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Fibromialgia em pauta

Atualizado: 18 de jul. de 2025

Um dia para acolher pacientes com fibromialgia no Centro Integrado Médico Especializado, CIME, em Tiradentes (MG).

Imagem ilustrativa: Roxx3162 via Pixabay
Imagem ilustrativa: Roxx3162 via Pixabay

Quem vive com fibromialgia sabe: a ferida pode até não aparecer por fora, mas impacta a rotina de quem sente. Não é preguiça, não é frescura, nem invenção de nenhuma espécie: dói. Pensando nisso, na manhã desta terça-feira (2), a Secretaria de Assistência Social e a Secretaria de Saúde de Tiradentes organizaram um café especial com o objetivo de acolher, informar e fortalecer quem enfrenta essa condição.


Entre copos de café, abraços e trocas sinceras, profissionais da saúde, familiares e pacientes, em sua maioria mulheres, conversaram sobre sintomas, tratamentos, direitos e, principalmente, a importância de não se sentirem sozinhas. Durante palestra, a fisioterapeuta Ana Paula Barbosa Nazaré resumiu o espírito do encontro logo no início: “É muito importante quando a gente tem alguém que entende aquilo que a gente tá passando”.


Mesa de café posta para receber pacientes
Mesa de café posta para receber pacientes

Na ocasião, a superintendente de assistência social, Lucilene Nascimento, também recolheu os documentos necessários para emitir a carteirinha de identificação da pessoa com fibromialgia. Quem já tem o diagnóstico e não pôde comparecer precisa apenas levar o comprovante de residência, foto 3x4, laudo médico com CID, RG e CPF à Secretaria de Assistência Social. Não há prazo limite para solicitar o documento. A fibromialgia, atualmente reconhecida como deficiência, dá direito à carteirinha.


Em Tiradentes, o benefício está previsto na Lei Municipal nº 3.597/2025. O documento garante, além da identificação, atenção integral, pronto atendimento e prioridade no acesso a serviços públicos e privados nas áreas de saúde, educação e assistência social.


As pessoas que entregaram os documentos durante o evento (02/07) poderão retirar suas carteirinhas a partir de 10 de julho, das 8h às 16h, no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), localizado na Rua do Chafariz, nº 10-A.


Dor compartilhada e acolhimento


A fisioterapeuta Ana paula
A fisioterapeuta Ana paula

Enquanto a fisioterapeuta Ana Paula falava, algumas mulheres se emocionaram, deixando claro que quem sofre com essa condição enfrenta problemas de outras ordens, como a incompreensão de familiares e empregadores. O que uma paciente chamou de “dor do preconceito”.


A agente de saúde da Mococa, Bianca Tavares, há oito anos neste trabalho, disse que já acompanhou muitas pacientes com fibromialgia. “A gente escuta muito, não dos profissionais, mas às vezes dos pacientes que estão lá na espera: ‘Nossa, essa pessoa está aqui de novo!? Nossa, mas essa pessoa tá cada dia reclamando de um lugar’. Nossa, mas cada dia essa pessoa tá reclamando de uma coisa”, relata. Depois, aconselhou: “Não cabe a nós julgar a realidade que não vivemos. A gente tem que se compadecer e ter um empatia muito grande. É lidando que a gente conhece o sofrimento”.


Isso acontece porque o diagnóstico é difícil. A tal ponto de ser muitas vezes confundido com quadros de psiquiatria. Como a fisioterapeuta Ana Paula explicou, a fibromialgia é uma síndrome porque trata-se de um conjunto de sinais e sintomas que ocorrem simultaneamente e caracterizam uma condição específica.


Para piorar, não existe uma causa única ou definida. E essa é a diferença da fibromialgia para outras doenças que têm uma causa conhecida. Síndromes podem ter causas diversas ou ainda não definidas.


A má alimentação e o abuso de bebida alcoólica não são causas, mas agravam os sintomas. Por isso, a nutricionista Kellen Alessandra Silva Castelo Branco lembrou da importância de se evitar alimentos que inflamem o organismo. “A nutrição pode ser aliada na redução da inflamação, pode melhorar a qualidade do sono e até dar energia para as pessoas”, afirmou. Depois explicou por um bom tempo o que eram alimentos ultraprocessados, deu boas ideias de aliados na eliminação de radicais livres e também outras soluções simples que podem ser encontradas em hortas nos quintais.


