Senado virou o centro da disputa nas eleições de 2026
- Daniela Mendes
- 14 de mai.
- 9 min de leitura
De Casa revisora a arena decisiva, em 2026, o Senado ganha dimensão estratégica inédita e coloca em disputa o equilíbrio entre Congresso, STF e Presidência da República.

Durante muito tempo, as eleições para o Senado passavam despercebidas pela população. As atenções se concentravam na Presidência da República, nos governos estaduais ou, quando muito, nas disputas para a Câmara dos Deputados. Tanto que qualquer número de legenda bastava para concluir a votação.
Em 2026, porém, o cenário mudou. A corrida pelas cadeiras do Senado se tornou prioridade para diferentes grupos políticos, especialmente para setores mais à direita. A disputa passou a ocupar um lugar central nas estratégias eleitorais do país.
O motivo é simples: o Senado não é apenas uma casa legislativa. Ele possui poderes institucionais capazes de alterar profundamente os rumos políticos do Brasil. Nas eleições de 2026, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras da Casa, o que significa uma renovação de dois terços do Senado Federal. Cada estado e o Distrito Federal elegerão dois senadores. Como o mandato é de oito anos, o resultado dessa eleição pode influenciar diretamente o funcionamento do Congresso até meados da próxima década.
Mais do que aprovar leis, o Senado tem atribuições que atravessam o funcionamento de toda a República. A chamada Casa Alta é responsável por aprovar ministros do Supremo Tribunal Federal, julgar pedidos de impeachment, avaliar autoridades indicadas pelo presidente da República e revisar projetos vindos da Câmara. Em momentos de crise institucional, seu peso político cresce ainda mais.
Nos últimos meses, analistas políticos, parlamentares e veículos da imprensa nacional passaram a destacar uma movimentação intensa de grupos ligados ao bolsonarismo para conquistar maioria na Casa.
A avaliação, segundo especialistas, é que controlar o Senado pode ser tão ou até mais importante do que colocar um representante na cadeira da Presidência. Pois assim, mesmo fora do Executivo, uma maioria no Senado permitiria à direita ampliar pressão sobre o Supremo Tribunal Federal, bloquear indicações do governo federal para tribunais superiores, abrir CPIs, influenciar presidências de comissões e impulsionar pautas conservadoras de forma mais consistente.
Derrubar o muro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Essa estratégia aparece num contexto de tensão crescente entre setores da direita e o STF. Nos últimos anos, ministros da Suprema Corte passaram a ser alvo frequente de ataques políticos, pedidos de impeachment e campanhas públicas de desgaste depois de ministros se destacarem em diversos episódios que contiveram os planos do bolsonarismo.
O papel do Supremo Tribunal Federal durante o governo de Jair Bolsonaro foi frequentemente descrito por apoiadores da Corte como um “muro de contenção” diante de ações, discursos e articulações considerados ameaças às instituições democráticas. Os críticos, por outro lado, acusaram o STF de extrapolar competências e assumir protagonismo político.
Entre os principais embates, para relembrar e citar como exemplo, esteve o "inquérito das fake news", aberto em 2019 e relatado por Alexandre de Moraes. A investigação buscava apurar ataques coordenados contra ministros do Supremo, o Congresso e o sistema eleitoral. Em 2021, Bolsonaro passou a ser investigado após ele declarar sem provas que havia fraude nas urnas eletrônicas.
Outro ponto decisivo foi a reação institucional aos ataques ao sistema eleitoral. O STF e o Tribunal Superior Eleitoral atuaram para conter campanhas de desinformação contra as urnas eletrônicas e responderam às reiteradas falas de Bolsonaro questionando a legitimidade das eleições de 2022. A reunião do então presidente com embaixadores estrangeiros, em julho de 2022, é frequentemente citada como marco da escalada institucional que culminaria nos atos golpistas de janeiro de 2023.
Nela, Bolsonaro reuniu dezenas de diplomatas estrangeiros e teve como tema oficial a “segurança das urnas eletrônicas”. Na prática, ele usou a apresentação para repetir acusações sem provas sobre fraudes eleitorais, atacar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministros do STF. O episódio, a poucos meses antes das eleições de 2022, foi interpretado por adversários, pelo TSE e depois pela PGR como parte da estratégia de descredibilizar o processo eleitoral caso o então candidato e ex-presidente perdesse a disputa presidencial.
Foi justamente essa reunião que serviu de base para a condenação de Bolsonaro no TSE por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, decisão que o tornou inelegível até 2030. Assim cresceu ainda mais a querela de setores conservadores com o judiciário.
