Do silêncio ao baile: Alice Assoviei e o forró mineiro
- Daniela Mendes
- 1 de jun.
- 7 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
Entre a timidez e o palco, Alice Assoviei transforma vivências do interior em forró mineiro, música autoral e ocupação cultural em São João del-Rei.


Por Daniela Mendes.
Para falar como a subversão da tristeza se dá pela extravagância de se reconhecer artista, Alice assoviou uma história muito íntima de superação. Ela chegou de mansinho aos bailes da vida, pois a timidez a deixava escondida. Depois, de tanto olhar de longe, a zabumba já tinha tomado o ritmo dos batimentos do seu peito. Uma operação que a aproximou do palco, onde passou a compartilhar a música e a poesia que guardava só para si.
Hoje, em São João del-Rei, ela defende o forró numa perspectiva mineira. No rodar das saias das festas julinas, mais reconhecidas no Nordeste porque o ritmo que as embala também tem origem naquela região, Alice dá um sotaque mineiro à festa.
E para falar sobre tudo isso, ela foi encontrar a Revista Mana na Praça Dr. Salatiel, numa tarde ensolarada de outono, vestida com peças artesanais coloridas. E o surprendente não era a criatividade exposta pela escolha das roupas, mas por compor a personalidade de alguém que se define como tímida. O contraste do que se é no íntimo para o que se mostra só se resolve quando ela canta. "Cantar? Agora? Ai, meu Deus!", recua. Logo depois, solta os versos de "Feitiço": "Foi lançado o feitiço naquele dia que cê me viu no forró".
Construindo Alice Assoviei

Assoviei, sua alcunha artística, nasceu de uma brincadeira com o próprio nome. Na época em que as redes sociais incentivavam nomes de usuário criativos, Alice havia criado uma combinação de letras inspirada em seu nome completo, Alice Santos Vieira. Um amigo observou a sonoridade e comentou que aquilo parecia "Assoviei". O apelido ficou. Além de remeter ao sobrenome Vieira, acabou ganhando novos significados ligados ao assovio, à música e à artista que ela viria a se tornar.
Mas se reconhecer artista exigiu mais método. Crescida em Itanhandu, cidade do sul de Minas Gerais, Alice conta que demorou a enxergar a música como uma possibilidade profissional. "Eu senti uma cobrança por ter uma profissão que fosse dar dinheiro. Quando eu era adolescente, tive esse receio até de me denominar artista, de olhar para isso de fato como algo que eu poderia seguir fazendo, como uma profissão."
Essa insegurança a levou para a psicologia. A escolha, no entanto, acabou se tornando uma paixão. "Eu escolhi de um jeito quase aleatório, mas me apaixonei já pelas disciplinas básicas, como a filosofia." Hoje, ela atua na área clínica, profissão que segue paralelamente à carreira musical.
Mesmo depois de se mudar para São João del-Rei para estudar na UFSJ, a sensação de não pertencimento continuou. Durante os anos da graduação, acompanhava a cena cultural local à distância "Eu admirava a música, as amigas que tocavam, os shows, achava tudo maravilhoso, mas nunca chegava. Eu achava que não era para mim, que eu não fazia parte daquilo."
A mudança veio durante a pandemia. O período coincidiu com o fim da graduação, o término de um relacionamento e um processo intenso de análise. "Eu tive que morrer ali e nascer de novo para sustentar esse outro lugar que eu queria estar." Mais do que decidir investir na música, Alice percebeu que precisava se autorizar a ocupar esse espaço. "Era uma questão de permissão. Eu não me via podendo fazer parte. Quando eu falei 'eu posso', aí as coisas começaram a acontecer."
Entre costuras, escutas e canções

A arte já fazia parte da vida de Alice muito antes de ela se apresentar nos palcos. "Eu gostava de arte, e gostava não só de música, mas de tudo que envolvia arte, artesanato, desenhos. Isso era algo que sempre fez parte do meu universo."
Boa parte dessa relação nasceu da convivência com a avó, costureira. "Ela deixava espaços para eu imaginar muito, para eu criar, para brincar." Enquanto observava o trabalho da matriarca, Alice começou a produzir suas próprias invenções. "Ela foi me mostrando coisas e eu fazia bonecas, fazia brinquedinhos. Acho que parte daí."
Hoje, ela percebe aproximações entre a arte e a psicologia. Foi na psicologia analítica de Jung que encontrou uma linha de pensamento capaz de dialogar com sua maneira de olhar para o mundo. Ao mesmo tempo, a composição se tornou uma forma de elaborar sentimentos e experiências."O meu impulso de responder é por incômodo. Parece que escrevendo eu consigo dar vazão para sentimento, para angústia. Principalmente para as coisas que me incomodam.", elabora.
As músicas costumam nascer de forma intuitiva, com letra e melodia aparecendo juntas. E, para ela, lançar uma canção não significa encerrar uma história. "Essa composição que é sobre mim não é sobre mim. Se eu decidir lançar, ela vai ter outras caras, outros olhares."
O primeiro contato de Alice com a música aconteceu ainda na infância, em Itanhandu. "Meu pai falou que meu tio estava com um violão parado lá e que ele podia ficar lá em casa se eu quisesse aprender." Então ela começou a tocar por curiosidade e, pouco depois, passou a cantar no coral da igreja. Em seguida vieram os estudos de teoria musical, piano e flauta. Tudo isso aconteceu muito antes de qualquer plano de seguir carreira.
Hoje, ela ri de si mesma ao questionar o porquê de não considerar seriamente a cursar música. "Eu acho isso absurdo. A hora que eu lembro fico pensando: 'gente, o que será que passava na minha cabeça?'" Um disparate porque mesmo durante a faculdade de psicologia, a música seguiu presente. Alice trabalhou com oficinas musicais e começou a aproximar dois universos que acabariam se tornando centrais em sua trajetória. "Eu fui descobrindo várias coisas no decorrer do curso. Comecei a trabalhar com oficina de música. Então as coisas já se juntam, né?"
São João del-Rei: da sensação de não pertencimento à escolha de ficar