Essa última dica foi muito apreciada pelas pacientes que deram testemunhos animados de como mexer com plantas também ajudava a lidar com os sintomas. “Aquela alimentação dos nossos avós, que plantavam e comiam o que dava na terra, a folha, a mandioca, a gente precisa resgatar esses hábitos. Quem tiver um pedacinho de terra, vamos plantar!”, exaltou Kellen.


Um pedido e uma lei


O encontro se encaminhava para o fim quando a costureira Lucia Helena Nascimento foi para frente da plateia e contou sua história. Ela disse que o casamento de 33 anos acabou por causa da doença. Agora ela mora com familiares, que já estão acostumados com sua doença. “Eu entorto os pés, entorto a perna, entorto as mãos. Na época do frio para mim é pior. Por exemplo, na festa da Santíssima Trindade, eu não fui. Um dia que fui, meia hora que eu fiquei lá, eu peguei o carro com as minhas pernas doendo e com as mãos todas tortas, dirigindo o carro”, lembrou.


Ela fez questão de lembrar, que há tempos pedia aos vereadores para municipalizar a lei da fibromialgia em Tiradentes, mas nunca era atendida. Por isso, fez questão de agradecer à parlamentar Luciana Venturini (Republicanos), que estava presente, pela lei. Segundo Lucia Helena, quando pediu à vereadora que ajustasse a legislação na esfera municipal foi prontamente atendida. “E a única mulher que tinha lá, que era a Luciana, que me atendeu. Então, assim, eu queria bastante falar mesmo da Luciana”, falou e depois, a paciente abraçou a vereadora.


Lucia Helena e Nair
Lucia Helena e Nair

Direitos e conquistas


Muitas ideias foram ventiladas sobre elas se unirem e fazerem um grupo. Quem gostou da ideia e se pôs à disposição foi a superintendente da mulher, Nair Aparecida França. A reunião então chegou naquele momento criativo, onde ideias empoderadas foram ventiladas.


No mesmo dia do pequeno evento, o Senado, em Brasília, aprovou o projeto que equipara os pacientes com fibromialgia, com Fadiga Crônica ou por Síndrome Complexa de Dor Regional ou outras doenças correlatas a pessoas com deficiência (PL 3.010/2019).


Lucilene da secretaria de assistência social
Lucilene da secretaria de assistência social

O relator, senador Fabiano Contarato (PT-ES), destacou que entre os direitos assegurados estão auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, o recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e até isenção de impostos na compra de automóveis.  A lei já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e vai à sanção presidencial. (leia aqui)


Por fim, Lucilene explicou os direitos dos pacientes de fibromialgia um por um de forma bem didática, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), tratamento pelo SUS, reconhecimento como pessoa com deficiência (BPC), aposentadoria por invalidez e auxílio-doença (INSS), isenção de impostos, atendimento prioritário, direito ao trabalho e educação com adaptações.



Saiba mais


Ainda não há uma causa definida para a fibromialgia, mas acredita-se que fatores genéticos, ambientais, traumas físicos, infecções virais, estresse e problemas psicológicos possam desempenhar um papel no desenvolvimento da doença.


Estudos indicam que a fibromialgia pode estar relacionada a alterações no sistema nervoso central, onde o cérebro passa a perceber estímulos do corpo como dor, mesmo que não sejam dolorosos.


O diagnóstico da fibromialgia é feito por exclusão, ou seja, o médico precisa descartar outras condições que possam causar sintomas semelhantes antes de diagnosticar a fibromialgia. O diagnóstico pode incluir exames de imagem e laboratoriais para excluir outras doenças, além de uma avaliação clínica detalhada dos sintomas.


O tratamento da fibromialgia é multidisciplinar e visa aliviar os sintomas, melhorar a qualidade de vida e reduzir o impacto da doença.


A fibromialgia pode ter um impacto significativo na vida do paciente, afetando sua capacidade de trabalhar, realizar atividades diárias, manter relacionamentos e desfrutar de atividades de lazer. É importante buscar tratamento adequado e apoio para lidar com os desafios da doença e melhorar a qualidade de vida.


Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (leia aqui), a síndrome afeta 2% a 3% da população brasileira, principalmente as mulheres entre 30 e 55 anos.


Alguns estudos indicam prevalência feminina de até 10,5% em certos grupos, contra menos de 1% em homens. Outras pesquisas sugerem que há uma predisposição genética, já que a prevalência entre familiares consanguíneos foi mais alta em mulheres (41%) do que em homens (14%). Predisposição genética, questões hormonais, maior sensibilidade à dor, são algumas hipóteses não confirmadas da ocorrência ser gritante em mulheres. (leia aqui)


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