Mulheres debatem sobre cultura, memória e poder no Inverno Cultural da UFSJ
- Daniela Mendes
- há 52 minutos
- 4 min de leitura
Gestoras, artistas e produtoras discutiram a presença das mulheres nos espaços de decisão, a preservação da memória e os caminhos do Inverno Cultural da UFSJ.


por Daniela Mendes
A necessidade de ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão dos festivais do Campo das Vertentes, a valorização da memória e a construção de políticas culturais mais sensíveis e inclusivas pautaram a roda de conversa "Mulheres na Cultura", realizada na tarde de 24, durante o Inverno Cultural UFSJ.
A atriz e produtora Amora Pinheiro, a pesquisadora e gestora sociocultural Alzira Haddad, a idealizadora do Tiradentes em Cena, Aline Garcia, e a pró-reitora adjunta de Extensão e Cultura da UFSJ, Ana Cristina Reis Faria, integraram o encontro. A cantora Ana Canãs, inicialmente anunciada para a mesa, não participou do debate devido ao atraso na viagem e à passagem de som do espetáculo que apresentaria na mesma noite. O que acarretou um debate mais regionalizado que espelhou a produção feminina do Campo nas Vertentes.
Há mais de duas décadas a frente da organização não governamental Atitude Cultural, cujo portal São João del-Rei, Tiradentes e Ouro Preto Transparentes é o principal pilar, a pesquisadora e gestora sociocultural, Alzira Haddad defendeu o registro permanente das ações culturais como forma de preservar a memória das cidades e democratizar o acesso ao conhecimento. Para ela, festivais como o Inverno Cultural constroem um patrimônio que não pode se perder com o passar dos anos.

"Eu insisto na questão do inventário, porque eu fico aguada de imaginar como teria sido se o Inverno Cultural, desde o primeiro, tivesse registrado cada ação. Aquilo vira memória, vira exemplo, vira inspiração", afirmou.
Alzira também destacou que iniciativas financiadas com recursos públicos devem deixar registros acessíveis à sociedade, permitindo que as futuras gerações conheçam e se inspirem na história construída coletivamente.
Convidada da mesa, produtora cultural Aline Garcia, idealizadora da Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena, compartilhou sua trajetória e afirmou que foi profundamente influenciada por festivais como o Inverno Cultural e a Mostra de Cinema de Tiradentes. Para ela, embora as mulheres estejam amplamente presentes na produção cultural, ainda ocupam poucos espaços de decisão e de formulação de políticas públicas. Por isso, ampliar a presença feminina neste espaço e ainda na curadoria, na programação e na gestão cultural significa também transformar os modos de produzir cultura.
Ao refletir sobre essa desigualdade, Aline recorreu a dados da pesquisa Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras, do Estúdio Clarice, para mostrar que a baixa percepção sobre as lideranças femininas continua sendo um obstáculo. "Enquanto 68% dos homens acreditam que mulheres e homens têm as mesmas oportunidades de ocupar posições de poder, apenas 53% das mulheres compartilham dessa percepção. Além disso, 45% das mulheres não conseguem citar o nome de uma mulher em posição de poder", destacou.

Para a produtora cultural, esses números revelam que, embora as mulheres estejam presentes em diferentes áreas da cultura, o protagonismo delas ainda permanece pouco reconhecido, reforçando a necessidade de ampliar a presença feminina nos cargos de liderança, além de fortalecer redes de apoio, especialmente nas cidades do interior, para estimular uma articulação territorial capaz de impulsionar mudanças mais profundas.
A produtora executiva do Inverno Cultural, Amora Pinheiro, que também é atriz, contou que iniciou sua trajetória organizando eventos aos 12 anos de idade e refletiu sobre como muitas mulheres passam anos realizando o trabalho de produção sem reconhecer esse fazer como uma profissão. "Eu trabalhei dez anos fazendo isso sem saber que eu era produtora. Deve ser porque nós mulheres estamos sempre nesse lugar do fazer, do realizar", afirmou.
Com isso, ela introduziu a perspectiva na qual as expectativas impostas às mulheres na produção cultural são frequentemente associadas à ideia de que elas precisam "dar conta de tudo", conciliando múltiplas funções e mantendo uma postura de constante disponibilidade. O que contribui para a invisibilização da sobre carga de trabalho.

Amora, também frisou que um dos principais legados do Inverno Cultural é a formação de novas produtora, permitindo que jovens ingressem no mercado já reconhecendo seu trabalho como profissão e não apenas como uma tarefa naturalmente atribuída às mulheres.
Como mediadora da mesa, Ana Cristina também compartilhou experiências sobre os desafios enfrentados por mulheres em ambientes de liderança ainda marcados pela predominância masculina. Ao recordar uma reunião do próprio Inverno Cultural, ela relatou que precisou interromper um debate conduzido apenas por homens para conseguir ser ouvida. "Às vezes, ainda que a gente esteja num cargo de direção, é preciso quase dar um soco na mesa para ser escutada”, afirmou.

Houve também um momento de reflexão e celebração. Integrantes da organização lembraram que o festival passou por períodos de interrupção devido à falta de recursos no período do governo Bolsonaro, mas ressaltaram que essas dificuldades estimularam uma reflexão sobre seu papel.
Hoje, afirmaram, o evento busca fortalecer não apenas a programação artística, mas também sua dimensão formativa, comunitária e diversa com valorização da produção local. Pois compreende que a cultura é esse espaço de encontro, aprendizagem, mudança e construção coletiva.
Ao final da roda, as diferentes trajetórias das convidadas convergiram para uma mesma defesa: ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão da cultura significa fortalecer formas de gestão baseadas na escuta, na cooperação e na diversidade de perspectivas. Mais do que uma questão de representatividade, a liderança feminina foi apresentada como um caminho para transformar a produção cultural e garantir que as experiências construídas hoje permaneçam como patrimônio para as próximas gerações.







Comentários