Obrigada, Dorothy Lenner
- Daniela Mendes
- 23 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Tornou o essencial visível aos olhos e ao alcance do corpo.

Depois de 93 anos habitando este planeta, a atriz e dançarina, Dorothy Lenner partiu no domingo, 21. Detalhes sobre o seu velório e causa da morte não foram divulgados pela família. Sabe-se apenas que andava hospitalizada. Restou à Tiradentes o luto de uma segunda-feira de sol, como um último presente da mestra.
Moradora por anos nesta cidade, manteve uma sala com exposição de objetos antigos, em um dos espaços do Instituto Cultural Largo do Ó, onde também viveu. Depois, começou a construir o Centro Cultural Tamanduá, que não concluiu por causa da pandemia de covid-19. Mas o imóvel com objetos ainda está no bairro Parque das Abelhas, à espera de sua dona, segundo disse o professor Luiz Cruz.
Muito festejada na cidade, foi homenageada no Festival Artes Vertentes, no Tiradentes em Cena e no 51º Festival de Inverno da UFMG. Recebeu a exposição, “Memórias”, sob a curadoria de Hideki Matsuka. Já apresentou espetáculos no palco e jardim do Centro Cultural Yves Alves, nas capelas de São Francisco de Paula e São João Evangelista e também no jardim do Museu da Liturgia.
Como bem disse Luiz Cruz em seu texto na ocasião de seu 89ª. aniversário dela – texto o qual recomendamos fortemente: “Dorothy Lenner caminhava pelas ruas de Tiradentes, apoiada em seus dois cajados, circulava por todos os lados, exercitando e recuperando os movimentos do seu corpo para expressar os movimentos precisos do Butoh. Os menos informados não tinham a menor ideia de quem se tratava, de que essa figura é uma das maiores e mais completas artistas que o Brasil já produziu. ”.
E quando ele fala dela, de sua grandeza, não exagera. Formada pela Escola de Arte Dramática (EAD-USP) em 1958, Dorothy estudou, dançou e criou espetáculos ao lado de grandes nomes da dança contemporânea. A partir dos anos 60 teve sua incursão em novelas e no cinema, dentre eles, em 1980 com Gaijin - Os Caminhos da Liberdade de Tizuca Yamasaki.
De 1959 a 1977 fez a direção de grupos de teatro e junto a operários na periferia e na rua, com crianças, adolescentes e adultos. Atuou com grandes diretores e conheceu o multi-artista Takao Kusuno em 1978, quando participou de seus primeiros trabalhos. A partir de 1995 até 2003 dedicou-se a Cia. Tamanduá de Dança Teatro, também sob direção artística de Kusuno. De 2002 a 2013 atuou em TABI e o Sonho da Raposa, com Emilie Sugai. Dentre outros trabalhos, criou também a performance instalação Wabi-Sabi que circulou de 2016 a 2019*.
O essencial visível aos olhos
Atravessar fronteiras, épocas e linguagens sem jamais se separar da arte era a marca registrada de Dorothy. Nascida em Bucareste, teve uma infância marcada pela morte precoce do pai, a ascensão do nazismo na Europa e a fuga, ainda menina, em um trem lotado de refugiados.
Com sete anos, deixou a Romênia ao lado da mãe e do irmão, atravessou a Itália e seguiu de navio para a Argentina, carregando nos pés, escondido nas botas, o pouco dinheiro reservado meio à crise humana gerada pela guerra.
Na Argentina, cresceu entre deslocamentos afetivos e culturais que forjaram um amadurecimento precoce e um corpo atento, inquieto, pouco disposto à obediência automática. Dorothy buscava o movimento, a liberdade, a experiência direta da vida.
Era bailarina, atriz e, no Brasil, construiu sua carreira. Conciliando o trabalho com a criação de três filhas, teve que fazer escolhas muitas vezes difíceis, como a temporada de estudos em Londres, em 1966, quando representou o Brasil no British Drama League.
O encontro com mestres, em especial Takao Kusuno, aprofundou uma compreensão que atravessará toda sua obra: dançar não é negar os limites do corpo, mas atravessá-los. Com o tempo, Dorothy se aproximou do butoh* e de linguagens que dispensam excesso de palavras. Seu interesse passa a ser o gesto essencial, o silêncio, a presença. O palco, para ela, não é separação da vida, mas extensão dela.
O envelhecimento tornou-se matéria de criação. Dorothy transformou a passagem do tempo em campo de pesquisa, recusando a ideia de juventude como medida única de valor. Em suas performances e ações, sobretudo junto a jovens, afirmou que cada idade carrega uma forma própria de potência. O corpo muda, e com ele mudam os caminhos, os ritmos, as possibilidades.
Dorothy construiu uma ética baseada na escuta, na atenção e no respeito ao próprio tempo e ao tempo do outro. Viveu entre cidades e paisagens e encontrou na natureza uma interlocutora constante.
A história de Dorothy Lenner é a de alguém que atravessou o século sem romper o vínculo entre corpo, pensamento e sensibilidade. Sua vida não se organiza em linhas retas, mas em desvios, tentativas e reaprendizados, cuja a vida nada mais é que uma forma de improvisação contínua. Obrigada, Dorothy.
*Currículo detalhado por Emilie Sugai no instagram.
*Butoh (舞踏) é uma forma de dança japonesa pós-guerra, criada por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, caracterizada por movimentos lentos, expressivos e viscerais, que exploram o "corpo morto" para expressar a alma, usando maquiagem branca e roupas mínimas, emergindo da necessidade de uma expressão puramente japonesa em um Japão modernizado, misturando tradição com influências do expressionismo alemão e surrealismo, e focando na energia interna e na relação do corpo com a terra.







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