Crônica
- Daniela Mendes
- há 5 horas
- 3 min de leitura
Vão-se os anéis, ficam-se os dentes

Por Fernanda Omelczuk*.
Hoje minha filha disse que sabe não ser a filha preferida do pai. Perguntei se ele tinha dito isso a ela.
“Não. Eu percebo” - ela respondeu, “ele já levou minha irmã no dentista, e eu não.”
Em um primeiro momento ouvir sua filha sentir-se preterida em relação a uma meia irmã pode causar náuseas e remexer o porão onde lembranças de um separação estavam organizadas, etiquetadas e numeradas.
Mas…vejamos com calma.
Não é incomum que irmãos reconheçam entre si a existência de um preferido. Isso acontece entre casamentos que nunca terminaram. Sem forçar a memória lembrei de duas famílias próximas onde isso é relatado com até bom humor.
Obviamente que a constatação acontecer por uma criança de apenas 7 anos pode levantar um alerta. Entretanto, o mais importante dessa história é celebrar a maturidade, sensibilidade e confiança de uma criança em observar, sentir, constatar e comunicar com serenidade que percebe uma forma diferente de seu pai cuidar e tratar ela e a irmã.
No caso, minha filha manifestou perceber que não era a preferida quando em uma conversa lhe orientei que mais a frente pedisse ao pai para lhe levar ao dentista colocar um novo aparelho ortodôntico caso o atual que ela mal está está usando agora (e pago sozinha) não tenha os efeitos necessários.
A reflexão dela foi genial. Ela lembrou-se de já ter acompanhado em algum momento o pai levar sua meia irmã ao dentista, mas ela mesma nunca foi levada ao dentista por ele. E a experiência desse gesto (provavelmente interligado com muitos outros ao longo de seus 7 anos convivendo com mãe e pai separados) foi suficiente para perceber um modo diferente do pai estar com ela e a meia irmã. E obviamente diferente dos cuidados maternos que ela recebe de mim.
Sua dedução é brilhante, um acalanto e motivo para celebrar e não para preocupação.
O cuidado com os filhos é uma responsabilidade mas também um afeto, cuidar demonstra importância e zelo. Levar e buscar na escola. No dentista, no médico, na festinha dos amigos. Acompanhar a rotina do dia a dia. O pai está sendo colocado em seu devido lugar. Um pai de visita trimestral. Com quem não posso contar nem pra me levar ao dentista…
Ela, menina, foi capaz de perceber que não tem nada de compartilhado nessa guarda, o que nós mulheres gritamos em audiências para fazer juízes entenderem.
Arrumei então a bagunça emocional do porão rapidamente. Encontrei novas sensações para colocar na prateleira. Uma felicidade, um orgulho, uma admiração, uma tranquilidade de ver minha filha desde pequena capaz de identificar qualidades de (des)cuidado masculino que levei cinco vezes sua idade para reconhecer e me libertar.
Sigamos juntas mulheres e meninas. Te levarei comigo e ao dentista quantas vezes precisar.
Fernanda Omelczuk, mãe solo há 7 anos. Foi obrigada a aceitar uma guarda compartilhada com um genitor que nunca compartilhou nada, vê a filha só quando quer e nunca perguntou sobre dentes, aparelhos ortodônticos ou consultas a dentistas.
*Psicóloga, professora da UFSJ. Ano passado publicou pela editora Folheando seu segundo livro de literatura ' Eu sou muitas ilhas' em que narra a vida de mulheres.
Imagem: Chantal Joffe é uma artista inglesa nascida nos Estados Unidos e radicada em Londres. Suas pinturas, muitas vezes em grande escala, geralmente retratam mulheres e crianças. As obras de Chantal Joffe estão fortemente associadas à arte feminista e à identidade de gênero. Embora sua intenção seja, acima de tudo, uma exploração honesta da figura humana, a sua dedicação em centralizar as mulheres, a maternidade e a experiência feminina desafia diretamente os padrões tradicionais da história da arte.





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