Fé e papel crepom nas cruzes de Dona Lilia em Tiradentes
- Daniela Mendes
- há 2 dias
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Dia de Santa Cruz: artesã mantém viva a devoção a Santa Helena e transforma memória, fé e artesanato em patrimônio cultural em Tiradentes.


Por Daniela Mendes.
Em outonos mineiros, as cruzes são para esta estação o que as flores são para a primavera. Embora a crise climática tenha apagado, em parte, os sinais que anunciam os ciclos, algumas tradições religiosas permanecem e nos oferecem o consolo suave do previsível. Talvez por isso, conversar com Dona Lilia sobre suas cruzes de papel crepom seja quase como se tornar íntima de Tiradentes inteira. Ela é uma das artesãs que mantém viva a tradição do Dia de Santa Cruz.
Há quem carregue a saudade nos olhos, e, não raro, essas pessoas despertam um calor silencioso de empatia. Afinal, quem atravessa uma dor tão funda quanto a perda de uma filha passa tem contato com o mundo através de uma espécie de pele mais fina, aberta às delicadezas e às durezas da vida. Isso se dá num “fica mais, vou passar um café”. E lá vamos nós falar do tempo, das cores que combinam, dos efeitos terapêuticos do artesanato — “bom demais fazer” — e dos mistérios de Deus, que não cabe a nós entender.
Dona Maria do Carmo Fonseca, a Dona Lilia, é assim. Devota de Santa Helena, mantém viva uma tradição que atravessa gerações. Segundo ela, na noite do dia 2 para o dia 3 de maio, a santa percorre as casas onde há cruzes enfeitadas nas portas. “Eles falam para a gente colocar à noite, porque ela passa visitando”, conta, com os olhos brilhando.

A relação com a tradição vem de longe. Foram seus familiares que iniciaram a prática, em um tempo em que ela era mais difundida. Com o passar dos anos e a morte dos mais velhos, o costume foi se perdendo. “Acabou. Ninguém mexia mais”, lembra.
Foi então que decidiu retomar. Ao ver que as pessoas ainda colocavam cruzes nas portas, mas sem ornamentação, resolveu fazer diferente. Começou enfeitando a própria cruz com papel crepom, técnica que já conhecia da família. Pouco a pouco, chamou a atenção dos vizinhos. “O pessoal passava e perguntava. Aí foi continuando.”
Trabalho com cultura
O que começou como gesto de devoção ganhou forma de ofício. Dona Lilia começou a vender as cruzes e deixou o bordado, que também marcou sua trajetória. Ela chegou a chamar a atenção de jornalistas e visitantes, que registravam seu trabalho. Mas a dificuldade de valorização deste fazer manual, um desafio constante, fez com que ela se concentrasse no papel crepom.

A participação em um projeto de design na Semana Criativa abriu novas possibilidades. Em parceria com outros profissionais, passou a experimentar novas formas, como terços, luminárias e objetos decorativos feitos com o mesmo material das cruzes. “Foi me inventando”, diz, com simplicidade.
Para ela, o reconhecimento do trabalho tem um sentido maior: é uma bênção, uma devoção que não se separa da experiência pessoal. A perda da filha marcou profundamente sua vida, e o artesanato também se tornou uma forma de atravessar o luto. De tempos em tempos, ela troca as flores artificiais de uma cruz erguida no local onde a filha sofreu o acidente fatal, há décadas. “A gente não esquece. Todo mundo na cidade tinha muita amizade por ela”, diz.
História
Fazer uma cruz enfeitada para colocar na porta de casa na madrugada de 2 para 3 de maio não é apenas decorar: é um gesto de pertencimento. Ao aderir à prática, a pessoa se vincula ao lugar, incorporando uma identidade que se constrói na repetição e no sentido compartilhado.

É verdade que se trata de uma tradição com raízes nos tempos coloniais, marcados por contradições e violências. Mas, se não é possível reescrever o passado, certos hábitos ainda nos permitem ressignificar, criar continuidades com o que é bom e produzir sentidos no presente. E, muitas vezes, são os artesãos que sustentam esse elo, carregando consigo o patrimônio imaterial; moldando uma paisagem cultural repleta de simbolismo.
A devoção à Santa Cruz é ainda mais antiga. Remonta ao século IV, em Jerusalém. Em Roma, celebravam-se duas datas: a Invenção da Santa Cruz, em 3 de maio, e a Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro, duas tradições difundidas pelo mundo cristão e que, no Brasil, ganharam caráter popular e comunitário.
No período colonial, jesuítas fincavam cruzes nas terras como forma de afirmar o poder da Igreja sobre os territórios indígenas. Com o tempo, a celebração incorporou elementos locais: danças, ornamentação dos cruzeiros, ladainhas, quermesses, leilões, comidas típicas, fogos e o levantamento do mastro. Leia aqui.

Na vizinha São João del-Rei, a tradição remonta ao fim do século XIX. Registros da época indicam festas em bairros como Bonfim, Senhor dos Montes e Tijuco. A partir da década de 1970, no entanto, mudanças litúrgicas, transformações urbanas e o surgimento de novas expressões religiosas contribuíram para o seu declínio.
Mãos e fé
Se enxergarmos a história como uma corrente, veremos, na ponta de seus elos, as mãos tingidas de cola e papel crepom de Dona Lilia, resistindo ao desaparecimento dos festejos com profunda devoção a Santa Helena. Pois não se trata apenas de festa ou de artesanato, mas de um laço que une passado, presente e futuro em harmonia.
Helena Augusta, conhecida como Helena de Constantinopla, foi mãe do imperador romano Constantino. A tradição cristã atribui a ela a descoberta do local da crucificação de Jesus Cristo, onde foi erguida a Basílica do Santo Sepulcro. É por isso que, no imaginário popular, é ela quem percorre as casas abençoando as cruzes.
Sua santidade, nesse sentido, não se limita aos vínculos familiares ou políticos, mas se afirma pela relação direta com o sagrado. Uma figura que simboliza cuidado, proteção, intercessão e segue viva nas mãos de quem, como Dona Lilia, transforma fé em matéria.





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