funerários realizados há cerca de 1.500 anos por uma civilização desaparecida. O que começa como investigação científica se transforma em uma travessia sensorial, marcada por entidades sombrias, terror psicológico e uma atmosfera que flerta com o delírio.
Manu Sobral define o filme como uma obra de fronteira. “O gênero é fantasia”, explica. “Está dentro da ficção especulativa, tem momentos de terror, sobretudo terror psicológico, mas é mais autoral. É uma fábula macabra.” Uma escolha que mergulha numa paixão da diretora, a arqueologia que investiga os sambaquis, sítios formados por conchas, ossos e vestígios humanos que funcionavam como cemitérios e marcos territoriais de povos pré-coloniais.
Essas jazidas, que são reais e existem em parte do litoral sul e sudeste do país, remetem a imaginação a civilizações que dominaram estes territórios por milhares de anos e desapareceram sem deixar respostas definitivas. “A gente não aprende isso na escola e isso interfere na nossa ideia de pertencimento.”, lamenta a diretora.
Do curta ao longa: um percurso possível
Muitos cineastas consagrados começaram com curtas. Paul Thomas Anderson, por exemplo, produziu primeiro “The Dirk Diggler Story”, que deu origem a “Boogie Nights”. No Brasil, essa trajetória é comum para superar as dificuldades de financiamento inicial e não foi diferente com “Ilhéus”. O longa nasceu de um curta-metragem homônimo, que na época era o mais viável e depois partiu para uma produção maior.
Embora encha os olhos, o orçamento total de R$ 900 mil é baixo mesmo em termos de cinema nacional. E ainda assim Manu Sobral realizou tanto o curta quanto o longa. “Foi caríssimo, mas ao mesmo tempo baratíssimo”, brinca com a ironia. Produzido pelo Estúdio Zarvos e coproduzido pela RZP Filmes, o projeto cresceu aos poucos, cultivado em festivais e na persistência da equipe.

O set de filmagem como território
As filmagens aconteceram na Prainha Branca, no litoral paulista, uma comunidade caiçara marcada pela resistência à especulação imobiliária e pela preservação de modos de vida tradicionais.
Durante um mês, uma equipe de cerca de 60 pessoas praticamente dobrou a população local. A produção movimentou a economia, ocupando pousadas, consumindo alimentos da comunidade e contratando moradores para funções técnicas e artísticas. “A gente fomentou a economia local e criou uma troca real”, conta Sobral. “As pessoas começaram a se envolver, a querer participar, e o filme foi incorporando isso.”
Moradores viraram figurantes, personagens e até parte da equipe. Um barqueiro local acabou atuando em cena. E não foi acaso, mas necessidade, porque era o único capaz de enfrentar o mar revolto exigido pela narrativa. O cinema, ali, funcionou como amálgama dos saberes de um fazer técnico que imprescindia de conhecimentos tradicionais.
Corpo e voz femininos
Outra particularidade de “Ilhéus”, nas palavras da diretora, é que ele foi “completamente um filme feminino”. A escolha por uma equipe majoritariamente composta por mulheres cis e trans fez parte da estrutura. “Uma escolha de linguagem, de lugar de fala e também política. Eu queria um olhar feminino, sobre como a mulher é vista.”, revela.
A decisão também responde às dinâmicas de poder nos sets de filmagem. Para uma diretora em seu primeiro longa, comandar uma equipe em condições adversas de pouco orçamento e pouco tempo, poderia ser um desafio atravessar questões de gênero. “Eu me sentiria mais confortável com uma equipe feminina. Mais fluido.”
O resultado, segundo ela, é perceptível na tela: uma narrativa conduzida por sensibilidades, ritmos e olhares que tensionam o padrão dominante.
A contadora de histórias e a vocação latina no mundo
Antes do cinema, veio a palavra. Manu Sobral lembra de ser poeta desde a infância. Ela é autora do romance “O Estrangeiro na Gaiola” e atua como arte-educadora em oficinas de cinema para jovens. Recebeu prêmios como o Monumenta da Unesco/Iphan (Teu Canto de Praia) e o Los Angeles Independent Film Award (Uma Linha). Seus curtas foram exibidos em festivais nacionais e internacionais, e também participou como curadora e jurada em mostras como Tenemos que Ver e Movies That Matter.
Se Ilhéus mergulha em um passado brasileiro pouco explorado, a linguagem da diretora parece flertar com a tradição mais ampla do fantástico latino-americano. Um campo conhecido na literatura onde o sobrenatural não rompe com a realidade, mas a amplia. Ao ser questionada sobre a referência, a diretora até concorda, mas prefere outras hipóteses sobre o interesse internacional.
Ela lembra que o filme, ainda em sua versão curta, teve forte circulação fora do Brasil. Especialmente no Japão, onde conquistou o Fantastic Premio Award no Yubari International Fantastic Film Festival. “Eles [os japoneses] gostam de fantasma, de memória, de ancestralidade. E o meu filme tem essa coisa mais psicodélica, mais sensorial.” E não por coincidência, o Japão é o país homenageado em Cannes neste ano. As pistas estão no ar.
“Eu gosto da palavra, do som, da oralidade”, é o que Manu pode cravar. Não por acaso, “Ilhéus” trabalha com tradições orais caiçaras, formas de memória que resistem mesmo quando a escrita não chega e um território que também narra. “Um dos personagens principais é o lugar”, entrega.
Como Ilhéus chegou em Cannes

