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Contra o apagamento, a memória: CineOP revisita mulheres cineastas

Na CineOP, as mulheres cineastas ocupam o centro da memória coletiva em uma edição que homenageia Helena Solberg, pioneira do cinema realizado por mulheres no Brasil.


Cineasta Helena Solberg sentada numa poltrona.
Helena Solberg. Foto: Ique Esteves
Daniela Mendes self de perfil.

Por Daniela Mendes.


Em um país onde a história das mulheres frequentemente é apagada dos registros oficiais, preservar imagens também é preservar memórias, trajetórias e formas de existir. É justamente essa reflexão que orienta a 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), que começa hoje e vai até 30 de junho sob o tema "Um país existe nas imagens que preserva".


Ao homenagear também a cineasta Helena Solberg, pioneira do cinema realizado por mulheres no Brasil, o evento reafirma a importância da memória audiovisual como instrumento de transformação social e reconhecimento de vozes historicamente invisibilizadas.



Feminino Plural
Feminino Plural, direção Vera Figueiredo. Foto: divulgação

Com 135 filmes, debates, oficinas, masterclasses e atividades culturais gratuitas, a programação destaca a trajetória de várias cineastas que ajudaram a abrir caminhos para gerações de realizadoras brasileiras.


E, se os festivais de cinema funcionam como vitrines da produção audiovisual, a CineOP utiliza essa característica para retornar no tempo e enfrentar também um problema recorrente em diferentes áreas da sociedade: o apagamento sistemático dos conhecimentos, culturas e modos de vida produzidos por mulheres.


Tomando os anos 1970 como marco histórico do surgimento do chamado “cinema de mulheres”, a curadoria de Cléber Eduardo e Juliana Gusman recua na história para recuperar trajetórias antes sub-representadas na historiografia do audiovisual brasileiro.


A programação reúne obras de diferentes gerações, entre elas “Feminino Plural” (Vera de Figueiredo, 1976), filme que completa 50 anos e retrata a condição da mulher brasileira em diferentes camadas sociais; “Mar de Rosas” (Ana Carolina, 1977), farsa familiar que subverte papéis de gênero com ironia e invenção formal; “Que Bom te Ver Viva” (Lucia Murat, 1989), que entrelaça depoimentos reais de ex-presas políticas a uma personagem de ficção para tratar da tortura durante a ditadura militar; “Um Céu de Estrelas” (Tata Amaral, 1996), mostrando uma mulher diante da violência doméstica num único fluxo de ação; e “Um Dia com Jerusa” (Viviane Ferreira, 2020), sobre o encontro de duas mulheres no bairro do Bixiga, carregado de memórias ancestrais.



Gusman afirma que ao observar a produção de longas-metragens de ficção realizados por mulheres, a Cine OP busca lançar luz sobre uma lacuna histórica e sistemática na memória do cinema brasileiro: a presença feminina nesse campo da produção cinematográfica.

"Historicamente, as mulheres conseguiram acessar com mais frequência o curta-metragem, o cinema experimental e o documentário, formatos mais acessíveis em termos materiais e de meios de produção", situa e explica que, por isso, ao olhar para aquelas que conseguiram realizar seus primeiros longas de ficção, a Mostra procura compreender como diferentes gerações de realizadoras enfrentaram desafios específicos de seus contextos históricos, mas também obstáculos que permanecem ao longo do tempo.


A proposta, ela explica, é criar um encontro que permita compreender as estruturas que ainda dificultam a realização de longas-metragens ficcionais por mulheres e, ao mesmo tempo, perceber como essas barreiras se transformam em criatividade estética e formal. "Trata-se de observar de que maneira os desafios históricos aparecem inscritos na linguagem dos filmes", acrescenta.



Para a curadora, a partir dessas trajetórias, a CineOP também busca refletir sobre caminhos futuros para a criação, as políticas públicas e os mecanismos de fomento, contribuindo para que mais mulheres possam realizar longas-metragens.


E defende: "Olhar para o cinema realizado por mulheres continua sendo um gesto necessário. Pensar as mulheres como categoria metodológica e analítica permite observar um conjunto de filmes que muitas vezes permanece fora do campo de visão tradicional da crítica e da historiografia".


Feminismo e cinema


A cineasta Helena Solberg é a realizadora de uma obra considerada um marco do cinema realizado por mulheres no Brasil e frequentemente é apontada como responsável por um dos primeiros filmes feministas da produção moderna brasileira. Estamos falando de “A Entrevista”, que reúne depoimentos de jovens da classe média alta sobre casamento, sexo e trabalho.


Radicada nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, desenvolveu a Trilogia da Mulher – “The Emerging Woman” (1974), “The Double Day” (1975) e “Simplesmente Jenny” (1977) – produzida no âmbito do International Women's Film Project, coletivo que liderava em Washington. Na década seguinte, voltou as câmeras para as ditaduras latino-americanas em “Chile, By Reason or By Force” (1983).


No Brasil, dirigiu o biográfico “Carmen Miranda: Bananas is My Business” (1995), que busca resgatar a

Cartaz do Filme A entrevista de Helena Solberg
Cartaz do filme "A Entrevist", de David Meyer

identidade real da artista para além da caricatura hollywoodiana, e “Vida de Menina” (2003). Mais recentemente retomou o engajamento político em “Meu Corpo, Minha Vida” (2017), sobre direitos reprodutivos a partir da história de uma vítima de aborto clandestino, e “Uma Carta para Beatrice” (2022), no qual revisita a própria trajetória.


A homenagem ao pioneirismo nos conduz do passado ao presente na programação, com obras que também revisitam a memória por meio de arquivos e registros históricos. A Mostra Competitiva reúne cinco longas-metragens que têm em comum o uso criativo de imagens de arquivo para construir novas narrativas audiovisuais.


