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Banquete da Inconfidência em Tiradentes une gastronomia e solidariedade

Evento gratuito transforma o centro histórico de Tiradentes em uma grande mesa coletiva com participação de moradores e restaurantes da cidade.


Pessoas diversas sentadas à mesa no centro histórico de Tiradentes
Confraternização começou às 19h. Foto/Daniela Mendes

Por Daniela Mendes


Ontem, 36 restaurantes de Tiradentes proporcionaram aos moradores um festim popular ao ar livre, totalmente gratuito, nesta que foi mais uma edição do Banquete da Inconfidência. Uma grande mesa tomou toda a rua Direita, onde moradores puderam conhecer os sabores servidos nos estabelecimentos que, no dia a dia, só turistas experimentam. Trata-se de uma ampla rede de apoio, que inclui desde produtores locais até empresas e instituições 


A cidade leva o nome do mártir e condiciona ao erro de se achar que Tiradentes nasceu aqui. Mas ele entrou neste mundo pela vizinha Ritápolis, mais especificamente na Fazenda do Pombal. O que realmente marca a história da Inconfidência na cidade, então Comarca do Rio das Mortes no século XVIII, é a gastronomia. Em 8 de outubro de 1788, aconteceu aqui a primeira reunião dos inconfidentes. O pretexto, para não chamar atenção da repressão monarquista, foi um banquete de batizado dos dois filhos de Alvarenga Peixoto com Bárbara Heliodora.  


Após a cerimônia, em que o Padre Toledo havia sido o celebrante na Matriz de Santo Antônio, um banquete foi oferecido na casa dele, com a presença de Tomás Antônio Gonzaga, João Rodrigues de Macedo, Luis Ferreira de Araújo e Azevedo (desembargador da comarca), Luís Vaz de Toledo Piza e Luís Antônio (Tesoureiro dos Ausentes).  


Naquele dia, numa mesa farta, eles comeram, beberam e sonharam um país soberano com justiça para os seus cidadãos. De certa forma, a cidade ainda reúne neste espírito os vizinhos e amigos para confraternizar por, pelo menos uma noite, a cada ano.  


O prato principal 


panelas na rua em cima de uma mesa para servir a população
Restaurantes improvisam bancadas e servem a população. Foto/Daniela Mendes

O prato principal foi a solidariedade. Um respiro diante das contradições, dos desafios e da especulação imobiliária intensificada pelo turismo predatório, questões que alguns tiradentinos procuram enfrentar. Não apenas com um banquete anual, claro, mas para com ele lembrar o que realmente fortalece uma comunidade. 


Essa ideia dialoga com o que o geógrafo Milton Santos defendia: a solidariedade como contraponto à lógica do mercado. Para ele, a globalização tende a produzir individualismo e fragmentação social. A resposta estaria nas relações construídas no cotidiano, no lugar e na copresença, onde vínculos reais podem resistir às desigualdades e criar formas mais justas de convivência. 


Não há, no entanto, exatamente esta intenção tão explícita em cada dono de restaurante envolvido. Ao percorrer a coluna vertebral de mesas de plástico estendidas pela maior via do centro histórico da cidade, é notório apenas a alegria do encontro entre as pessoas ao lado da satisfação e orgulho de quem cozinha. o que fica claro e difícil é não reconhecer a solidariedade atravessando os gestos e os sorrisos. 


De fato, muitos dos nossos atos mais cotidianos são automáticos e pouco refletidos, inclusive em sua dimensão política. Contudo, eles não deixam de carregar significados importantes. A política, nesse sentido, não se restringe às instituições ou a disputa de partidos. Ela está presente em qualquer processo coletivo de decisão, na forma como grupos se organizam, resolvem conflitos e definem seus rumos. 


Assim, uma simples organização festiva, carregada de tradição cultural e memória, que remete não apenas à Inconfidência Mineira, mas também ao legado gastronômico da cidade, pode mobilizar afetos e transformar uma quarta-feira em um momento de encontro em que comer vira também o elo e lembrete da importância da cooperação entre os munícipes. 


