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Denúncia e cuidado

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Atos em São João del-Rei e Tiradentes expõem diferentes formas de marcar o 8 de março e revelam ausências que ainda atravessam a luta.


Marcha silenciosa em memória das vítimas./Foto Kessiane Carolaine
Marcha silenciosa em memória das vítimas./Foto Kessiane Carolaine

Kessia Carolaine, estudante de jornalismo.

Supervisão e edição: Daniela Mendes


Tamara, Ione, Rita e Luana. Quem são elas? Em algum momento podem ter passado por nós nas ruas da cidade. Agora aparecem como números nas estatísticas do Estado. No domingo, seus nomes voltaram ao espaço público em cartazes levados por manifestantes que caminharam em silêncio da Igreja de Nossa Senhora do Rosário até o Largo do Carmo em São João del-Rei no Dia Internacional da Mulher.


A 12 km dali, na cidade de Tiradentes, o 8 de março foi lembrado de maneira mais festiva e acolhedora. Rodas de conversa, oficinas e música reuniram moradoras para um dia de cuidado e reflexão sobre direitos. É que se em uma cidade o objetivo foi denunciar a violência de gênero que preocupa a região, no outro a ideia foi de aproximar e acolher a fim de encontrar soluções.


O discurso que mata



Ato em São João del-Rei/ Kessia Caroline
Ato em São João del-Rei/ Kessia Caroline

A violência contra mulheres não começa apenas no momento em que vidas são interrompidas. Antes disso, ela aparece em falas e atitudes que naturalizam a desigualdade de gênero e reforçam a dominação do homem sobre a mulher.


Para a coordenadora da Associação Pró-Autistas (ASPAS), Daniele Muffato, enfrentar esse problema também passa pela educação. “Não adianta só eu cuidar da minha filha para que ela seja uma mulher empoderada se o meu filho também não for educado para entender a responsabilidade que tem nisso. É uma questão de educação mesmo. Isso deveria ser trabalhado dentro das escolas”, afirma.


Apesar de ser uma cidade universitária, São João del-Rei ainda convive com o conservadorismo quando o tema é violência de gênero. Participantes do ato avaliam que o debate público sobre direitos das mulheres encontra barreiras em outros setores da sociedade.


A vereadora Cassi Pinheiro (PT) defende maior participação do poder público na construção de políticas de proteção. “É também um chamado ao poder público. No ato, por exemplo, só estavam presentes as vereadoras mulheres. Os vereadores também precisam participar dessa discussão e pensar políticas públicas que protejam vidas”, diz.


Homens aliados


Como o ato foi organizado pela sociedade civil, mandatos, coletivos e sindicatos, alguns homens também participaram da mobilização em São João del-Rei. Integrantes de movimentos sociais defenderam que o enfrentamento da violência de gênero precisa envolver toda a sociedade.


O estudante João Victor Rodrigues, do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), afirma que a presença masculina nos atos é parte desse processo. “É importante somar forças nas lutas por direitos sociais que deveriam ser garantidos a todos. Quem luta por justiça social precisa estar presente nessas mobilizações”, diz.


Ausências


Ato na rua da Cachaça em São João del-Rei./ Kessia Carolaine
Ato na rua da Cachaça em São João del-Rei./ Kessia Carolaine

Entre os participantes, chamou atenção a baixa presença de mulheres negras e a ausência de mulheres trans. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que mulheres negras estão entre as principais vítimas de violência letal no país. Em 2024, foram registrados mais de 1.492 feminicídios. Dentre esse total, 63,5% das vítimas foram mulheres negras. Se as mulheres negras ainda lideram as estatísticas de violência de gênero, a luta contra o racismo precisa estar interseccionada com a luta contra o patriarcado.


Em alguns outros atos e mobilizações políticas de São João del-Rei, é notável a ausência de pessoas das comunidades e periferias da cidade, lugares onde a maioria das mulheres negras e mulheres trans estão vivendo. A doula e professora Fabrícia Dias reflete sobre a pouca participação das mulheres negras no ato: “Muitas vezes confundimos que essa unidade do 8 de março é como se fosse unificar as mulheres. Nós somos diferentes, e as urgências também, o peso, as consequências disso também aparecem de forma diferente entre as mulheres. Então, fazer esse exercício interseccional, pensando na articulação de gênero, raça,  e classe”, afirma. 


Tiradentes: cuidar de quem cuida


Evento no Largo das Mercês em Tiradentes/ Foto: Kessia Carolaine
Evento no Largo das Mercês em Tiradentes/ Foto: Kessia Carolaine

Se uma palavra pudesse definir o 8 de março em Tiradentes, seria cuidado. A programação reuniu rodas de conversa, oficina de cerâmica, cozinha ao vivo, lanche coletivo e atividades para crianças. As ações ocorreram ao longo do dia e promoveram encontros entre moradoras e visitantes que circulavam pela cidade. O evento foi organizado pelo Conselho Municipal de Direitos da Mulher (COMDIM), em parceria com secretarias municipais.


Muitas crianças acompanharam as atividades. Turistas que passavam pelo local se aproximavam por curiosidade e acabavam participando das rodas de conversa que falaram muito sobre a política do cuidado que remete às tarefas e responsabilidades domésticas não remuneradas.


Para a terapeuta de mulheres Manaíra Satil, integrante da Batucada das Minas, encontros como esse criam espaço para a partilha. “Esse tipo de evento permite conversar sobre assuntos sérios. Às vezes a gente passa por situações difíceis e não encontra espaço para falar sobre isso”, relata.


Depois de oficinas de cerâmica, gastronomia e apresentação do projeto Traga um Pandeiro, no final da tarde, a Batucada das Minas ocupou o Largo das Mercês com instrumentos de percussão. Depois, o evento se encerrou com um cortejo entoando cantos de resistência pelas ruas de pedra da cidade.


Assim como no ato de São João del-Rei, a  participação de mulheres periféricas foi baixa e nenhuma mulher trans estava presente. Para Manaíra, ampliar o alcance dessas atividades é um desafio. “Aqui em Tiradentes existem muitas mulheres que precisam de apoio. A gente espera conseguir levar essa mensagem também para as áreas periféricas da cidade”, projetou.


Movimentos feministas defendem que resgatar o caráter político do Dia Internacional das Mulheres é fundamental para ampliar o debate público sobre violência de gênero. A discussão não se limita às agressões físicas, mas é bom lembrar que também envolve enfrentar discursos e práticas que reforçam desigualdades e tornam mulheres mais vulneráveis.


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