Sob o título Arquivos em Questão, a seleção valoriza o trabalho de realizadores que utilizam o arquivo não apenas como registro, mas como linguagem artística. O melhor filme será escolhido pelo júri e receberá o Troféu Vila Rica na cerimônia de encerramento.


Mulheres Cineastas além Minas Gerais


Se levarmos em consideração os festivais e competições, os anos recentes indicam mudanças importantes na presença das mulheres no cinema brasileiro, embora a igualdade ainda esteja longe de ser alcançada.


Em 2024, o Festival de Gramado ofereceu um retrato significativo desse avanço ao selecionar um número expressivo de longas dirigidos por mulheres para sua principal competição nacional. A presença feminina foi tão marcante que a edição ficou conhecida pelo protagonismo das realizadoras brasileiras, evidenciando mudanças em um espaço historicamente dominado por homens. Eliane Caffé recebeu o prêmio de Melhor Direção por “Filhos do Mangue”, enquanto “O Clube das Mulheres de Negócios”, de Anna Muylaert, conquistou o Prêmio Especial do Júri.


Kikito
Foto reprodução de rede social.

A tendência continuou em 2025 quando Laís Melo levou o Kikito de Melhor Direção pelo filme “”. Além do festival evidenciar a permanência das mulheres entre as produções mais reconhecidas do festival ao destacar “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, vencedor do Prêmio Especial do Júri.


No mesmo período, o Festival de Brasília e a Mostra de Cinema de Tiradentes continuaram desempenhando um papel fundamental na renovação do audiovisual brasileiro. Diferentemente das grandes premiações comerciais, esses espaços historicamente acolhem produções experimentais, autorais e independentes, abrindo caminho para novas vozes e trajetórias.


Em 2026, embora muitos dos principais festivais brasileiros ainda estejam em curso ou tenham dados parciais disponíveis, a presença feminina consolidou-se como parte incontornável do debate audiovisual. A discussão já não gira apenas em torno da participação das mulheres, mas também da diversidade de histórias, territórios e experiências que elas trazem para as telas.


Mulheres no centro da programação


A ideia de ampliar o espaço dedicado às mulheres no audiovisual não é uma pauta recente nos festivais realizados pela Universo Produção. É o que a coordenadora da CineOP, Raquel Hallack, faz questão de lembrar até como um traço característico da produção. "A presença feminina sempre esteve no centro da Mostra de Cinema de Tiradentes, da CineOP e da CineBH, seja por meio do trabalho de diretoras, produtoras, roteiristas, montadoras, pesquisadoras, preservadoras, curadoras, educadoras, atrizes ou gestoras culturais", afirma.


Em 2025, a Mostra de Tiradentes homenageou a atriz Bruna Linzmeyer e reafirmou sua importância como porta de entrada para realizadoras emergentes e para narrativas que frequentemente encontram menos espaço nos circuitos comerciais.


Naquele mesmo ano, em Ouro Preto, quando a Cine OP celebrou seus 20 anos, o tema histórico foi dedicado ao humor das mulheres no cinema brasileiro, com homenagem à atriz Marisa Orth e uma programação que recuperou a trajetória de diretoras e roteiristas responsáveis por ampliar os limites da comédia nacional. Na mesma edição, o documentário “Paraíso”, de Ana Rieper, conquistou o principal prêmio da primeira mostra competitiva do evento, evidenciando o protagonismo feminino tanto na memória quanto na produção contemporânea do cinema brasileiro.


Em Tiradentes, o principal prêmio da Mostra Olhos Livres de 2026 foi concedido ao documentário “Anistia 79”, dirigido por Alice Andrade e roteirizado por Anita Leandro. A dupla conquistou o júri oficial e o júri popular, o que reforçou o reconhecimento de realizadoras que vêm ampliando os temas e as linguagens no audiovisual nacional.


Premiação da Mostra de Cinema de Tiradentes
Premiação de Anistia 69 em Tiradentes. Foto: Foto Leo Lara/Universo Produção

De acordo com Hallack, o compromisso com a igualdade de gênero se traduz na seleção de filmes, nas homenagens, na composição de mesas de debate e encontros profissionais, além da valorização de trajetórias históricas e contemporâneas e da criação de espaços de reflexão sobre representatividade, equidade e diversidade no setor audiovisual.


Para a coordenadora, os desafios agora passam pela construção de um ambiente cada vez mais diverso e inclusivo, ampliando oportunidades para mulheres de diferentes gerações, territórios e pertencimentos, especialmente mulheres negras, indígenas, periféricas e integrantes de grupos historicamente sub-representados.


Imaginar e criar espaços


Nesse sentido é inegável o papel histórico destes eventos como espaços de descoberta de novos talentos e de promoção da diversidade de vozes no cinema brasileiro. Ao observar quem são os filmes exibidos e premiados, é possível perceber não apenas tendências estéticas, mas também transformações mais amplas nas relações de gênero dentro do audiovisual contemporâneo.


Ao homenagear Helena Solberg, a CineOP não apenas celebra uma trajetória individual. Reconhece também uma geração de mulheres que filmou quando quase não havia espaço para fazê-lo e ajuda a garantir que essas imagens continuem produzindo sentido para as próximas gerações.


Observar a presença feminina em festivais como Gramado, Brasília, Ouro Preto e Tiradentes nos permite acompanhar mudanças mais profundas na produção cinematográfica. Afinal, quando mais mulheres dirigem, roteirizam e produzem filmes, não é apenas a composição da indústria que se transforma. Transformam-se também as histórias que são contadas, os corpos que ganham visibilidade e as possibilidades de imaginar outros futuros.




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