top of page
Logo da criadora Daniela Mendes

Doodle tenta infectar o 8M

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

O sistema aliado ao patriarcado sempre tentará esvaziar o sentido do 8 de março, mas resistiremos. 8M é verbo.



A escolha do Doodle deste ano para o Dia Internacional da Mulher é enigmática. Segundo o próprio Google, a proposta foi homenagear pioneiras da ciência. “De astrônomas a navegadoras oceânicas, as descobertas e invenções lideradas por mulheres ajudaram a construir a base do nosso mundo moderno. Hoje, honramos seus legados duradouros, que abriram caminho para a próxima geração de mulheres e meninas que ousam ser curiosas”, afirmou a empresa.


Os Doodles, alterações artísticas no logotipo do Google exibidas na página inicial do buscador, aparecem há anos para celebrar eventos, feriados, aniversários e figuras notáveis. No caso específico do 8M, observamos que o gesto parece bem-intencionado ao propor uma imagem feminina contemporânea, distante dos padrões machistas que marcaram grande parte do século XX. Mas a estratégia de esvaziar a data permanece sob nova capa.


O que se faz aqui é transformar o 8M em uma celebração. Mesmo quando a homenagem foge das metáforas de flores ou do confinamento ao ambiente doméstico, a escolha da empresa contribui para apagar o que realmente está em jogo nesta data: ser o dia de resistência. Como em toda efeméride, repetimos a máxima: dia de lutar é todo dia. Porém, hoje é ainda mais.


Não se esqueça, cara leitora, que as mulheres estão reunidas para responder à pergunta de Freud repetida por décadas de forma cínica: o que quer uma mulher? Uma pergunta que afirma a ausência do desejo e do conhecimento de nós mesmas. Ora, é evidente: queremos ser tratadas como seres humanos em condição de igualdade, e não como “segundo sexo”. Queremos eliminar essa raiz que sustenta todas as formas de violência.



O 8 de março nasceu como uma data profundamente marcada pela luta política das mulheres trabalhadoras. Ao longo do tempo, porém, foi sendo gradualmente transformado em uma celebração genérica da “mulher”, muitas vezes esvaziada de seu sentido histórico e reivindicatório. Mulheres se organizavam politicamente, protestavam e reivindicavam direitos. Movimentos feministas e organizações de mulheres utilizavam a data para denunciar desigualdades estruturais, violência de gênero, exploração no trabalho e a exclusão dos espaços de poder.


A institucionalização da data pela Organização das Nações Unidas, em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, ampliou sua visibilidade global. Contudo, ao mesmo tempo, abriu espaço para um processo de ressignificação que, em muitos contextos, acabou suavizando seu caráter político. Com o passar das décadas, especialmente a partir do final do século XX, o 8 de março passou a ser cada vez mais apropriado pelo mercado e por discursos institucionais que deslocaram o foco da luta coletiva para a exaltação abstrata da “mulher”.


Campanhas publicitárias, homenagens simbólicas e mensagens que enaltecem qualidades como sensibilidade, cuidado ou beleza passaram a dominar a narrativa pública da data. Flores, descontos em lojas, eventos comemorativos e felicitações substituíram, muitas vezes, a dimensão crítica e mobilizadora que marcou sua origem. Percebem como fomos silenciadas sorrateiramente?

Nesse processo, a figura da mulher é frequentemente apresentada de forma universal e despolitizada, apagando as desigualdades concretas de classe, raça e acesso a direitos que estruturam a vida das mulheres. O Doodle fez exatamente isso.


Esse deslocamento faz parte de um fenômeno mais amplo de neutralização de datas políticas. Ao transformar um dia de protesto em um momento de celebração genérica, dilui-se o conflito social que deu origem à data. O Doodle cumpre o papel discursivo: individualiza histórias e atribui qualidades enquanto silencia os embates que procuram derrubar estruturas de poder produtoras de desigualdade.

Mas recuperamos o sentido do 8M e estamos atentas.


O chamado é de organização coletiva e transformação social. O foco permanece em questionar as condições que ainda limitam a autonomia, a participação plena na sociedade e a segurança das mulheres.


Apesar dessa e de outras tentativas de esvaziamento, movimentos feministas em diferentes partes do mundo seguem nas ruas, em marchas e mobilizações públicas. Não apenas resgatam a memória histórica da data, como também a recolocam como momento de denúncia das múltiplas violências que atravessam seus territórios.


Nosso esforço aqui é apenas um grão de areia: mostrar essas lutas, fazer coro e transformar em registro histórico mulheres em movimento por seus direitos, justiça social e transformação das estruturas que sustentam a desigualdade que nos matam.

Comentários


bottom of page