Crônica de Domingo
- Daniela Mendes
- 14 de jun.
- 5 min de leitura
Aqui estamos: nada além de flores.
Entre o concreto e o simulacro, uma crônica sobre plantas que insistem em nascer, memórias que resistem ao esquecimento e afetos que ainda furam o cotidiano.

Quando há alguns anos minha mãe veio me visitar, a minha rua não havia sido coberta por concreto. Ela observou que nascia no espaço onde hoje é calçada, hortaliças comestíveis que ela só havia visto e comido em sua infância na roça. É o que hoje adeptos da comida saudável chamam de planta alimentícia não convencional, sigla panc. Geralmente elas não são vendidas em verdurões e supermercados, o que já categoriza esses ingredientes como cool.
Eu confio muito nos ensinamentos que minha mãe me passou despretensiosamente em um dia há anos quando saímos pra passear aqui em Tiradentes (ela sempre ensina, na verdade). A única distinção que ela tem de uma pessoa que fez curso superior e viajou o mundo, ela que nem chegou ao ensino médio, é o fato dela não emoldurar sua sabedoria. E toda vez que dou notícias das minhas plantas, minha mãe me lembra que a terra da minha rua é boa. Só isso.
Ano passado, concretaram toda a rua. Foi nem piche, e sim concreto mesmo. E tal qual a minha surpresa, as plantas romperam o cimento. Basta uma fresta mínima para que elas despontem intrometidas. Vejo nelas uma contestação da natureza de um espaço que lhe foi tomado. E meu coração revolucionário se alegra com a esperança que essa existência comunica aos meus olhos.
É sempre assim quando vou a padaria, a um aniversário ou tirar uma nota fiscal na prefeitura. E como toda a gente feliz, costumo ser sempre educada: Oi gato, oi cachorro, bom dia cavalo e ooopa camarada picão preto! Eu não dependo unicamente da beleza óbvia da Serra de São José que abraça a cidade e emoldura casamentos sofisticados. (Como vocês devem ter percebido, dou bom dia a cavalo sim por mais que isso seja desaconselhável.)
Sexta-feira fui resolver uma pendência e aproveitei para levar meu ipod para passear porque é necessário ter este momento sem algoritmos. E tal qual a minha surpresa, percebi que uma espécie trepadeira, talvez chuchu, chegou aos fios do poste da companhia de energia a metros do chão. Acostumada a ver somente tal rebeldia presa à terra, aquilo teve o efeito de um sol num dia branco tomado por uma chuva inconveniente. A rebeldia foi longe demais! Gargalhei.
A trilha sonora incidiu no instante como uma predestinação. A voz maravilhosa do vocalista do Talking Heads, David Byrne, esse grande nome do pós-punk e divulgador da chamada world music...
INTERVALO
Vale lembrar aqui, não por gratidão, mas para criticar essa espécie de amnésia nacional que assola artistas brasileiros, que David Byrne ajudou a recolocar Tom Zé no mapa. Ao lançar o tropicalista pelo selo Luaka Bop nos anos 1990, apresentou ao público internacional um artista que, no próprio país, já corria o risco de ser tratado como nota de rodapé.
O episódio diz muito sobre nós. Às vezes, é preciso que algo seja reconhecido do lado de fora para que volte a ser visto do lado de dentro. Um movimento com um atalho desnecessário.
VOLTANDO A NOSSA PROGRAMAÇÃO NORMAL.
A música da Talking Heads, de Byrne, que incidiu ali com a imagem da trepadeira nos fios do poste é uma canção de 1988, (Nothing but) Flowers. Após uma introdução vibrante, o escocês leva segundos para evocar um verso curto: “Aqui estamos”, e continua em outro, “como Adão e Eva... Cachoeiras. O Jardim do Éden. Dois tolos apaixonados”, enumera.
Não é raro a música perfeita se abater sobre pequenos instantes do cotidiano porque escuto muita música. E o efeito é, ouso dizer, o que motiva um hábito que bem poderia ser um vício não fosse um rito ensimesmado o qual é preciso maneirar.