História de um banquete 


Foto: Daniela Mendes
Foto: Daniela Mendes

Tudo começou na administração municipal de Ralf Justino (2013-2016). Já naquela época, havia uma inquietação sobre quem, de fato, se beneficiava dos grandes eventos realizados em Tiradentes.  


O Banquete da Inconfidência surgiu como resposta daquela administração às críticas da população local, que se sentia afastada das programações culturais voltadas sobretudo aos turistas. “A gente ouvia muita reclamação do pessoal da cidade, que os eventos eram feitos para a pessoa de fora”, lembra Ralf. Diante desse cenário, ele afirma ter sentido uma obrigação de responder à população de forma criativa e encontrou na gastronomia um ponto de convergência.  


A gastronomia sempre aglutina as pessoas”, diz. A partir dessa ideia, surgiu o formato que se tornaria a marca do Banquete da Inconfidência: uma grande mesa coletiva montada na principal rua da cidade. “Você fazer uma mesa única, assim, num lugar de 300 metros, chama muita atenção”, recorda. 


Desde o início, o Banquete teve como objetivo central a inclusão. A organização se mobilizou para garantir a presença de moradores de diferentes regiões da cidade. “A gente colocava divulgação em todos os lugares mais afastados”, relata. Apesar de uma recepção inicial cautelosa, o evento rapidamente ganhou adesão. “Depois eles foram gostando, e o pessoal da cidade abraçou o evento de uma maneira muito bacana. 


Os convivas brindam o encontro. Foto/Daniela Mendes
Os convivas brindam o encontro. Foto/Daniela Mendes

Outro pilar importante foi o envolvimento dos restaurantes locais, convidados a sair de seus espaços tradicionais e cozinhar diretamente para a população.


O Banquete da Inconfidência aconteceu ao longo dos quatro anos de mandato de Ralf e foi interrompido posteriormente. A retomada veio a partir do interesse de novas pessoas, com outros apoios e estrutura ampliada. 


E mesmo com mudanças, o espírito original permanece. Para o idealizador, o Banquete da Inconfidência é, antes de tudo, um exercício de convivência e coletividade. Segundo ele, a experiência revela uma dimensão rara em eventos públicos desse tipo: “Não tem confusão, não tem briga. Todo mundo ajuda, participa. É um exemplo.” 


Enamorada pela cidade 


Juliana de Morais no Banquete da Inconfidência
Juliana de Morais. Foto: Daniela Mendes

Uma das novas organizadoras é a cozinheira Juliana de Morais Ferreira. A relação dela com o Banquete da Inconfidência começa no mesmo ano em que chegou a Tiradentes, em 2013. Recém-instalada, com restaurante novo, ela se deparou pela primeira vez com o evento ainda em sua versão inicial. “Eu estava no restaurante quando vi o primeiro banquete acontecendo”, lembra.


A cena, para ela, foi marcante: “Eu vi uma mesa na rua, restaurantes fazendo comida e entregando para as pessoas. Achei aquilo maravilhoso”.  Contudo, o evento deixou de acontecer e ao buscar entender os motivos, Juliana identificou as críticas da própria população, especialmente em relação à forma como o banquete havia sido organizado. “As pessoas acharam ruim porque tinha uma mesa para autoridades, com louça e talheres, e o restante comia em pé, com descartáveis”, explica. 


quatro organizadoras do Banquete da Inconfidência
Fazendo acontecer da esq. para direita e de cima para baixo: Fernanda Fonseca, Luiza Cassano, Joana e Juliana. Foto gentilmente cedida pelo Banquete da Inconfidência: Thais Andreza

Foi a partir dessa leitura que surgiu o desejo de retomar o projeto sob outra perspectiva. “Eu falei com o Ralf: ‘acho que entendi onde foi o erro, a gente pode fazer diferente”, conta. Mesmo diante da resistência inicial a ideia persistiu. Durante anos, insistiu na retomada. “Todo ano eu cutucava o Ralf: ‘você não vai voltar com o banquete?’” 