Quando chegou a São João del-Rei para estudar, Alice estava focada nos estudos. Vinda de uma cidade de cerca de 15 mil habitantes, sentia-se deslocada diante da intensa vida cultural que encontrava na cidade."Eu realmente vim para estudar, sem fazer mais nada. Eu só estudava. Eu era muito nova e me sentia muito menina perto dos meus colegas, da galera da cidade, dos shows."
Durante os seis anos da graduação, observou a cena artística local de fora. "Eu ficava pensando: 'gente, incrível'. Mas eu não me via ali, não achava que era capaz disso. Depois da pandemia, decidiu permanecer em São João del-Rei e construir sua vida ali. "Eu falei: 'não, agora eu vou aproveitar essa cidade'."
Nesse período surgiram os primeiros shows e parcerias. Um dos momentos que guarda com carinho foi a apresentação no antigo Cultivo, em Tiradentes, ao lado da primeira formação do Trem Lampejo, com João Lara e Rayan. "Aquele show foi muito simbólico. Foi o primeiro da banda."
Hoje, Alice fala de São João del-Rei com afeto. "Tem algo aqui. É difícil falar de São João. Eu tenho uma relação muito maluca com essa cidade." Para ela, a cidade possui uma riqueza cultural que muitas vezes passa despercebida por quem vive nela.
Timidez de artista e o empurrão do forró

A timidez continua presente. Quem vê Alice conduzindo um baile de forró ou cantando suas próprias composições dificilmente imagina que a exposição ainda exige esforço. Filmar videoclipes, gravar conteúdos para a internet ou ocupar espaços de destaque demanda concentração e energia. "Era muito pior", afirma.
Com o tempo, ela percebeu que não precisava deixar de ser tímida para ser artista. Encontrou conforto ao descobrir que artistas admirados, como Chico Buarque, também compartilham essa característica. Para ela, subir ao palco não significa abandonar a timidez, mas vencê-la a cada apresentação, como um desafio.
Embora tenha estudado diferentes instrumentos e transitado por diversas referências musicais, foi no forró que Alice encontrou sua linguagem mais íntima. "Meus pais ouviam muita MPB, mas forró não era uma coisa presente em casa."
A identificação surgiu em São João del-Rei. "Alguma coisa da minha subjetividade tem essa relação com a música nordestina. É difícil explicar, porque quando a música bate na gente, tem muita coisa inconsciente também." Contudo, ela consegue fazer suposições. Alice acredita que parte dessa conexão está relacionada à experiência de quem cresceu no interior. "Eu me vejo muito nas questões de alguém do interior, da roça, dessa forma de olhar para o mundo."
Mais do que um gênero musical, o forró representa encontro. "Trabalhar com forró é muito bom. Não tem tempo ruim. Mesmo quando fala de tristeza, de lamento, ele tem uma energia quente." Essa percepção também sustenta sua defesa daquilo que chama de "forró mineiro". Para ela, existe uma produção musical própria surgindo em São João del-Rei. "Eu acho que o que acontece aqui é muito específico.", aposta.
Projetos como o "Forró para Ontem", em São João del-Rei, e Forró no B, em Tiradentes, onde participou recentemente, fazem parte dessa construção em que ela aponta a meta. "Eu vislumbro cada vez mais isso: ocupar praças, ocupar espaços públicos."
O caminho de Alice

Alice começou a apresentar sua produção autoral ao público em 2025, com o lançamento de "Feitiço". Depois veio o EP "Explícita", composto por três faixas produzidas em parceria com a cantora e produtora Mari Blue, de Belo Horizonte. O trabalho explora sonoridades que se aproximam do pop e de elementos eletrônicos e foi realizado por uma equipe formada apenas por mulheres.
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Agora, os esforços estão voltados para o lançamento do primeiro álbum do "Trem Lampejo", previsto para este mês de junho. O trabalho reúne composições de diferentes autores ligados à cena musical de São João del-Rei e busca registrar aquilo que Alice define como um "forró mineiro". "É quase um álbum coletivo. A gente convidou compositores e gravou músicas de outras pessoas da cidade junto com as nossas."
Somando as memórias da infância, a escuta da psicologia e a necessidade de transformar sentimentos em canção, Alice construiu uma forma muito própria de criar e inspirar. Prova que arte e autoconhecimento não aparecem como caminhos separados, mas como partes de um mesmo processo de investigação da vida.






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