Porque a canção fala de um futuro em que a civilização desapareceu. E junto a ela os estacionamentos, shoppings, fábricas, rodovias e restaurantes. De forma potente, a natureza retomou tudo. Onde antes havia concreto, agora existem flores, árvores e campos, uma utopia ecológica que o picão preto que ainda brota na calçada na esquina da minha casa parece reivindicar.
Na agricultura, uma "erva daninha" é uma planta que cresce onde alguém decidiu que ela não deveria estar. Na letra da música, a natureza inteira se torna uma espécie de "erva daninha" aos olhos do narrador: ela invade estacionamentos, lojas e estradas, rompendo a ordem estabelecida.
Mas, eis a ironia porque a história não termina aí: o narrador odeia aquilo tudo. Porque ele sente falta da Pizza Hut e lamenta o fim do que é artificial. A reflexão não é maniqueísta, porque para Byrne a relação entre humanidade e natureza é mais complexa. A engenhosidade humana também é algo lindo de se ver e não merece a destruição completa.
Embora a vegetação apareça como uma força transgressora, aquilo que a fauna e a flora toma e apaga, também era uma capacidade humana de se inventar. O narrador percebe o valor da natureza apenas depois de destruí-la, mas quando ela retorna à paisagem sente uma nostalgia da civilização; também percebe que sentia falta das conveniências da vida moderna, ou melhor, que havia algo bom nas invenções humanas.
A reflexão aqui nos põe numa encruzilhada que poucos são capazes de reconhecer. Quando uma ordem aparentemente permanente é desmontada e substituída por outra, quando as flores vencem, a vitória não é tão simples quanto parece.
Perceba: Tom Zé sobreviveu como uma raiz profunda sobrevive, mas não andava muito bem sem o reconhecimento da indústria fonográfica porque não tinha público. E quem é o artista sem seu público?
O mato que nasce no asfalto... Ou me permita ser mais sentimental, nesta época do ano em que as margaridonas amarelas infestam a cidade, a gente tem que lembrar que elas o fazem não como declaração de guerra, mas porque simplesmente seguem um imperativo que é existir conforme sua própria natureza. Enquanto isso, a humanidade hoje se encontra diante da encruzilhada do hiper desenvolvimento das tecnologias de comunicação, dissolução da sociedade de massa e uma crescente dependência a uma inteligência artificial.
É uma situação que dá um protagonismo à operação de simulacros que dariam um nó na cabeça de Kant a Nietzsche. Heidegger ficaria sufocado em véus de uma Barbie vestida de odalisca colorida dançando a sua volta passos árabes ao som de Talking Heads. E isso sendo conscientemente leviana só para fazer graça... Eu sei pouco de filosofia, e sei que Baudrillard e outros profetizaram essa crise ainda em sua gênese dando muito bem conta do assunto.
Voltando à plantinha que brota no muro, às margaridas que nascem fora de jardins e trepadeiras que escondem os fios de cobre, eu penso que é tentador demais querer retornar à idade da pedra. Mas a gente não muda o passado. O que nos mantém conectados a ele de forma a fazer de nossas vidas uma ponte sólida que promove encontros é a nossa identidade. E não falo de tradição.
Identidade é não esquecer para que serve os nossos pés antes de substituí-lo por rodas. É lembrar o valor das coisas mais corriqueiras, apesar de não captá-las quando elas passam corridas por nós. É não furtar atenção à fala de um amigo quando ele está ao seu lado e os seus olhos são sequestrados por uma tela acesa.
E aí entramos, talvez, no que é mais importante ao invés de nos alongar numa lista grande. O que sustenta a nossa identidade é tão somente a relação selvagem com as coisas que nos rodeiam. É o que chamo de afeto, o que fura o concreto e é também coberto por ele. É quando mamãe diz que um matinho é gostoso refogado com pernil e angu só porque a vovó costumava fazer.





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