A virada aconteceu cerca de uma década depois. Com autorização do ex-prefeito e idealizador do projeto para ela assumir a coordenação, Juliana buscou fortalecer o enraizamento local do evento. Então ela convidou Fernanda Fonseca, empresária da cidade, para dividir a organização e outros 36 donos de restaurantes, comerciantes e apoiadores. A parceria também reaproximou o idealizador original, que passou a colaborar nos bastidores. 


A retomada trouxe mudanças estruturais importantes. Hoje, o Banquete ocupa toda a extensão da Rua Direita, com cerca de mil lugares à mesa sem divisões. “Não tem reserva, não tem diferença para ninguém. É todo mundo igual ali”, resume Juliana. 


Banquete da inconfidência
Foto: Daniela Mendes

Ainda assim, o processo tem sido marcado por ajustes contínuos. “Cada ano é um erro novo que a gente comete, tentando aproximar mais os moradores”, brinca a coordenadora do projeto. Um dos principais desafios é fazer com que a população local se reconheça no centro histórico. “É difícil fazer o morador frequentar um espaço que ele historicamente não acha que é para ele.”, aponta. 


Efeito colateral e expansão da ideia 


Fotos do Banquete da Inconfidência na Várzea de Baixo./Daniela Mendes


Entre acertos e aprendizados, o evento cresceu, inclusive além do esperado. A presença crescente de turistas na data contrariou a proposta original. “Nosso objetivo é atingir quem mora aqui. Se vira turístico, perde o sentido”, afirma Juliana.  


Para enfrentar isso, a organização passou a evitar divulgação prévia e criou estratégias como a distribuição de pulseiras prioritárias para moradores além de separar o Banquete das comemorações da Semana da Inconfidência. “A ideia é garantir que os primeiros pratos sejam para quem é da cidade.”, reforça.


Deu certo! Esse ano, Juliana avalia que o evento chegou a um modelo ótimo. “Foi mais fartura para o pessoal daqui, cumprindo nosso objetivo de servir os moradores como VIPs. Que fique muito bem entendido de que todo esse trabalho é para eles”, afirma. 


E.M. Alice Lima: Banquetinho
Banquetinho na E.M. Alice Lima. Foto/ Thais Andressa

Paralelamente, o Banquete começou a se expandir para além do centro. A partir do ano passado, a equipe passou a levar encontros gastronômicos para bairros periféricos. “A comida não é só sobre comer, é sobre se reunir, confraternizar”, diz Juliana.  


Coletivo Arreda. Foto gentilmente cedida pelo Banquete da Inconfidência/ Thais Andressa
Coletivo Arreda. Foto gentilmente cedida pelo Banquete da Inconfidência/ Thais Andressa

As ações incluem eventos comunitários e até iniciativas em escolas. Esse ano, uma peça teatral com o Coletivo Arreda, apresentou a peça “Como queijo para Goiabada”. A ação terminou com um pequeno banquete para crianças, com alimentos típicos da região na escola Alice de Lima na Mococa. 


Para Juliana, a gastronomia é um eixo central da identidade local. “A cultura mineira se desenvolve ao redor da mesa”, afirma. Nesse sentido, o Banquete funciona como mais do que um evento: é um dispositivo de encontro. “É sentar junto, ouvir o outro, combater intolerâncias.” 


No centro de tudo, permanece a intenção original que moveu a cozinheira desde o primeiro contato com o Banquete: devolver à cidade aquilo que ela oferece. “A gente vê como uma devolutiva social”, afirma. E reforça: “O morador precisa ser o protagonista dessa história, sentado à mesa, ao lado de todo mundo.”



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