O Marché du Film é o braço comercial do Festival de Cannes, um dos maiores mercados de cinema do mundo. Ali, as tramas não competem apenas por prêmios, mas por circulação, distribuição, exibição, vendas para plataformas e festivais. É onde produtores, distribuidores e curadores se encontram para descobrir novos projetos e obras independentes podem ganhar projeção internacional. “É literalmente um mercado”, simplifica a diretora. “Um lugar para vender e comprar filmes.”
“Ilhéus” chegou até lá por meio da VDF Connection, consultoria e agência dedicada ao cinema autoral e de gênero, liderada por Mónica Trigo e Javier Fernández, referência no circuito latino-americano de cinema fantástico. O convite veio após o filme ser assistido ainda em fase de finalização. Em poucas horas, a resposta: “É um excelente caso para o showcase”, a frase ficou para Manu.
A partir daí, o projeto ganhou impulso, incluindo apoio da Spcine, empresa pública de fomento ao audiovisual de São Paulo, por meio do programa Next Frame, voltado à internacionalização de produções locais.
O desafio da distribuição
Apesar do reconhecimento internacional, “Ilhéus” ainda não tem distribuidora no Brasil. Sua estreia mundial será justamente no mercado de Cannes. Uma distribuidora é o elo vital entre a produção e o público, sendo responsável por comercializar, promover e lançar o filme nos cinemas, streaming e outras plataformas. Ela define a estratégia de lançamento, negocia com exibidores e maximiza a visibilidade e o retorno financeiro, tornando a obra acessível.
No Brasil, um dos maiores desafios do cinema independente não é apenas produzir filmes, mas justamente fazer com que eles cheguem ao público. A distribuição audiovisual é concentrada em grandes players do mercado.
Estes players são empresas, instituições ou plataformas que têm grande influência na produção, financiamento, distribuição ou exibição de filmes e séries. São os agentes que movimentam e ajudam a definir os rumos da indústria audiovisual, como a Netflix e a Globoplay. Por sua vez, estes priorizam produções com maior potencial comercial, sobretudo filmes estrangeiros e grandes lançamentos nacionais.
Com isso, obras independentes frequentemente encontram dificuldades para entrar em cartaz, permanecer nas salas de cinema ou alcançar plataformas de streaming com ampla visibilidade. O problema se agrava fora dos grandes centros urbanos, onde há menos salas e menos acesso ao circuito cultural. Para muitas diretoras e produtores independentes, festivais, cineclubes e exibições comunitárias acabam se tornando caminhos essenciais para garantir circulação e público aos filmes brasileiros.
Manu aponta a distribuição como um dos maiores gargalos do cinema nacional e fala sem rodeios: “Eu quero que o máximo de pessoas no Brasil veja esse filme. É uma história nossa, da nossa arqueologia.” O desejo passa pelos caminhos convencionais do cinema independente, mas também admite caminhos alternativos que vão desde a circulação comunitária às plataformas na web. “Eu fiz para o cinema, para a sala escura, mas o mais importante é que ele chegue nas pessoas.” Ficamos por aqui torcendo. Afinal, queremos ver mais do Brasil nas telas.





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