O muro e a trama golpista
Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022, os atos antidemocráticos ganharam intensidade, com bloqueios de estradas, acampamentos em frente a quartéis e pedidos de intervenção militar. O auge ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. O STF abriu múltiplos inquéritos para investigar executores, financiadores, organizadores e agentes públicos ligados aos ataques.
Nesse contexto, o Supremo consolidou sua atuação como principal articulador da responsabilização institucional. O tribunal recebeu denúncias da Procuradoria-Geral da República, tornou centenas de envolvidos réus e posteriormente condenou participantes dos atos por crimes como tentativa de golpe de Estado, associação criminosa e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
A própria investigação sobre tentativa de golpe passou a conectar diferentes episódios: a “minuta do golpe”, o envolvimento de membros do governo das Forças Armadas, a disseminação de desinformação eleitoral, a descoberta de um plano para assassinar o ministro Alexandre de Moraes, o presidente Lula e o vice Alckimin e os atos de 8 de janeiro. Em 2025, Moraes citou esses elementos ao votar pelo recebimento da denúncia contra o chamado “núcleo crucial” da trama golpista.
Enquanto a responsabilização fluia no judiciário, outras questões entravam em disputa no parlamento e na opinião pública. Houve forte debate sobre os limites do Supremo. Juristas, políticos e ex-ministros criticaram a concentração de investigações nas mãos de Moraes e o modelo em que o STF aparecia simultaneamente como vítima, investigador e julgador em alguns casos. Essas críticas cresceram especialmente após prisões preventivas, bloqueios de perfis em redes sociais e operações contra aliados bolsonaristas.
A guerra das emendas parlamentares
Outro tema importante no período foram as emendas parlamentares, especialmente o chamado “orçamento secreto” (emendas de relator RP9). As emendas parlamentares são instrumentos do orçamento público que permitem a deputados e senadores indicar onde parte do dinheiro da União será aplicada. Em tese, servem para que parlamentares direcionem recursos para demandas de suas bases eleitorais — hospitais, asfaltamento, equipamentos, universidades, obras municipais, etc.
Na prática, elas se tornaram também uma poderosa ferramenta de negociação política entre Executivo e Congresso. O governo envia ao Congresso a proposta de orçamento anual. Durante a tramitação, parlamentares podem propor alterações: as chamadas emendas parlamentares.
Há vários tipos. Nas emendas individuais, cada deputado e senador tem direito a uma cota fixa anual para indicar recursos. Desde 2015, elas se tornaram “impositivas”, ou seja: o governo é obrigado a executar parte delas. As emendas de bancada são apresentadas coletivamente pelas bancadas estaduais. Costumam financiar obras maiores e projetos regionais. As de comissão são as referentes às de temáticas da Câmara e do Senado.
Agora, as emendas de relator (RP9) foram criadas originalmente para ajustes técnicos do orçamento, ganharam enorme poder no governo Bolsonaro e ficaram conhecidas como “orçamento secreto”. Nesse modelo, o relator-geral do orçamento distribuía bilhões de reais sem critérios transparentes claros sobre quem pediu o recurso e por quê. O mecanismo fortaleceu lideranças do Centrão e ampliou a dependência do Executivo em relação ao Congresso. Com isso, o Brasil virou uma espécie de parlamentarismo informal.
Em 2022, a Corte (STF) considerou inconstitucional o modelo do orçamento secreto por violar princípios de publicidade e rastreabilidade dos gastos públicos. A decisão atingiu um dos principais instrumentos de articulação política entre o governo Bolsonaro e o Congresso, especialmente o bloco do Centrão.
Assim, o período Bolsonaro consolidou um novo protagonismo do STF na política brasileira. Para seus defensores, a Corte funcionou como barreira institucional contra ataques à democracia e ao sistema eleitoral. Para críticos, esse protagonismo ampliou excessivamente o poder do Judiciário e tensionou a separação entre os Poderes.
A saída pelo senado nas eleições
Como cabe ao Senado processar e julgar ministros do Supremo em eventuais processos de impeachment, a composição da Casa passou a ser vista como peça-chave na disputa de poder nacional. A importância desse movimento ajuda a entender por que o Senado deixou de ocupar um papel secundário no imaginário político brasileiro.
Enquanto a Câmara dos Deputados representa a população proporcionalmente ao número de habitantes de cada estado, o Senado funciona como representação federativa. Todos os estados possuem o mesmo peso: três senadores cada, independentemente do tamanho da população. São Paulo e Acre, por exemplo, elegem o mesmo número de representantes.
O sistema eleitoral também é diferente. Na disputa para senador, vence quem recebe mais votos, sem cálculo proporcional como ocorre na Câmara. Em 2026, como haverá duas vagas por unidade federativa, serão eleitos os dois candidatos mais votados em cada estado.
A disputa em Minas Gerais
Em Minas Gerais, o cenário chama atenção por outro motivo: desde a redemocratização, o estado nunca elegeu um senador identificado com partidos de esquerda. As cadeiras mineiras no Senado foram historicamente ocupadas por nomes ligados ao centro, centro-direita e direita, como Aécio Neves, Antonio Anastasia, Rodrigo Pacheco e Carlos Viana. Em 2018, a ex-presidenta Dilma Rousseff tentou uma vaga pelo PT, mas terminou a disputa em quarto lugar.
O dado ajuda a revelar o peso histórico e simbólico da eleição de 2026 em Minas. Caso a esquerda consiga conquistar uma das vagas, será um feito inédito desde a Constituição de 1988.
A disputa mineira também aparece marcada por um cenário fragmentado e ainda bastante indefinido. A pesquisa Quaest divulgada em maio mostra liderança de Marília Campos (PT), mas com percentuais relativamente baixos diante do tamanho do eleitorado ainda sem voto consolidado.
Em um dos cenários, Marília aparece com 19%, seguida por Aécio Neves (PSDB) com 11%, Carlos Viana (PSD) com 10%, Marcelo Aro (PP) com 9% e Domingos Sávio (PL) com 8%. Áurea Carolina(PSOL) registra 6%. O dado mais expressivo, porém, está fora das candidaturas: 13% dos entrevistados disseram estar indecisos e outros 20% afirmaram votar em branco, nulo ou não votar. Ou seja, um terço do eleitorado ainda não escolheu efetivamente um nome.
Em outro cenário da pesquisa, Marília (PT) mantém os 19%, enquanto Carlos Viana (PSD) aparece com 10% e Domingos Sávio (PL) com 8%. Já num terceiro cenário, mais enxuto, Carlos Viana sobe para 15% e reduz a distância para Marília, que cai para 17%. O levantamento revela um quadro de alta volatilidade e indica que a corrida ao Senado em Minas ainda está aberta, sem favoritismos consolidados. Em alguns cenários, o percentual de indecisos, brancos e nulos chega a 40% do eleitorado.
Combate escancarado
Em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, por exemplo, a eleição para o Senado já começa a desenhar alianças nacionais e disputas que ultrapassam os limites estaduais. O cargo passou a ser tratado como um espaço de poder decisivo para definir o rumo político do país nos próximos anos.
O peso institucional do Senado ficou evidente em episódios recentes da política brasileira. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o embate em torno das indicações para o Supremo Tribunal Federal. Em 2025, cresceu a pressão de parlamentares conservadores para endurecer a sabatina de indicados do governo Lula ao STF, transformando a Casa em palco direto da disputa entre Executivo e Legislativo. Já que os ministros da Suprema Corte só assumem após aprovação dos senadores.
A recente indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal acabou se transformando em um dos episódios mais tensos da relação entre o governo Lula e o Senado. Messias enfrentou forte resistência de setores da oposição bolsonarista e também de parte do Centrão. Pesaram contra ele críticas sobre sua proximidade política com o PT, sua atuação à frente da Advocacia-Geral da União e o receio, entre senadores, de ampliar ainda mais a influência do governo sobre o STF. Após uma sabatina marcada por embates e questionamentos duros, sua indicação foi rejeitada pelo Senado em abril. Um fracasso histórico, já que foi a primeira vez desde 1894 que o Senado rejeitou um indicado ao STF.
Outro exemplo foi a intensificação dos pedidos de impeachment contra ministros do STF. Embora esses processos raramente avancem, cabe exclusivamente ao Senado analisar e julgar esse tipo de ação. O tema ganhou força entre grupos bolsonaristas, que passaram a defender explicitamente a conquista de maioria na Casa como forma de aumentar a pressão institucional sobre o Supremo. A discussão revelou algo importante: controlar o Senado significa também disputar os limites entre os Poderes da República.
Também foi na Casa Alta que se concentraram debates sobre CPIs e investigações envolvendo o governo federal, ministros e temas ligados aos atos antidemocráticos dos últimos anos. Presidências de comissões, relatorias e articulações internas mostraram como a correlação de forças dentro do Senado pode acelerar ou frear investigações com impacto nacional.
Nesse cenário, as eleições de 2026 passam a ter um significado que vai além da renovação parlamentar. O que estará em disputa não é apenas quem legisla, mas quem terá força para influenciar tribunais, barrar medidas do Executivo e participar diretamente da mediação das crises institucionais brasileiras.





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